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Ecologia
Decisão nos EUA favorece indústria petroquímica e levanta preocupações sobre retrocesso ambiental
Publicado em 15/03/2025 11:32 - Semana On
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A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de revogar restrições ao uso de canudos de plástico em repartições federais não é apenas um embate entre conveniência e sustentabilidade. O decreto, assinado em fevereiro, tem implicações que vão além da superfície, apontando para uma batalha mais ampla: o fortalecimento da indústria petroquímica em um momento de transição energética e a politização da agenda ambiental.
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A reversão da política anterior, que incentivava o uso de alternativas sustentáveis como canudos de papel, ocorre em um contexto de disputa ideológica onde políticas ambientais se tornaram alvos de retórica conservadora. Trump justificou sua decisão ao criticar os canudos de papel, dizendo que eles “muitas vezes quebram e se desmancham”. No entanto, especialistas enxergam nessa medida um símbolo de resistência contra regulamentações ambientais mais amplas.
O plástico e o meio ambiente: um problema global
Os canudos de plástico, embora representem menos de 1% dos resíduos plásticos nos oceanos, são um microcosmo do problema maior. A produção global de resíduos plásticos ultrapassa 380 milhões de toneladas por ano, das quais 43 milhões correspondem a plásticos de uso único. O impacto disso na vida marinha e nos ecossistemas é devastador. Um estudo publicado na revista Science Advances revelou que mais de 8 bilhões de canudos de plástico poluem os litorais do mundo.
A persistência do plástico no ambiente é alarmante. Diferente de materiais biodegradáveis, o plástico se fragmenta em micro e nanoplásticos, partículas que já foram encontradas na água, no solo, no ar e até mesmo no corpo humano. Pesquisas apontam que essas partículas estão associadas a distúrbios hormonais, redução da fertilidade e até mesmo ao desenvolvimento de câncer.
Randa Kachef, especialista em resíduos urbanos e pesquisadora do King’s College London, destaca que o problema dos canudos plásticos não é apenas seu volume, mas sua capacidade de fragmentação rápida e dispersão no meio ambiente, dificultando a coleta e agravando a poluição.
Alternativas ao Plástico
A crescente rejeição aos plásticos de uso único impulsionou a busca por alternativas. Canudos de papel, bambu, vidro e aço inoxidável surgiram como substitutos, mas cada um tem seus desafios.
Embora os canudos de papel sejam considerados mais ecológicos, alguns estudos sugerem que eles podem conter níveis elevados de PFAS – substâncias químicas associadas a problemas de saúde. Já os canudos de metal e vidro possuem um custo ambiental maior na produção, exigindo dezenas de reutilizações para compensar sua pegada de carbono inicial.
Apesar dessas limitações, Kachef reforça que o problema não é necessariamente a alternativa escolhida, mas sim a cultura do descarte: “Um único canudo de aço metálico pode ter um impacto ambiental maior do que um de plástico, mas se alguém o usar pelo resto da vida, isso não será um problema. A questão é não tratar alternativas ou produtos ‘para toda a vida’ como descartáveis.”
Plástico, indústria de combustíveis fósseis e a guerra política
O decreto de Trump não se resume a um embate entre praticidade e consciência ambiental. Ele está inserido em um cenário maior, no qual a indústria de combustíveis fósseis busca novas formas de manter sua relevância diante da crescente transição para energias limpas.
Aproximadamente 99% do plástico é derivado do petróleo e do gás natural. Com a pressão global por descarbonização e a queda da demanda por combustíveis fósseis, empresas petroquímicas veem nos plásticos uma alternativa de mercado. O setor está em expansão acelerada e, segundo projeções, poderá responder por 19% das emissões globais de gases de efeito estufa até 2040.
Rachel Radvany, do Center for International Environmental Law, alerta que a revogação das restrições aos canudos pode ser um primeiro passo para uma agenda mais ampla de desregulamentação ambiental: “O movimento ‘de volta ao plástico’ pode ser um Cavalo de Troia, abrindo caminho para políticas que incentivem a produção e o consumo de plásticos em uma escala ainda maior.”
A reação da indústria de plásticos aos decretos de Trump foi imediata e entusiástica. Matt Seaholm, CEO da Associação da Indústria de Plásticos dos EUA, afirmou que “os canudos são apenas o começo” e que a reversão das políticas ambientais é um movimento necessário.
O meio ambiente como campo de batalha ideológica
A decisão de Trump de revogar a restrição aos canudos de plástico não pode ser vista isoladamente. Ela faz parte de uma tendência observada em seu governo e em outros movimentos conservadores ao redor do mundo, nos quais políticas ambientais são tratadas como imposições ideológicas da esquerda e enfrentadas como resistência cultural.
A politização das mudanças climáticas e das políticas ambientais tem sido uma estratégia recorrente para consolidar apoio entre setores da economia tradicional e eleitores céticos em relação à regulação estatal. Essa abordagem, porém, ignora o consenso científico sobre os impactos do plástico e as evidências crescentes de que a crise climática já está afetando diretamente a economia e a qualidade de vida da população.
A decisão de Trump pode parecer uma questão menor, mas reflete um embate maior entre o futuro sustentável e os interesses da indústria petroquímica. Os canudos de plástico se tornaram um símbolo do problema ambiental, mas também do conflito entre ciência e política, entre regulação e desregulamentação.
À medida que o mundo avança na transição energética e em políticas de redução de resíduos, o caso dos canudos de plástico nos Estados Unidos serve como um lembrete de que cada escolha – por menor que pareça – pode ter implicações profundas na forma como lidamos com os desafios ambientais do século XXI.
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