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Ecologia
Presidente da Câmara protege a brutalidade e a covardia da extrema direita incivilizada
Publicado em 03/07/2025 11:45 - Semana On
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Em pleno século XXI, o Brasil segue sendo um país onde o poder ainda mede forças com a barbárie. Em uma democracia jovem, marcada por rupturas autoritárias e retrocessos institucionais, a violência simbólica e verbal que se abateu, mais uma vez, sobre a ministra Marina Silva na Câmara dos Deputados transcende o plano do embate ideológico. É um ataque ao próprio projeto civilizatório. Uma guerra não apenas contra uma mulher, mas contra o que ela representa: integridade, pluralidade, ciência e dignidade política.
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Na última terça-feira (2), durante uma audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, Marina foi alvo de ofensas grotescas por parte de deputados que transformaram a tribuna legislativa num palanque de humilhação. Repetiu-se o roteiro de um mês antes, quando a ministra foi desrespeitada por senadores na Comissão de Infraestrutura. A reincidência do ataque não é casual: é estratégia.
O deputado Evair de Melo (PP-ES), figura tradicional da bancada ruralista e autor do requerimento de convocação, chegou ao cúmulo de comparar Marina a organizações armadas como as Farc e o Hamas, e reiterou uma declaração anterior na qual a associava a um câncer. “O câncer muitas vezes tem cura”, declarou cinicamente. Já o deputado Cabo Gilberto (PL-PB), ao tentar desqualificá-la com um paternalista “calma, ministra”, escancarou o machismo cotidiano que ainda impera na política nacional — onde mulheres, sobretudo negras e combativas, não têm direito à veemência.
A ministra, com serenidade e firmeza, respondeu: “É preferível sofrer a injustiça do que praticar uma injustiça.” Palavras que soam quase proféticas diante da degradação institucional que assistimos. Mas há uma pergunta incômoda pairando no ar: até quando Marina — ou qualquer mulher — deverá suportar esse tipo de violência em nome da paciência democrática?
O uso político da misoginia
O que está em curso é mais do que um ataque pessoal. É a operacionalização política da misoginia como ferramenta de mobilização de base. Parlamentares como Evair de Melo, Cabo Gilberto e tantos outros não estão apenas vociferando insultos — estão cumprindo um papel calculado dentro de uma estratégia populista autoritária. “Bater em Marina Silva excita seus eleitores”, escreveu um jornalista, com precisão desconcertante. E de fato: vídeos distorcidos e descontextualizados circulam nas redes como troféus, exibindo o suposto “enquadramento” de uma mulher que ousa falar com firmeza e autoridade.
Essa prática segue a lógica de um ecossistema tóxico, onde a agressão performática gera engajamento, e o engajamento vira voto. O Congresso transformou-se, assim, numa usina de grotescos, onde os piores instintos recebem holofotes e se convertem em capital político. O caso de Abílio Brunini (PL-MT), eleito prefeito de Cuiabá após ganhar notoriedade por seus ataques no plenário, é apenas mais um sintoma desse modelo. Nele, a razão cede espaço ao ressentimento; a política, ao espetáculo.
Não é à toa que Marina seja o alvo ideal: mulher, negra, ex-seringueira, evangélica, ambientalista. Um corpo que carrega em si todas as interdições sociais que o patriarcado e o racismo estruturam — e por isso mesmo, um símbolo de resistência. Sua trajetória, da infância pobre no Acre à cátedra ambiental na ONU, é uma afronta à ordem conservadora que esses homens desejam restaurar.
A omissão como política de poder
Diante desse teatro de horrores, o presidente da Câmara, Hugo Motta, permanece em silêncio. A mesma figura que, há poucos meses, vociferava contra o “vale-tudo” no plenário e prometia punir quem desrespeitasse o decoro, agora se esquiva de aplicar suas próprias palavras. “Ou esse plenário se dignifica de estar aqui representando o povo brasileiro, ou nós não merecemos estar aqui”, afirmou ele em abril, após uma briga entre bolsonaristas e petistas. Prometeu acionar o Conselho de Ética diante de qualquer agressão entre parlamentares.
A agressão contra Marina não é subjetiva: foi pública, gravada, e recaiu sobre uma deputada licenciada, colega de todos ali. Os critérios estabelecidos por Hugo Motta para agir foram atendidos. Mas ele não agiu. E isso tem nome: conivência institucional.
Esse silêncio eloquente revela não apenas fraqueza de liderança, mas uma escolha política. Punir Evair de Melo ou Cabo Gilberto significaria romper com uma ala poderosa do Congresso, que detém votos, influência e capacidade de obstrução. Manter-se inerte, portanto, é um gesto de cálculo, que põe a estabilidade da presidência da Casa acima da dignidade do cargo — e da democracia.
