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Ecologia

Maioria das praias do Brasil está poluída por microplásticos

Fiocruz alerta para contaminação da Amazônia por plásticos

Publicado em 08/10/2025 1:18 - DW e Agência Brasil

Divulgação Agência Brasil

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Das 1.024 praias brasileiras analisadas em um estudo publicado na revista Environmental Research em 24 de setembro, 69,3% estavam poluídas por microplásticos. Com menos de cinco milímetros – algo como um grão de arroz –, esses fragmentos podem afetar a biodiversidade, a segurança alimentar, a saúde humana e até as atividades econômicas do ambiente marinho e costeiro.

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A pesquisa faz parte do projeto MicroMar, liderado pelo Instituto Federal Goiano (IF Goiano). Segundo o artigo, o estudo é o mais extenso levantamento padronizado conduzido não só no Brasil, mas em todo o Sul Global.

“O MicroMar representa um marco porque, pela primeira vez, conseguimos ter uma visão abrangente e sistemática da contaminação por microplásticos ao longo das praias brasileiras. Isso gera um banco de dados inédito, que pode ser usado de maneiras muito concretas”, avaliou Guilherme Malafaia, professor do Departamento de Ciências Biológicas do IF Goiano e coordenador da pesquisa.

O estudo também mostrou que a concentração de microplásticos é apenas parte do problema. “A principal mensagem do projeto não é só identificar onde há plástico, mas também onde estão os mais perigosos e quais áreas concentram os maiores riscos”, explicou Thiarlen Marinho da Luz, doutorando em Biotecnologia e Biodiversidade pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e primeiro autor do artigo.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) disse acompanhar as pesquisas sobre o tema. Em nota enviada à DW, destacou a importância da Estratégia Nacional Oceano sem Plástico (ENOP), publicada no dia 1º de outubro. “É uma iniciativa inédita do governo federal que orienta e coordena ações estratégicas, sinérgicas e multissetoriais para a prevenção, redução e eliminação da poluição por plástico no oceano até 2030”, informou o MMA.

Presença e risco

Para detectar os microplásticos e seus riscos, os pesquisadores seguiram algumas etapas. Primeiro, selecionaram 1.024 praias em 211 municípios de todos os 17 estados costeiros do Brasil, cobrindo aproximadamente 7,5 mil quilômetros de litoral. Depois, coletaram 4.134 amostras de areia entre 2022 e 2023, levando-as para o mesmo laboratório.

A partir daí, os pesquisadores analisaram a quantidade de microplásticos por quilograma de areia em cada praia, encontrando a poluição em 69,3% delas. Os estados com os valores médios mais elevados foram Paraná, Sergipe, São Paulo e Pernambuco.

Das 30 praias com maior concentração de microplásticos, oito estavam em Pontal do Paraná (PR) – entre elas Barrancos, que ficou no topo do ranking, com 3.483,4 itens por quilograma de areia. Questionada pela DW, a prefeitura informou que não conhecia o estudo. E levantou a hipótese de que esses materiais cheguem ao município, principalmente, pelas correntes marítimas.

O passo seguinte foi calcular o Índice de Perigo do Polímero (PHI, na sigla em inglês), que mediu o quão tóxico eram os microplásticos encontrados. Os estados com maiores valores neste índice foram Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Maranhão e Pará.

Para ter uma ideia de como o cálculo mudou o cenário, a praia de Barrancos, apesar de ter a maior densidade de microplásticos, caiu para a 107ª posição. Já a praia Paraíso, em Torres (RS), com poucos fragmentos encontrados comparados à realidade nacional, ficou no topo do ranking.

Mas o estudo deu outro passo: combinou a quantidade de microplásticos com o perigo dos materiais, através do cálculo do Índice de Risco Ecológico Potencial (PERI, na sigla em inglês). Os estados com os maiores valores encontrados foram Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Piauí e Maranhão.

Novamente, a praia Paraíso teve o índice mais alto. Apesar de não ter tantos microplásticos, foram encontradas amostras de materiais considerados mais tóxicos, como o PVC. A prefeitura de Torres não respondeu aos questionamentos da DW.

