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Mato Grosso do Sul
Especialistas apontam que o problema está nos tutores, não na raça
Publicado em 14/07/2025 12:37 - Semana On
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Três ataques violentos envolvendo cães da raça pit bull, registrados em menos de um mês em Mato Grosso do Sul, trouxeram à tona um tema sensível e recorrente: a guarda responsável de animais de grande porte. Em todos os casos, um denominador comum: a negligência dos tutores. Embora os pit bulls frequentemente ocupem o centro dessas tragédias, especialistas são unânimes em afirmar que o problema é humano — não canino.
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O caso mais grave ocorreu no último sábado (12), no bairro Jardim Jockey Club, em Campo Grande, quando o jovem Valmir Pereira Lima Júnior, de 21 anos, foi brutalmente atacado por três cães da raça pit bull. Valmir estava na casa de um amigo quando foi surpreendido pelos animais, que escaparam de uma oficina ao lado. Ele teve a orelha dilacerada, uma artéria rompida e foi submetido a uma transfusão de oito litros de sangue. Segundo familiares, seu estado de saúde é considerado gravíssimo.
Apesar de os cães serem descritos como “dóceis” pelo tutor, o comerciante Vanderlei Alves Santana, o incidente revela uma contradição frequente: a confiança excessiva de alguns tutores na previsibilidade do comportamento animal. Os cães, embora conhecidos da vítima e supostamente acostumados à presença de visitantes, ficaram agitados com a chegada de um motoentregador. Pularam o muro e atacaram Valmir, que aguardava a entrega no portão.
“Eles não gostam de motoqueiros”, admitiu Vanderlei, ao explicar que os cães foram adotados como medida de segurança após roubos na região. O relato revela uma outra camada do problema: a precarização da segurança pública que empurra cidadãos a confiar sua proteção a cães de guarda, muitas vezes sem o preparo necessário para manejá-los com responsabilidade.
No mesmo fim de semana, um outro caso trágico ocorreu também na capital. No bairro Jardim Noroeste, um pit bull invadiu uma residência e tentou atacar o morador e seu cão de estimação, um pinscher. O tutor, em legítima defesa, matou o animal a facadas. A Polícia Militar registrou a ocorrência como omissão de cautela na guarda ou condução de animais, e o tutor do pit bull, até então desconhecido, será responsabilizado criminalmente assim que identificado.
Já no dia 29 de junho, em Ponta Porã, o lutador de artes marciais Ernesto Chaves, de 33 anos, usou técnicas de imobilização para conter dois pit bulls que o atacaram enquanto corria na rua. “Eu sou um cara forte, treinado. E juro que achei que ia morrer hoje”, desabafou Ernesto ao site Campo Grande News. “Se fosse alguém mais frágil? Tem uma escola a 200 metros. Eu tô muito indignado.”
Nos três casos, há um elemento de fundo que não pode ser ignorado: a irresponsabilidade ou negligência dos tutores. Deixar cães soltos, mal contidos ou sem treinamento apropriado representa um risco à segurança pública — algo que a legislação brasileira trata, mas nem sempre coíbe com rigor. O Código Civil, no artigo 936, estabelece que o dono do animal responde por danos causados, mesmo que não haja culpa direta, salvo se provar força maior ou culpa da vítima. Já a Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei 3.688/41) prevê sanções para quem deixa animal perigoso solto ou em local público sem as devidas medidas de segurança.
A problemática, no entanto, vai além do aparato legal. Segundo Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal, “a agressividade canina é mais um reflexo do ambiente e da criação do que da genética”. Em entrevista à Revista Veja, Rossi ressalta: “Não existem raças más, existem tutores despreparados”.
A polêmica em torno dos pit bulls frequentemente resvala no preconceito. Originária dos Estados Unidos no século XIX, a raça foi desenvolvida inicialmente para combates, mas há décadas é criada como animal de companhia em diversos países. No Brasil, é uma das raças mais populares e, paradoxalmente, uma das mais incompreendidas. Reportagens sensacionalistas e redes sociais tendem a reforçar a imagem do pit bull como um “animal assassino”, o que contribui para o medo e o abandono. Segundo levantamento da Ampara Animal, cerca de 70% dos cães abandonados de raça são pit bulls ou mestiços.
Essa visão estigmatizante desvia o foco do que realmente importa: a educação dos tutores e o fortalecimento das políticas públicas de proteção e controle animal. Em muitos municípios brasileiros, ainda há pouca fiscalização sobre a posse responsável. Faltam campanhas educativas, protocolos de registro obrigatório para cães de grande porte e ações concretas para punir a negligência.
