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Mato Grosso do Sul
Contaminação dos rios afeta saúde de ribeirinhos, enquanto nova política federal incentiva visitação a parques
Publicado em 29/07/2025 11:10 - Semana On
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Um dos maiores tesouros ambientais do planeta, o Pantanal brasileiro enfrenta um paradoxo dramático: enquanto cresce a pressão por transformá-lo em destino turístico de escala global, suas águas adoecem — literal e simbolicamente. Poluídas por fertilizantes, dejetos e esgoto in natura, as bacias que sustentam comunidades ribeirinhas estão em colapso sanitário, conforme revela o relatório do projeto “Águas que Falam”. Ao mesmo tempo, uma nova política federal sancionada neste mês abre caminho para a exploração turística de 91 unidades de conservação em Mato Grosso do Sul, sem que as estruturas mínimas de saneamento estejam asseguradas para os habitantes locais.
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A contaminação hídrica que atinge a Bacia do Alto Paraguai (BAP) não é apenas um fenômeno ambiental: é uma crise humanitária em curso. Nas margens dos rios do Pantanal, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas sofrem com surtos recorrentes de diarreia, doenças de pele, cálculos renais e distúrbios gastrointestinais. “Até os testadores desenvolveram problemas de pele durante as coletas”, relatou a bióloga Daniella França, da ONG SOS Pantanal, ao Campo Grande News. O retrato da crise hídrica surge justamente quando o Estado e o setor privado se mobilizam para promover o turismo ecológico em áreas que sequer garantem água potável a seus moradores.
Um colapso anunciado
O projeto “Águas que Falam”, executado por instituições como a SOS Pantanal, a Fundação SOS Mata Atlântica e a Chalana Esperança, mapeou 14 comunidades vulneráveis na região — sete em Mato Grosso e sete em Mato Grosso do Sul. O que os pesquisadores encontraram foi alarmante: níveis elevados de nitrato (ultrapassando 40 mg/L em alguns meses, muito acima do limite de 10 mg/L permitido pela resolução 357/2005 do Conama) e concentrações perigosas de fosfato (entre 1 e 7 mg/L, quando o limite seguro é 0,15 mg/L).
Esses poluentes derivam majoritariamente do uso de fertilizantes na agricultura intensiva, da decomposição de matéria orgânica e da ausência total de saneamento básico nas comunidades. “Todas são comunidades em vulnerabilidade socioambiental”, alerta Daniella França, que também coordena o projeto Chalana da Esperança, voltado à educação ambiental e mobilização comunitária.
A degradação compromete não só a saúde das pessoas, mas o próprio ecossistema pantaneiro. A redução do oxigênio dissolvido na água — especialmente no período chuvoso, a partir de outubro de 2024 — indica um processo de eutrofização acelerado. Isso favorece a proliferação de algas e diminui a transparência da água, com efeitos devastadores sobre a fauna aquática. “É um colapso que começa invisível, mas que logo se torna evidente nos corpos e nas paisagens”, resume o ecólogo José Sabino, professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e pesquisador da biodiversidade pantaneira.
Do turismo como salvação ao turismo como ameaça
Nesse mesmo cenário, foi sancionada pelo governo federal a Lei 14.867/2024, que cria a Política Nacional de Incentivo à Visitação a Unidades de Conservação. Proposta pelo deputado Túlio Gadêlha (Rede-PE), a norma pretende fomentar o turismo ecológico, educacional, religioso e esportivo em áreas protegidas, por meio de parcerias entre entes públicos, iniciativa privada e organizações da sociedade civil.
No papel, a proposta avança ao estabelecer diretrizes para a promoção da educação ambiental, geração de renda sustentável e acesso democrático às unidades de conservação. O fundo privado que sustentará a política poderá receber recursos de doações, termos de ajustamento de conduta e acordos judiciais, embora o artigo que destinava 5% das compensações ambientais ao fundo tenha sido vetado por “vício de inconstitucionalidade”, conforme justificativa do Executivo.
Em Mato Grosso do Sul, 91 áreas poderão ser diretamente impactadas. A preocupação é que a ausência de um plano integrado de infraestrutura e saneamento — como revela o caso das comunidades ribeirinhas — transforme o turismo em fator de degradação adicional. “Não se trata de ser contra a visitação, mas de garantir que ela venha acompanhada de responsabilidade social e ambiental”, afirma Márcia Hirota, diretora da Fundação SOS Mata Atlântica, em entrevista ao O Eco.
Injustiça hídrica e desigualdade estrutural
A aldeia Mãe Terra, da Terra Indígena Cachoeirinha, exemplifica a chamada “injustiça hídrica”. As 68 famílias indígenas enfrentam escassez de água potável e só recentemente passaram a contar com uma central de potabilização, instalada em março de 2025. Já em comunidades como Passo do Lontra, onde o turismo é a principal fonte de renda, o esgoto ainda corre a céu aberto e os moradores consomem água com odor, sedimentos e coloração alterada.
A socióloga Laymert Garcia dos Santos, em sua obra Politizar as novas tecnologias (Editora 34, 2003), argumenta que a tecnificação sem justiça social só amplia a desigualdade. A política ambiental, nesse sentido, precisa superar a lógica da “vitrine ecológica”, que protege paisagens para turistas e investidores enquanto ignora os sujeitos que vivem nelas.
O dilema do desenvolvimento sustentável
O conceito de desenvolvimento sustentável, cunhado no Relatório Brundtland de 1987, pressupõe três pilares: proteção ambiental, inclusão social e viabilidade econômica. O desafio pantaneiro é aplicar esse tripé em um território onde os conflitos fundiários, o avanço da fronteira agrícola e a falta de políticas públicas estruturantes desorganizam qualquer tentativa de planejamento.
Segundo dados do IBGE (2022), menos de 52% das áreas rurais brasileiras contam com acesso à rede geral de água tratada. No Pantanal, esse número despenca. Promover turismo sem enfrentar esse déficit é inverter prioridades e institucionalizar a negligência.
Caminhos possíveis
A reunião prevista para o próximo 23 de agosto entre pesquisadores e comunidades ribeirinhas pretende construir uma cartilha com soluções adequadas para cada localidade. Esse tipo de iniciativa — participativa, local e horizontal — aponta para um modelo de governança hídrica mais democrático. Mas é insuficiente se não for incorporado às políticas públicas de forma sistêmica.
Enquanto isso, a aprovação da nova lei de incentivo à visitação deve ser acompanhada de perto por sociedade civil, órgãos de controle e imprensa. É preciso garantir que o acesso às belezas naturais do Pantanal não aconteça à custa da saúde, da dignidade e da permanência das populações tradicionais em seus territórios.
Como escreveu o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “não há justiça ambiental sem justiça social”. O Pantanal, como símbolo de nossa biodiversidade e de nossos dilemas históricos, exige nada menos que isso.
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