Risco aos banhistas?

Os microplásticos funcionam como pequenos fragmentos de poluição, explicou o professor Guilherme Malafaia, do MicroMar. “Eles podem ser ingeridos por organismos marinhos – desde o plâncton até os peixes – interferindo na nutrição, crescimento e reprodução dessas espécies. Isso gera um efeito em cascata, ou seja, se a base da cadeia alimentar sofre, todo o ecossistema fica comprometido.”

Para os seres humanos, a principal preocupação é indireta, por meio do consumo de peixes e frutos do mar contaminados. “Para os banhistas, a presença de microplásticos na areia não representa, no momento, um risco direto de intoxicação. Entretanto, é importante destacar que esses fragmentos podem atuar como ‘esponjas ambientais’, absorvendo metais pesados, pesticidas e até microrganismos patogênicos”, pontuou Malafaia.

De forma geral, a proximidade de galerias de águas pluviais e esgoto, fozes de rios e áreas altamente urbanizadas explica boa parte da poluição. O estudo também apontou três frentes urgentes para resolver o problema: conter o lixo antes de chegar ao mar (drenagem urbana e manejo de resíduos), reduzir a carga plástica nas bacias hidrográficas e implementar metas regionais de monitoramento.

Da fonte ao mar

Apesar dos inúmeros alertas dos cientistas, o combate à poluição por plásticos e microplásticos enfrenta resistências. Em agosto, um acordo histórico no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para resolver o problema foi bloqueado pelos países produtores de petróleo.

No Brasil, dois projetos de lei de 2022 seguem tramitando: o PL 2524, que propõe restringir plásticos de uso único e criar metas de reciclagem, e o PL 1874, que institui a Política Nacional de Economia Circular. O MMA acredita que o cenário pode mudar com a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico (ENOP).

“Os objetivos da ENOP se ancoram no enfrentamento à poluição por plástico em todo o ciclo de vida do material, desde a extração de matérias-primas até a destinação final, para proteger recursos naturais e a biota marinha, incluindo o cuidado com cadeias alimentares e os efeitos do microplástico”, informou, em nota. Essa abordagem é chamada de “da fonte ao mar”.

Em 90 dias deve ser lançado um plano de ação baseado na estratégia, conforme o MMA. “A expectativa é que o trabalho realizado a partir desta estratégia seja um marco para engajar consumidores e mercado em alternativas mais sustentáveis ao plástico, ampliar o acesso a financiamento, debater a revisão e orientação de subsídios que agravam impactos ambientais e sociais negativos, promovendo por fim dignidade, saúde e inclusão social.”

Para Thiarlen Marinho da Luz, primeiro autor do estudo publicado na Environmental Research, a sociedade está consciente do problema, mas falta ação. “As pessoas estão conscientes de que uma tartaruga pode comer uma sacola, de que o remédio pode causar dano nos peixes. Agora, se elas são sensíveis à causa, eu acredito que não.”

Fiocruz alerta para contaminação da Amazônia por plásticos

Um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, aponta contaminação por resíduos plásticos na Amazônia.

A pesquisa revela impactos em ambientes aquáticos e terrestres, além de potenciais danos à saúde humana, especialmente entre comunidades ribeirinhas e indígenas.

artigo científico foi publicado recentemente na revista Ambio, especializada em meio ambiente e sociedade. É a primeira revisão sistemática da literatura sobre o tema no bioma amazônico.

Ao todo, foram analisados 52 estudos revisados por pares que identificaram poluição por plásticos (macro, meso, micro e nanoplástico) em fauna, flora, sedimentos e água.

São toneladas de lixo flutuante, descartadas por moradores de diferentes áreas urbanas, embarcações e pelas próprias comunidades, o que contribui para que os resíduos atravessem cidades e países.

Segundo o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, a revisão evidencia um problema maior do que o estimado.

“O momento parece oportuno para discutir os intrigantes resultados desta revisão de escopo da literatura científica, a primeira a aplicar um protocolo sistemático (PRISMA-ScR) para avaliar a contaminação por plástico em ecossistemas amazônicos”, disse Orellana.