O risco da banalização institucional
Como alertou o filósofo italiano Norberto Bobbio, o maior inimigo da democracia não é apenas a tirania explícita, mas a erosão silenciosa de seus fundamentos. Quando o Parlamento naturaliza o insulto, institucionaliza a barbárie. Quando o presidente da Câmara se omite, legitima a violência como prática política. E quando a sociedade assiste passivamente, pavimenta-se o caminho para que a exceção se torne regra.
O caso de Marina Silva não é isolado — é um termômetro. O que se normaliza contra ela hoje poderá ser reproduzido contra qualquer voz dissonante amanhã. É assim que se destrói uma democracia: não com tanques, mas com escárnio; não com fuzis, mas com microfones.
Há, portanto, uma responsabilidade coletiva diante do que ocorre. À imprensa, cabe não transformar esses episódios em espetáculo, mas em denúncia. À sociedade, cabe não rir dos vídeos que circulam nas redes, mas indignar-se. E ao Parlamento, cabe resgatar a ética que justifica sua própria existência.
A biografia como antídoto ao ódio
O contraste entre Marina Silva e seus agressores não poderia ser mais gritante. Enquanto a ministra apresenta dados concretos de queda no desmatamento (46% na Amazônia, 32% no país) e crescimento econômico (15% no agronegócio, 11% na renda per capita), seus adversários se limitam a invectivas vazias, pautadas na desinformação e no ódio ideológico.
Marina não é apenas uma técnica competente. É uma liderança com projeção global. Eleita pela Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, homenageada por universidades internacionais, interlocutora respeitada nos fóruns multilaterais. Seus agressores, por outro lado, dificilmente seriam reconhecidos fora dos limites de suas bolhas digitais.
Como disse o professor e sociólogo Jessé Souza: “O Brasil é um país fundado na humilhação social. E humilhar quem rompe esse ciclo é uma forma de restaurar a hierarquia que a elite sente ameaçada.”
Atacar Marina, portanto, é mais do que insultá-la. É tentar recolocar uma mulher negra de volta ao lugar que o Brasil racista e patriarcal insiste em manter reservado às margens da política.
O que se viu na Câmara dos Deputados não é apenas mais um episódio da violência política de gênero. É um sinal de alerta sobre os rumos de nossa democracia. Ou Hugo Motta age — e pune exemplarmente os agressores — ou a Presidência da Câmara será, novamente, cúmplice de um processo de degradação institucional. O grotesco, hoje, governa. Mas a resistência persiste — e tem nome, rosto e biografia.
Brasil recupera lugar de potência ambiental, diz Marina
Em meio aos ataques, Marina Silva destacou o papel de protagonismo que o Brasil voltou a ocupar no cenário político internacional após reconstruir a política para o setor dentro do país. “O Brasil recuperou seu lugar de potência ambiental”, afirmou.
Segundo a ministra, apesar de todas as adversidades enfrentadas, o país acumula números positivos que já são reconhecidos em ambientes multilaterais. “Nesses dois anos em que o desmatamento caiu quase 46% na Amazônia e 32% no país inteiro, o agronegócio cresceu 15% e a renda per capita cresceu em torno de 11%.”
Os resultados foram alcançados com ações de prevenção, capacidade de mobilização e parceria com estados, municípios, organizações sociais e empresariado brasileiro, que se empenham no avanço da agenda ambiental, informou a ministra.
“Quem destrói é uma minoria. Apenas 2,6% dos imóveis rurais concentram 60% das irregularidades. A maioria não é irregular. Então, aqueles que o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis está autuando são os que comprovadamente promovem atividades fora da lei.”
A afirmação foi feita após ser questionada sobre a apreensão de 20 cabeças de gado ilegal que ocupavam a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no estado do Acre. A operação, realizada em junho, atuou para remover 400 bovinos mantidos irregularmente em toda a unidade de conservação federal. “Esses 2,6% não falam pelo agronegócio brasileiro.”
Ela disse que a redução do desmatamento só não foi maior por causa dos incêndios ocorridos em 2024. “De fato, nós tivemos em 2024 um aumento dos incêndios no Brasil, que se deu em função de um extremo climático que não afetou apenas o Brasil, mas afetou o mundo inteiro.”
O extremo climático levou o país a um cenário de seca com baixa precipitação, temperatura alta e baixa umidade que potencializaram os incêndios iniciados de forma criminosa. “Isso fez com que a gente tivesse um processo de retroalimentação perverso”, ressaltou.
Para enfrentar todas as adversidades, o governo federal destinou quase R$ 1,5 bilhão para ações de combate aos incêndios, estruturou a capacidade operacional ampliada para 3,5 mil brigadistas e reduziu a área atingida na comparação com os números de 2022.
