13/06/2024 - Edição 540

Ecologia

Lamento pela morte do cerrado dura até a lembrança dos dólares da soja

A área desmatada no cerrado foi 61% de todo o desmatamento no país no ano passado: mais de 1,1 milhão de campos de futebol

Publicado em 28/05/2024 10:17 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Imagem: Jose Cruz/Agência Brasil

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Com o fim do governo Jair Bolsonaro, que havia escancaradamente liberado o desmatamento na Amazônia, os números de perda de cobertura vegetal desabaram no bioma. Sim, o controle e a fiscalização voltaram, e olha que o Ibama está em greve. Com isso, o cerrado se tornou o campeão nacional de desmate, como mostram os dados do MapBiomas, trazidos por Carlos Madeiro, nesta terça (28), no UOL. O lamento pelo bioma, contudo, dura só até o tilintar dos bilhões de dólares da soja soar no caixa nacional.

A área desmatada no cerrado foi 61% de todo o desmatamento no país no ano passado: mais de 1,1 milhão de campos de futebol. Não há uma única razão, mas um pacote delas para isso acontecer.

Primeiro, o óbvio: a maior parte do bioma está em mãos do setor privado, e as regras permitem um desmatamento legal que varia de 65% (perto da Amazônia) a 80% da área da fazenda. Isso é muita coisa. Tem muito desmatamento legal nessa história.

Segundo: uma avalanche de autorizações de supressão vegetal foi concedida nos últimos anos para o cerrado por órgãos estaduais. O monitoramento sobre a regularidade dessas autorizações não tem sido feito corretamente – e olha que boa parte do desmatamento ocorreu em áreas com cadastro ambiental rural. Vale ressaltar que o desmatamento é concentrado no chamado Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), fronteira agrícola em franca expansão, governada pela esquerda e pela direita.

Terceiro: com o aumento das restrições sobre a floresta amazônica, impostas não só pelo governo brasileiro, mas também por compradores na União Europeia e nos Estados Unidos, soja, milho e algodão avançam mais rapidamente sobre o cerrado. Como são importantíssimos em nossa pauta de exportações, exalta-se essa expansão na imprensa, nos palácios, nos eventos empresariais, o que serve ainda mais como incentivo.

Quarto: apesar de sua imensa biodiversidade, o cerrado é tratado, historicamente, como um dos patinhos feios dos biomas brasileiros ao lado da caatinga. Castanheiras e sumaúmas com dezenas de metros de altura chamam mais a atenção da sociedade do que uma cagaiteira, um buritizeiro, um pequizeiro ou a vegetação baixa, de galhos retorcidos. E atenção significa proteção.

Quinto: o cerrado conta com poucas áreas sob responsabilidade de povos tradicionais, como indígenas, quilombolas, catadores de coco de babaçu, populações de fundo de pasto, entre outras. E, em todo o país, as maiores taxas de preservação ambiental estão exatamente em áreas sobre responsabilidade dessas comunidades.

Sexto: há regras de importação da União Europeia que não levavam consideração supressão vegetal de parte do cerrado, o que deve mudar em breve. Uma parte dos produtores, de olho nisso, acelera a destruição.

O cerrado é o o grande centro dispersor de água, onde ficam as nascentes dos grandes rios do país. Nas últimas décadas, temos contaminado essa caixa d’água com agrotóxicos, que já aparecem na rede de distribuição da cidades. Além disso, com a supressão de cobertura vegetal, rios estão assoreando e parando de correr. Vai faltar água para consumo humano, animal, navegação, indústria, geração de energia. E o desmatamento do cerrado pode levar a um processo de desertificação da própria região, arruinando a agricultura. Mas, como o agro é pop, segue o jogo.


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