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Ecologia

O paradoxo climático do Brasil às vésperas da COP30

País se prepara para liderar debate climático global, mas amplia dependência do petróleo

Publicado em 08/05/2025 12:19 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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À medida que o Brasil se aproxima da presidência da COP30 — a mais importante conferência climática das Nações Unidas, marcada para novembro de 2025 em Belém do Pará —, o país se vê enredado em uma contradição que ameaça comprometer seu prestígio diplomático, sua coerência estratégica e, mais gravemente, sua contribuição efetiva para conter a emergência climática global.

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Se por um lado o governo federal projeta protagonismo internacional ao sediar fóruns como o 2º Fórum de Finanças Climáticas e de Natureza (FFCN), apostando na transição para uma economia de baixo carbono e no uso sustentável dos recursos naturais, por outro, aprofunda alianças com a Opep+ e articula a expansão da exploração petrolífera na foz do rio Amazonas. A contradição entre o discurso e a prática não passou despercebida — nem para a sociedade civil, nem para especialistas e ambientalistas.

“O mundo deu ao Brasil um mandato para liderar o debate sobre o clima em 2025. Dobrar a expansão do petróleo é uma traição a esse mandato”, resume Cláudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.

O Brasil e a nova geopolítica do petróleo

O dilema brasileiro insere-se em um contexto global de reconfiguração energética. De acordo com a Comissão Global sobre Economia e Clima, serão necessários US$ 6 trilhões em investimentos até 2030 para enfrentar os impactos da crise climática e manter o planeta dentro da meta do Acordo de Paris — limitar o aquecimento global a 1,5ºC.

Apesar disso, subsídios federais para petróleo, gás e carvão no Brasil chegaram a US$ 14,6 bilhões em 2022, cinco vezes mais que os investimentos em energia renovável, segundo o INESC P&D Brasil. O país, que já é o 8º maior exportador de petróleo do mundo, almeja agora escalar posições no ranking global, mirando o 4º lugar — uma ambição explícita do Ministério de Minas e Energia.

“Não devemos nos envergonhar de sermos produtores de petróleo. O Brasil precisa crescer, se desenvolver e criar renda e empregos”, justificou o ministro Alexandre Silveira, ao anunciar os planos de aproximação com a Opep+.

Embora o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, tenha argumentado que tal parceria permitiria ao Brasil “participar do debate sobre a transição energética dentro da própria Opep”, críticos como Ilan Zugman, da ONG 350.org, rebatem a narrativa:

“O dinheiro existe, mas não está sendo colocado nos lugares certos. Falta vontade política para transferir os subsídios dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.”

A promessa de liderança verde

A candidatura brasileira para sediar a COP30 foi recebida com entusiasmo pela comunidade internacional, especialmente após os retrocessos ambientais do governo Bolsonaro. Lula assumiu o Planalto em 2023 com um discurso fortemente alinhado à agenda ecológica. Nos primeiros seis meses de seu mandato, o desmatamento na Amazônia caiu cerca de um terço, e o país apresentou novas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa: entre 59% e 67% até 2035, em relação aos níveis de 2005.

Contudo, especialistas apontam que essas metas não são compatíveis com a limitação de 1,5ºC do Acordo de Paris. O descompasso entre a redução das emissões internas e a ampliação das exportações de petróleo, cujas emissões associadas não são contabilizadas pelo Brasil, anula parte dos ganhos obtidos na redução do desmatamento.

Estudo recente do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) mostra que, se o Brasil explorar plenamente suas reservas de petróleo projetadas, as emissões decorrentes da queima desse combustível fóssil superariam os avanços climáticos da proteção amazônica.

O tempo da natureza não é o tempo da política

Enquanto o país negocia subsídios, acordos e projeções de arrecadação, a natureza segue seu curso — acelerado, alarmante e devastador. O ano de 2024 foi marcado por desastres climáticos de proporções inéditas: a pior seca da história, incêndios florestais que devastaram 30,8 milhões de hectares — área superior ao território da Itália — e a intensificação de eventos extremos atribuídos diretamente às mudanças climáticas causadas pelo homem.