“Fizemos uma verdadeira força-tarefa no país para evitar que tivéssemos uma situação de completo descontrole, porque a situação ficou muito agravada”, reforçou.
A ministra também foi questionada sobre a demora na liberação do uso de agrotóxicos no país e informou que o Ibama tem autonomia para realizar as análises técnicas a partir de critérios que consideram os benéficos para a saúde pública, para o meio ambiente e para o próprio produtor rural.
Segundo Marina, a demora muitas vezes se dá pela insistência na aprovação de produtos que já foram proibidos anteriormente. “A maioria dos pedidos para autorização de novos agrotóxicos são para genéricos que não têm nenhuma molécula nova, nem atualização da fórmula.”
A ministra enfatizou ainda que boas práticas como o uso de bioinsumos, respeito a reserva legal e regularização ambiental são bonificadas na forma de incentivos na concessão de crédito dentro das políticas públicas.
“No Plano Safra deste ano, lançado recentemente, criamos uma inovação e estabelecemos um redutor de juros por boas práticas, que chega a 1%. Isso se constituiu em um incentivo para que os agricultores façam investimentos na área da agricultura de baixo carbono.”
Alerta para “golpe mortal” em normas sobre licenciamento
No último dia 5 de junho – por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente – a ministra afirmou que mudanças legislativas para flexibilizar regras de licenciamento ambiental, em um mundo cada vez mais assolado por extremos climáticos, são um grande risco para o país.
“Não podemos permitir que, em nome da agilização das licenças ambientais, seja desferido um golpe mortal em nossa legislação, justamente quando o desequilíbrio ecológico, que está acelerando as mudanças climáticas, nos cobra mais responsabilidade”, disse Marina em vídeo divulgado em cadeia nacional de rádio e televisão.
Embora não tenha citado diretamente, ela se referia ao projeto de lei (PL) 2.159/2021, aprovado no último dia 21 de maio pelo Senado Federal, alvo de críticas da própria ministra de e uma série de entidades de defesa do meio ambiente.
“Precisamos aprimorar nossas políticas públicas e nossa legislação ambiental, mas sem permitir retrocessos que ponham a perder um esforço de décadas da sociedade brasileira, que pode se orgulhar de ter uma das mais completas e bem avaliadas leis ambientais do mundo”, afirmou Marina Silva em seu pronunciamento.
A ministra enfatizou ser possível promover o desenvolvimento sustentável com justiça social e ambiental, ampliar o acesso à infraestrutura protegendo o meio ambiente e melhorar a vida das populações mais vulneráveis com responsabilidade, recuperando áreas degradadas, com regeneração de biomas, mantendo florestas de pé e investindo em energias limpas e uso responsável da água e do solo.
Riscos climáticos
Marina Silva destacou que as alterações climáticas são decorrência direta da devastação ambiental, que ameaça a sobrevivência concreta das pessoas.
“Vivemos tempos em que as mudanças climáticas, provocadas pela degradação do meio ambiente e pelo consumo excessivo de combustíveis fósseis, ameaçam profundamente o nosso futuro. O aumento das secas, inundações, ondas de calor e incêndios coloca em risco a alimentação, a saúde, a moradia de milhões de pessoas, em nosso país e em todo o mundo”.
Redução do desmatamento
Marina Silva exaltou os números do governo, que registram queda no desmatamento da Amazônia e em outros biomas, o que ela atribui ao reforço na fiscalização e monitoramento.
“Nos primeiros dois anos do governo do presidente Lula, conseguimos reduzir quase pela metade o desmatamento na Amazônia e em 32% em todo o país. Isso só foi possível com o fortalecimento da fiscalização e do combate aos crimes ambientais pelo Ibama, o ICMBio e a Polícia Federal, com ministérios, governos estaduais, prefeituras e comunidades locais jogando juntos”, afirmou.
“Também retomamos a criação de reservas ambientais e a demarcação de terras indígenas e quilombolas, territórios vitais para a proteção da nossa natureza e da nossa diversidade”, acrescentou.
Sabedoria indígena e COP30
Ainda no pronunciamento, Marina Silva afirmou que a capacidade de liderar a luta pelo clima e o meio ambiente como exemplo internacional, pautando diálogo, ciência e saberes milenares dos povos indígenas e comunidades tradicionais.
A ministra também falou sobre a preparação do país para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, que ocorrerá em novembro, em Belém, reunindo chefes de Estado e delegações de centenas de países.
“Liderar pelo exemplo, aliás, é o que todos esperam do Brasil, que se prepara para receber em novembro o maior evento de meio ambiente do mundo, a COP-30, em Belém do Pará. Será a COP do chamamento de um grande mutirão para que o mundo se una no esforço coletivo pela implementação dos compromissos até aqui firmados na Convenção do Clima”.
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