Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mato Grosso do Sul
Parte do agro do Estado foi preservado na lista de Trump
Publicado em 31/07/2025 9:13 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O tarifaço de 50% imposto por Donald Trump – com apoio do bolsonarismo – sobre produtos brasileiros ameaça a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos, mas Mato Grosso do Sul escapou parcialmente do golpe. Enquanto a carne bovina, carro-chefe das exportações sul-mato-grossenses, sofre forte impacto, produtos como celulose e ferro-gusa, que juntos representam mais de um terço das vendas do Estado aos norte-americanos, ficaram de fora da medida. A exclusão não veio sem esforços diplomáticos: uma missão oficial do Senado atuou nos bastidores para minimizar os danos da nova política protecionista da Casa Branca.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A decisão, anunciada no dia 30 de julho por decreto presidencial norte-americano, insere-se em um contexto de crescente tensão nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. A taxação adicional de 40%, somada aos já existentes 10% sobre uma vasta lista de produtos, configura-se como uma medida de cunho nacionalista e econômico — típica da retórica de Donald Trump, que, em ano eleitoral, retoma o discurso protecionista de seu primeiro mandato.
Com 694 produtos isentos do tarifaço, a medida tem impacto desigual sobre a economia brasileira. Para Mato Grosso do Sul, que já exportou US$ 3,75 bilhões em 2025, sendo US$ 315 milhões para os EUA, o cenário é de alívio parcial. A celulose, que movimentou US$ 74,8 milhões no primeiro semestre, e o ferro-gusa, com US$ 40,5 milhões, escaparam da nova taxação e seguem com mercado garantido nos Estados Unidos — alento para gigantes como Suzano, Eldorado e Arauco, cujas fábricas estão localizadas no Estado.
Já a carne bovina, principal produto exportado pelo MS ao mercado norte-americano (45,2% do total), não teve a mesma sorte. A manutenção da tarifa de 50% sobre a proteína, cujas vendas ao longo do semestre somaram US$ 315,5 milhões, representa um duro golpe para o setor. Com a perspectiva de perda de competitividade, produtores já cogitam redirecionar parte da produção ao mercado interno, o que pode resultar na queda de preços ao consumidor, especialmente em tempos de estiagem e aumento da oferta.
Outros produtos regionais também foram atingidos, como o sebo bovino (9,4%), carnes salgadas (2,5%) e filés de tilápia. A seletividade do tarifaço revela critérios que vão além da lógica estritamente econômica, refletindo os interesses geopolíticos de uma administração que vê com desconfiança o protagonismo crescente do Brasil no cenário agroexportador.
Apesar da exclusão de alguns produtos da lista de sobretaxação — como o suco e a polpa de laranja, castanhas, fertilizantes e aeronaves civis — a pressão sobre as exportações brasileiras reacendeu um debate crucial: a vulnerabilidade do país frente a decisões unilaterais de grandes potências. Como observa o sociólogo francês Immanuel Wallerstein, “a economia-mundo capitalista não é um mercado neutro, mas um sistema de dominação hierarquizada” (O Sistema Mundial Moderno, 1974). Nesse sistema, o Brasil permanece como exportador de commodities, sujeito a oscilações geopolíticas e barreiras comerciais impostas pelos centros hegemônicos.

Diante desse cenário, a resposta institucional brasileira se deu por meio de diplomacia parlamentar. A missão oficial do Senado Federal aos Estados Unidos — liderada pelos senadores sul-mato-grossenses Nelsinho Trad (PSD) e Tereza Cristina (PP) — atuou nos bastidores para amenizar os impactos do decreto. Em nota oficial, a comitiva ressaltou que a viagem visou “a reconstrução do diálogo político entre os dois Parlamentos e à defesa dos interesses estratégicos do país em meio ao agravamento das tensões comerciais”.
Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, enfatizou a necessidade de seguir negociando: “Nosso trabalho já começou a valer a pena, mas ainda precisamos continuar pelos produtos que ficaram de fora e que são muito importantes para a nossa economia”. Segundo ela, a missão obteve apoio de parlamentares republicanos e democratas e abriu caminho para visitas recíprocas e futuros acordos. “Vai ter um relatório dessa comissão, esse relatório será público, amplamente divulgado, e aí vamos conversar com vários setores, inclusive com o Executivo”, afirmou.
Há também oportunidades emergentes. A exclusão de fertilizantes da tarifa abre espaço para o projeto da Gravetal Bolívia S.A., que pretende instalar uma fábrica em Três Lagoas. O polo pode transformar Mato Grosso do Sul em hub exportador para os EUA, com insumos processados localmente e reexportados sem sobretaxa. A retirada do suco de laranja da lista também impulsiona o setor cítrico estadual, que conta com cerca de 30 mil hectares plantados e investimentos de empresas como Cutrale e Citrosuco.
A situação atual exige não apenas reação imediata, mas reflexão estratégica. A dependência de poucos mercados e a concentração das exportações em commodities expõem o Brasil a riscos cíclicos. Como adverte Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro, “a diplomacia comercial deve estar a serviço do desenvolvimento nacional, e não da acomodação a interesses alheios” (entrevista à Folha de S.Paulo, 16/02/2020). A diversificação da pauta exportadora e a inserção internacional baseada em soberania e multilateralismo devem ser pilares da política externa brasileira.
Por fim, o episódio do tarifaço revela mais que uma disputa comercial: expõe as fragilidades estruturais da inserção do Brasil no sistema global. Diante de um mundo em transição — com a ascensão chinesa, a crise da globalização neoliberal e a volta do protecionismo —, o Brasil precisa alinhar política externa, planejamento econômico e diplomacia multilateral. O caso de Mato Grosso do Sul, embora específico, ilustra os dilemas de um país em busca de autonomia e relevância em um tabuleiro global cada vez mais complexo.
Deixe um comentário