O coletivo de cientistas World Weather Attribution demonstrou que os incêndios no Pantanal, em junho de 2024, tornaram-se quatro vezes mais prováveis e 40% mais intensos por causa do aquecimento global. No Brasil, as consequências têm rosto, endereço e cor: atingem sobretudo povos indígenas, populações ribeirinhas, comunidades quilombolas e habitantes das periferias urbanas, já vulnerabilizados pela desigualdade estrutural.

“As pessoas estão literalmente sentindo o calor”, lembra Cláudio Angelo. “Mas, no momento, a mistura de questões domésticas e geopolíticas está tornando a agenda muito incerta.

A encruzilhada da transição ecológica brasileira

O 2º Fórum de Finanças Climáticas e de Natureza, que ocorre nos dias 26 e 27 de maio no Rio de Janeiro, será um termômetro da disposição real do país em assumir protagonismo climático. O evento, promovido por instituições como o Instituto Arapyaú, Clima e Sociedade, Igarapé e Open Society Foundations, discutirá mecanismos financeiros para a transição ecológica, com foco especial no papel do Brasil como articulador global, presidente do G20, dos BRICS e anfitrião da COP30.

Se quiser manter a liderança climática que lhe foi confiada, o Brasil precisará superar suas ambiguidades, criar ambientes regulatórios sólidos, redirecionar investimentos massivos para energias renováveis e, sobretudo, reconhecer que não há reconciliação possível entre dependência de petróleo e metas de sustentabilidade realistas.

A emergência climática não é uma abstração. Ela já reorganiza economias, agrava conflitos, força migrações e cobra das nações escolhas urgentes. O Brasil, por sua história diplomática e sua biodiversidade estratégica, tem um lugar central nesse tabuleiro. Mas não pode seguir discursando como líder climático enquanto investe como petroleira.

Como afirmou a filósofa Vandana Shiva, “não se trata apenas de salvar o planeta, mas de salvar nossa humanidade”. E essa tarefa exige coerência, coragem e compromisso com um futuro que não pode mais ser adiado.

Como a ação coletiva pode reverter a crise climática

Na narrativa predominante da emergência climática, o termo “ponto de inflexão” evoca imagens de colapso ambiental, derretimento das calotas polares, incêndios devastadores e crises alimentares globais. Mas para cientistas como Ilona M. Otto, do Centro Wegener para Mudança Climática e Global, na Áustria, essa expressão também abriga uma promessa: a possibilidade de reverter o rumo atual por meio de transformações sociais rápidas e ancoradas em conhecimento, tecnologia e mobilização coletiva.

Segundo Otto, a chave para transformar a crise climática em oportunidade reside em focar onde a mudança é possível e tem efeito multiplicador: alimentação, cidades, transportes, energia, finanças e educação. “Estamos falando de partes da sociedade nas quais uma mudança rápida é possível”, explica. “Onde podemos intervir no sistema e empurrá-lo na direção desejada.”

Mais de 50% da população mundial vive em áreas urbanas, que por sua vez são responsáveis por cerca de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa, de acordo com o IPCC. Mas é nas cidades que a transição também pode ser mais tangível. Como destaca Adrian Hiel, da rede europeia Energy Cities, ações como a popularização do ciclismo urbano e o uso de transporte elétrico têm desencadeado pontos de inflexão no comportamento social.

Paris, Barcelona e Bruxelas viram, após a pandemia, um salto na adesão ao uso da bicicleta, estimulando mudanças estruturais em outras cidades. Para Hiel, ver o vizinho pedalar ou instalar painéis solares tem um poder persuasivo maior do que campanhas de marketing: “É totalmente diferente quando são seus vizinhos que falam sobre uma paixão, do que quando é uma empresa tentando lhe vender algo”.

