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Mato Grosso do Sul
Governo prepara medidas para depurar condomínio ilegal de empresas ligadas ao PCC em Iguatemi
Publicado em 17/09/2025 10:32 - Semana On
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Pegos de surpresa pela Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto pela Receita Federal, Gaeco de São Paulo e Polícia Federal, os órgãos de controle de Mato Grosso do Sul anunciaram medidas emergenciais para depurar o condomínio ilegal de empresas ligadas ao PCC instalado no polo empresarial da Rodovia da Balsinha, em Iguatemi, a 425 quilômetros de Campo Grande. O esquema, articulado pelo empresário foragido Mohamed Hussein Mourad, movimentou cerca de R$ 52 bilhões em operações financeiras com origem no tráfico internacional de cocaína.
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A resposta mais contundente parte da Secretaria Estadual de Fazenda (Sefaz), que prepara o maior pente-fino da história do fisco estadual para barrar fraudes no setor de combustíveis. A ação inclui recadastramento das empresas com autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP), auditoria de notas fiscais e verificação das concessões em vigor. A secretaria confirmou que licenças operacionais publicadas pela ANP servirão de base para processos administrativos de cancelamento das inscrições estaduais das companhias suspeitas, assegurando contraditório e ampla defesa.
O impacto para os cofres públicos é devastador. Estima-se que, apenas em Iguatemi e Campo Grande, as perdas em impostos sonegados somem entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões. A situação é particularmente grave num Estado que já opera no limite prudencial de gastos, com severas restrições fiscais.
No km 18 da Rodovia da Balsinha, Mourad ergueu em cinco anos um conglomerado de distribuidoras — Duvale, Safra, Orizona, Maximus, Alpes, Império, Arka e Star — quase todas em nome de seu irmão, Armando Hussein Ali Mourad, apontado como “braço empresarial” do PCC. Essas empresas, segundo as investigações, funcionaram sem incômodo de órgãos municipais ou estaduais, apesar de sucessivas irregularidades apontadas pela ANP, como ausência de bacias de contenção, falhas de segurança e faturamentos incompatíveis com a estrutura física.
A engrenagem foi sustentada por uma teia de permissividades. A ANP autorizou operações, a Prefeitura de Iguatemi emitiu alvarás — em alguns casos, até dispensando taxas —, e a Sefaz deixou de fiscalizar as atividades. O Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS) admitiu que nenhuma das companhias ligadas ao grupo possuía licença ambiental registrada. “Será realizada fiscalização para verificar in loco a regularidade ambiental”, reconheceu o órgão em nota.
Esse vazio de fiscalização coincidiu com o investimento público em infraestrutura. Entre 2020 e 2023, a pavimentação da MS-290, inicialmente orçada em R$ 42,4 milhões e já inflada para R$ 70,8 milhões, criou condições logísticas que favoreceram a instalação das distribuidoras de fachada. O investimento estatal abriu estradas; o crime organizado, com aval implícito da burocracia, pavimentou seu corredor logístico para lavar dinheiro.
A rede não se limitava ao interior. Duas companhias de investimentos ligadas ao grupo se instalaram em endereços nobres de Campo Grande e na Avenida Faria Lima, em São Paulo, epicentro financeiro do país, por onde foram lavados parte dos R$ 52 bilhões. O dinheiro circulou também por mais de 50 fintechs, transformando o maior centro financeiro da América do Sul numa lavanderia sofisticada do crime organizado.
O caso de Iguatemi é paradigmático: um município de apenas 14 mil habitantes, situado em região de fronteira com Bolívia e Paraguai, de onde saem cerca de 80% da cocaína e maconha consumidas no Brasil. Para especialistas em segurança, não há acaso nessa escolha. Como observa o antropólogo Gabriel Feltran, que há duas décadas pesquisa a atuação do PCC, “a facção é hoje uma gestora de fluxos econômicos, e não apenas uma organização criminosa. Ela estrutura mercados, regula preços e cria redes de confiança”.
A tranquilidade com que Mourad e seus sócios se movimentaram revela o colapso das barreiras institucionais. A omissão de prefeituras, órgãos estaduais e agências federais não foi apenas falha, mas condição essencial para que o crime organizado se infiltrasse no mercado formal. O resultado é um polo empresarial que funcionou como fachada, legitimado por documentos oficiais, e um Estado que, ao mesmo tempo em que investia milhões em obras de infraestrutura, alimentava sem perceber — ou sem querer ver — o braço financeiro do PCC.
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