Enquanto isso, vítimas como Valmir seguem lutando pela vida, moradores seguem com medo e cães, que não escolheram onde nascer nem como seriam criados, seguem sendo demonizados por comportamentos que são, em última instância, reflexos da conduta humana.
“Se os tutores fossem obrigados a passar por cursos de capacitação e os cães, a avaliações periódicas de comportamento, esse tipo de tragédia poderia ser evitado”, afirma Rogério Nogueira, médico veterinário e professor da UFMS. Para ele, o poder público precisa assumir a responsabilidade por regulamentar melhor essa convivência.
Até que isso aconteça, casos como os registrados em Mato Grosso do Sul continuarão a expor não apenas as feridas das vítimas, mas também as de uma sociedade que terceiriza sua segurança aos cães, mas se omite diante da responsabilidade de criá-los com ética, respeito e preparo.
Procedimentos para uma guarda responsável de cães:
1 Socialização desde cedo: Acostume o cão a diferentes pessoas, ambientes e outros animais, desde filhote, para evitar comportamentos agressivos por medo ou territorialidade.
2 Treinamento e adestramento contínuo: Ensine comandos básicos (sentar, ficar, não) com reforço positivo. O ideal é contar com orientação profissional.
3 Passeios com equipamentos adequados: Use sempre guia curta, coleira resistente e focinheira, conforme exigido por legislação local (em muitos estados brasileiros, o uso de focinheira é obrigatório para raças consideradas “potencialmente perigosas”).
4 Ambiente seguro e controlado: Mantenha o cão em local fechado, com muros e portões altos e bem estruturados, que impeçam fugas. Cães não devem circular sozinhos em espaços públicos ou semiabertos.
5 Supervisão constante: Nunca deixe o animal solto em locais com acesso a estranhos, principalmente crianças, mesmo que o cão pareça dócil.
6 Controle de estímulos: Evite situações que possam deixar o animal agitado ou estressado (barulhos, outros cães, visitas inesperadas etc.).
7 Atualização da vacinação e saúde em dia: Cães agressivos ou com dor podem se tornar mais reativos. Exames de rotina ajudam a prevenir problemas de comportamento por causas clínicas.
8 Registro e identificação: Mantenha o animal microchipado ou com plaquinha de identificação e vacinas atualizadas.
9 Consulte a legislação local: Verifique regras específicas da cidade ou estado sobre a posse de cães de grande porte ou raças específicas. Muitos municípios exigem cadastro e cursos de orientação.
10 Consciência e responsabilidade ética: Entender que ter um cão é um compromisso a longo prazo, que exige tempo, dinheiro e dedicação. Não basta “amar”, é preciso cuidar com responsabilidade.
Como agir durante um ataque de cão (caso esteja sendo atacado):
1 Não entre em pânico (se possível): Evite gritar ou correr, pois isso pode intensificar o instinto predatório do cão.
2 Fique imóvel: Mantenha os braços colados ao corpo, evite contato visual direto e vire-se de lado para parecer menos ameaçador.
3 Use objetos como barreira: Posicione mochilas, casacos, guarda-chuvas, bicicletas ou qualquer outro objeto entre você e o cão.
4 Se cair, proteja partes vitais: Encolha-se em posição fetal, cubra a cabeça e o pescoço com os braços e mantenha o rosto voltado para o chão.
5 Tente desviar os ataques para áreas menos sensíveis: Se o ataque for inevitável, tente oferecer braços ou pernas em vez de pescoço ou rosto, para evitar ferimentos fatais.
6 Grite por ajuda apenas se for seguro: Peça socorro de forma objetiva, mas sem movimentos bruscos que agravem a situação.
7 Evite puxar o membro mordido: Isso pode rasgar mais os tecidos. O ideal é tentar imobilizar o cão ou esperar ajuda, caso possível.
8 Após o ataque, busque atendimento médico imediatamente: Mesmo ferimentos leves exigem atenção — há risco de infecções graves ou raiva.
9 Registre o ataque: Tente identificar o cão e seu tutor, registre boletim de ocorrência e comunique às autoridades de saúde e zoonoses da sua cidade.
10 Busque apoio psicológico: Ataques de cães podem gerar traumas duradouros. Em alguns casos, o suporte terapêutico é necessário para reverter o medo e a ansiedade.
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