“Revisamos uma gama de relatos sobre lixo e fragmentos de plástico em ambientes terrestres e aquáticos do bioma amazônico, o que indica um impacto muito maior do que a maioria das pessoas imagina”, complementa.

A bióloga Jéssica Melo, uma das autoras do artigo, destaca que a poluição plástica é uma crise global, mas ainda pouco estudada na Amazônia, mesmo sendo a maior bacia hidrográfica do planeta.

“A contaminação de fontes importantes de alimentos e de água representa um grande risco para a saúde de populações tradicionais. Identificamos lacunas urgentes em pesquisas, especialmente em fauna não piscícola, áreas remotas e outros países amazônicos. Destacamos a necessidade de mitigação direcionada por meio da gestão de resíduos e da educação”, diz Melo.

O estudo também expõe a falta de infraestrutura para gestão de resíduos em comunidades amazônicas.

Pesquisadores do Instituto Mamirauá relatam que, no interior do Amazonas, o lixo doméstico antes era majoritariamente orgânico. Mas, hoje, os rios estão repletos de garrafas PET e embalagens plásticas.

O trabalho reforça a urgência de pesquisas mais amplas e de ações concretas para conter o avanço da poluição, sobretudo às vésperas da COP30, que será realizada na Amazônia.

Produção de plástico reciclado no Brasil cresceu 8% em 2024

A produção nacional de plástico reciclado, tecnicamente chamado de resina plástica reciclada pós-consumo (PCR), atingiu 1,012 milhão de toneladas em 2024, resultado 7,8% superior ao registrado em 2023. Os dados são de estudo anual encomendado pelo Movimento Plástico Transforma, iniciativa do PICPlast, parceria entre a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e a Braskem.

O faturamento da indústria de reciclagem também subiu, alcançando, em 2024, R$ 4 bilhões, um aumento nominal de 5,8% em relação a 2023. O setor também gerou mais empregos, totalizando 20.043 novos postos de trabalho diretos, um crescimento de 7,7% em relação ao ano anterior. A capacidade instalada das indústrias recicladoras também teve elevação, 1,9%, chegando a 2,43 milhões de toneladas.

Segundo o levantamento, a resina PCR produzida em 2024 foi destinada principalmente aos setores de Alimentos e Bebidas (167 mil toneladas) e Higiene Pessoal, Cosméticos e Limpeza Doméstica (132 mil toneladas), impulsionados pela demanda por embalagens com conteúdo reciclado.

A Agroindústria demandou 92 mil toneladas e apresentou um crescimento de mais de 35% em relação a 2023, impulsionado por aplicações como lonas, mangueiras e embalagens de agroquímicos.

“Se compararmos com 2018, quando o estudo começou, percebemos uma inversão de protagonismo: naquele ano, a construção civil era o principal destino da resina reciclada, enquanto o segmento de alimentos e bebidas tinha uma participação menor. Essa mudança reflete o avanço regulatório e os compromissos de grandes marcas de consumo com a economia circular e o uso de materiais mais sustentáveis”, destacou o diretor de Química Sustentável e Reciclagem da MaxiQuim, Maurício Jaroski.

Regiões

O levantamento mostrou ainda uma forte concentração dos processos de reciclagem de plástico nas regiões Sudeste e Sul do país, que lideram todas as etapas da cadeia, desde a geração do resíduo até a produção da resina reciclada pós-consumo (PCR).

A Região Sudeste se destaca como a maior geradora de resíduos plásticos, com 48,1% do total (2,3 milhões de toneladas), e também como o principal polo de processamento, respondendo por 47% do consumo de resíduos pela indústria e 55,5% da produção nacional de PCR (559 mil toneladas).

A Região Sul aparece na sequência, sendo responsável por 26% do consumo de resíduos e 26,2% da produção de PCR (266 mil toneladas). Enquanto isso, a Região Nordeste se consolida como a terceira força produtora de PCR, com 13,7% do total (139 mil toneladas) e um crescimento expressivo de 16,6% em relação a 2023.

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