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Ecologia

ONU alerta: planeta pode bater recorde de calor até 2029

No Brasil, 90% da população apoia corte de metano para frear aquecimento global

Publicado em 28/05/2025 2:40 - Semana On

Divulgação Ralf Vetterle - Pixabay

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A humanidade caminha a passos largos rumo a um ponto de inflexão climático. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 80% de probabilidade de que o planeta registre, entre 2025 e 2029, um novo recorde de calor anual — e uma chance inédita, embora ainda pequena, de que se atinja um aumento de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais antes mesmo de 2030. Paralelamente, no Brasil, uma pesquisa revela que 90% da população apoia medidas para reduzir a emissão de metano, gás responsável por uma parcela significativa do aquecimento global. A contradição: mesmo diante do apoio social e dos compromissos internacionais firmados, o país aumentou suas emissões desse poluente nos últimos três anos.

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Esse é o dilema que define o atual momento da crise climática no Brasil e no mundo: a urgência dos alertas científicos se choca com a lentidão — ou a omissão — das políticas públicas. “Já atingimos um nível perigoso de aquecimento global, com as recentes inundações na Austrália, França, Argélia, Índia, China e Gana e os incêndios florestais no Canadá”, alerta Friederike Otto, climatologista do Imperial College de Londres. O ano de 2024, o mais quente dos últimos 175 anos de registros, ultrapassou pela primeira vez o limite simbólico de 1,5 °C de aquecimento médio anual — algo que os modelos climáticos anteriores sequer previam como possível nesta década.

Essa aceleração do aquecimento está relacionada principalmente à queima de combustíveis fósseis — petróleo, gás, carvão — e à emissão de gases como dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄). E embora o CO₂ seja mais duradouro, o metano tem impacto imediato muito mais potente: ele é 28 vezes mais eficaz que o CO₂ em reter calor na atmosfera em um período de 100 anos. Como lembra David Tsai, coordenador do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), uma redução de 45% nas emissões de metano poderia reduzir em 0,3 °C o aquecimento global até 2040 — um número expressivo em termos climáticos.

No Brasil, o paradoxo salta aos olhos. O país é o quinto maior emissor de metano do mundo, com a agropecuária liderando o ranking de emissões. O gado de corte é o maior responsável, seguido pelos resíduos urbanos e a cadeia de produção de petróleo e gás. Apesar disso, o apoio da população à mitigação é expressivo: 85% defendem o monitoramento das emissões agrícolas, e 90% apoiam a proibição de resíduos orgânicos em aterros. A mesma proporção aprova políticas de captura e aproveitamento do metano desperdiçado. “Eles entendem o que está em jogo e veem a redução do metano como prioridade”, afirma Marcelo Mena, diretor executivo do Global Methane Hub, entidade responsável pela pesquisa.

Esse apoio, contudo, ainda não se traduziu em ação. O Brasil é signatário do Global Methane Pledge, compromisso voluntário firmado em 2021 para reduzir em 30% as emissões de metano até 2030. Mas os dados do SEEG mostram que, em vez de cair, as emissões aumentaram 6% desde então. Segundo Tsai, “o Brasil precisa urgentemente moldar políticas para reverter essa trajetória nos próximos cinco anos”.

A desconexão entre ciência, política e ação pública não é uma exclusividade brasileira, mas ela se torna particularmente grave em países com elevada biodiversidade e alta vulnerabilidade climática, como o Brasil. O relatório da OMM prevê que a floresta amazônica sofra mais secas, enquanto regiões como o sul da Ásia e o Sahel devem experimentar chuvas intensas e prolongadas. No Ártico, o aquecimento deverá ocorrer 3,5 vezes mais rapidamente que a média global, acelerando o degelo e, com ele, o aumento do nível do mar.

Há um claro risco de desigualdade nos impactos. Países em desenvolvimento — geralmente menos responsáveis pelo histórico de emissões — tendem a sofrer mais com as consequências. Essa é uma questão abordada por estudiosos como o sociólogo francês Bruno Latour, que enxergava na crise climática um espelho das desigualdades sociais globais. Em sua obra Onde Aterrar?, Latour alerta: “A luta contra o aquecimento global não pode ser separada da luta contra as injustiças sociais. Uma política ecológica sem justiça social é uma política fracassada.”

No contexto brasileiro, essa máxima se aplica com força. A agropecuária é também setor essencial para a economia nacional e sustento de milhões de brasileiros. Políticas de mitigação, portanto, não podem simplesmente impor restrições; precisam ser pensadas como transformação estrutural, com investimentos em ciência, tecnologia e apoio técnico à produção sustentável. É necessário promover, por exemplo, a rotação de pastagens, a captação de biogás a partir de resíduos e o uso de aditivos alimentares que reduzem a fermentação entérica do gado.

O momento exige escolhas corajosas. Como afirmou Ko Barrett, secretário-geral adjunto da OMM, “acabamos de viver os dez anos mais quentes já registrados. Infelizmente, esse relatório não mostra sinais de abrandamento”. A crise climática não é mais uma ameaça futura — ela está em curso. E a janela de oportunidade para limitar seus danos está se fechando.

No Brasil, a sociedade demonstra estar à frente de parte da classe política. O desafio agora é converter esse apoio popular em políticas efetivas, fiscalizadas, com metas claras e prazos factíveis. Como ensinou o filósofo político John Dewey, “a democracia começa com o reconhecimento da inteligência coletiva dos cidadãos”. Nunca foi tão urgente ouvi-los.

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