Contudo, a transformação urbana não se limita à mobilidade. A climatização de edifícios, responsável por cerca de metade do consumo de energia na União Europeia, representa outro desafio. Soluções como bombas de calor e redes de aquecimento distrital já estão disponíveis, mas enfrentam barreiras sociais, econômicas e informacionais. “É, acima de tudo, um desafio social. E isso exige escuta ativa, empatia e trabalho de base”, reforça Hiel.

Hábitos sustentáveis como vetor de mudança

A agricultura, somada à pecuária e ao desmatamento, responde por cerca de 30% das emissões globais, segundo estimativas recentes. No entanto, há sinais de mudança nos padrões alimentares, especialmente na Europa. Na Alemanha, o consumo de carne caiu significativamente nos últimos anos, com o crescimento de alternativas à base de vegetais.

Além da redução de emissões, tais hábitos têm impactos positivos diretos sobre a saúde pública, criando um círculo virtuoso que, segundo Otto, “ajuda a criar um ponto de inflexão”. O problema, contudo, está no acesso: alimentos orgânicos e opções sustentáveis ainda são inacessíveis para boa parte da população, especialmente em momentos de crise econômica.

Como alerta Luigi Tozzi, vice-diretor da ONG Safe, que monitora padrões alimentares na Europa, “em tempos de inflação alta e insegurança alimentar, muitas famílias não pensam em sustentabilidade, mas em sobrevivência”. O resultado é uma tensão entre escolhas ambientais e o imperativo da fome — um dilema que aponta para a necessidade de políticas públicas de acesso, e não apenas de conscientização individual.

Semente de um futuro possível

Entre os vetores de transformação identificados por Otto e sua equipe, a educação ocupa um papel central e estratégico. O movimento Fridays for Future, liderado por estudantes, é prova concreta do poder mobilizador da juventude quando temas climáticos fazem parte da formação cidadã. Para a pesquisadora, a inserção transversal da crise climática no currículo escolar pode acelerar mudanças sociais profundas.

Lennart Kuntze, da ONG Teach For All, defende que a educação climática seja “parte de uma visão inclusiva do futuro, e não apenas uma narrativa de medo”. Ele argumenta que é preciso cultivar nas crianças e jovens uma consciência coletiva, capaz de inspirar não apenas ações individuais, mas redes de mobilização comunitária.

“A pergunta não pode ser apenas contra o que estamos lutando, mas pelo que estamos construindo. A educação é um espaço fundamental para imaginar, junto com os alunos, um futuro possível e compartilhado”, afirma Kuntze.

Tecnologia, entusiasmo e políticas públicas: os pilares da mudança real

Apesar do ceticismo que por vezes acompanha o debate climático, as soluções não são desconhecidas. Elas envolvem tecnologia existente, modelos de cidade testados, hábitos alimentares já em transição e, sobretudo, gente disposta a mudar — desde que não esteja sozinha.

O que falta, então? Segundo Otto, três elementos são decisivos para que o ponto de inflexão desejado ocorra:

– Intervenções políticas e incentivos de mercado para transformar práticas emergentes em normas.

– Apoio social e entusiasmo coletivo, que inspire mudança e reduza o medo da transformação.

– Ação coordenada e inclusiva, que não deixe ninguém para trás e reconheça as desigualdades reais de acesso.

O futuro será coletivo — ou não será

A emergência climática já é uma realidade. A questão agora é como transformá-la em catalisadora de mudanças desejáveis e não apenas em um prenúncio de colapso. O conceito de ponto de inflexão social nos lembra que grandes transições históricas não ocorrem apenas por força de grandes líderes ou choques externos, mas frequentemente por redes de cidadãos que mudam juntos — e fazem disso uma norma.

A tarefa é imensa. Mas como resume Otto, “não estamos falando de utopias distantes, mas de escolhas reais que já estão sendo feitas — e que, se ampliadas, podem virar a balança”. Se o colapso é coletivo, a saída também precisa ser. E a boa notícia é que ela já começou — em salas de aula, ruas estreitas para carros e largas para bicicletas, hortas urbanas e currículos escolares mais verdes. Basta querer — e agir — juntos.

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