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Ecologia

Como ameaça crescente ao Cerrado pode prejudicar o agro

Bioma é o segundo mais ameaçado no país: estudo mostra que área perdeu 27% de vegetação nativa em 39 anos

Publicado em 12/09/2024 3:01 - Guilherme Cavalcanti (Agência Pública), Fabíola Sinimbú (Agência Brasil)

Divulgação Agência Brasil

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Apenas no que diz respeito ao cultivo de grãos, as perdas do agronegócio na região do Cerrado brasileiro já ultrapassam 1 bilhão de dólares por ano – mais de R$ 5,6 bilhões. A informação é do pesquisador da Knowledge Center for Biodiversity Cássio Cardoso Pereira, um dos autores de um artigo publicado recentemente na revista científica BioScience sobre o nível de vulnerabilidade do bioma, o mais desmatado em 2023. O nível de ameaça mostra que há pouco o que comemorar neste dia do Cerrado, 11 de setembro.

No documento, cientistas apontam uma falta de atenção ao Cerrado, cuja previsão de desmatamento em 2024 é de cerca de 12 mil km², contra a marca já alta de 11.011 km² perdidos no ano passado. A marca segue caminho inverso à queda nos índices de desmatamento registrados desde que o governo Lula assumiu, em 2023, e já é superior à destruição da Amazônia, que perdeu 9 mil km² no mesmo período.

Segundo Pereira, preservar o Cerrado é preservar a estabilidade dos regimes de chuva, a recarga dos aquíferos e a manutenção das nascentes dos rios que sustentam o país. “Em um primeiro momento, os produtores acreditam que o desmatamento vale a pena, mas ao longo prazo o que vemos é que as alterações na vegetação vêm causando desequilíbrios climáticos, que afetam a produtividade”, explica.

De acordo com o artigo, divulgado pela Agência Bori, a destruição do Cerrado é agravada pela falta de apoio internacional, políticas governamentais que estimulam o agronegócio e uma legislação ambiental historicamente “frouxa”, especialmente em relação à proteção de terras privadas.

Cerca de 75% do desmatamento total foi registrado na região Matopiba – composta pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, onde foram verificadas as maiores áreas absolutas e a maior velocidade de supressão vegetal no ano. De acordo com o Relatório Anual de Desmatamento 2023 do MapBiomas, apenas 8% da área original do Cerrado está resguardada em unidades de conservação. Na área, o avanço e a expansão da agricultura mecanizada converteram muitas áreas de pastagens em lavouras de soja.

“Do ponto de vista legal de proteção, ele é pouco protegido. Desde a lei do Código Florestal, que protege somente 20% das áreas privadas dos imóveis rurais. […] Quando a gente fala em terras públicas, também. Porque temos um percentual muito baixo de áreas protegidas no Cerrado, tanto [de] terras indígenas quanto unidades de conservação”, avalia a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Cerrado e Fogo, Ane Alencar. No caso da Amazônia, a legislação impõe um índice de proteção de 80% da cobertura nativa.

Mesmo em territórios indígenas, o desmatamento no Cerrado teve aumento de 188% em relação a 2022. O território Porquinhos dos Canela-Apãnjekra, no Cerrado, foi a terra indígena mais afetada no país em 2023, com a perda de cerca de 2.750 hectares de vegetação nativa. O número representa cerca de 39% dos 7.048 hectares desmatados nos territórios indígenas do Cerrado no ano passado.

A dinâmica de desmatamento foi facilitada pelo novo Código Florestal de 2012, segundo avalia o pesquisador sobre mudanças climáticas da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) Ben Hur Marimon Jr. Antes, os produtores precisavam comprovar que incêndios em suas terras eram acidentais ou iniciados fora da propriedade, o que agora cabe a órgãos fiscalizadores. “A perícia ambiental não avança, não tem perito suficiente pra pegar 2 mil focos de incêndio, 5 mil focos de incêndio, pra dizer onde que surgiu isso. Se foi incêndio ou se é uma queimada [proposital]”, afirma Marimon. “O Cerrado não aguenta.”

Um problema, dois biomas

A expansão agrícola no Cerrado tem desencadeado uma migração de pecuaristas para a Amazônia. Philip Fearnside, um dos pesquisadores que também assina o artigo, explica que os pecuaristas, ao perceberem a valorização de suas terras no Cerrado, vendem essas propriedades para produtores de soja interessados em expandir suas culturas.

“Quem é pecuarista continua sendo pecuarista, ele não vai se tornar um plantador de soja. […] Então, ele vai vender a terra para um plantador de soja. […] E aí ganha muito dinheiro, porque a terra é valorizada. Aí vai lá para o Pará, Amazônia [criar seu gado] […] onde cada hectare é muito mais barato”, explica o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Cada hectare lá que [ele] vendeu para plantar soja se transforma em vários hectares de desmatamento na Amazônia.”

Estudo mostra que área perdeu 27% de vegetação nativa em 39 anos

O segundo maior bioma brasileiro também ocupa essa posição (segundo) quando o assunto é ameaça à biodiversidade e aos serviços ecossistemáticos. De acordo com estudo realizado pela Mapbiomas, o Cerrado perdeu 27% de sua vegetação nativa nos últimos 39 anos, o que representa 38 milhões de hectares.

Em toda a cobertura natural do país que sofreu transformação no uso do solo, o bioma, proporcionalmente, só foi menos afetado que o Pampa, que perdeu 28% de vegetação nativa ao longo desses anos.

Também conhecido como savana brasileira, o Cerrado ocupa 25% do território nacional, em 11 estados que se estendem do Nordeste à maior parte do Centro-Oeste, e mantém áreas de transição com praticamente todos os biomas, exceto os Pampas. Pelas características adquiridas no contato com mais quatro ecossistemas (Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica e Caatinga), é considerada a savana mais biodiversa do planeta.

Ao longo desse período, o bioma teve 88 milhões de hectares atingidos pelo fogo, o que causou a perda de 9,5 milhões de hectares. Embora seja mais resiliente aos incêndios, pesquisadores apontam que as mudanças climáticas associadas ao uso indiscriminado do fogo têm ameaçado a integridade de sua cobertura natural. “É essencial implementar políticas públicas que promovam a conscientização, reforcem sistemas de monitoramento e apliquem leis rigorosamente contra queimadas ilegais”, reforça a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Vera Arruda.

Junto com a cobertura natural do solo, a perda do Cerrado significa perder também a sua enorme capacidade de reter gás carbônico na biomassa de suas longas raízes, de recarregar a água subterrânea e de manter o ciclo hídrico que equilibra o planeta. “Temos observado que as áreas úmidas no Cerrado estão secando. Além disso, a expansão da agricultura sobre essas áreas vêm ocorrendo em algumas regiões no bioma, o que pode afetar o abastecimento hídrico e resultar em escassez de água para a população e para a agricultura, aumentando também a vulnerabilidade a desastres climáticos e à perda de biodiversidade”, alerta Joaquim Raposo, pesquisador do Ipam.

Para se ter uma ideia, de toda a área perdida ao longo dos 39 anos estudados, 500 mil hectares foram de áreas úmidas substituídas principalmente por pastagem. São áreas naturais consideradas fundamentais na manutenção dos recursos hídricos, presentes em 6 milhões de hectares do bioma onde nascem oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras.

Ontem (11 de setembro) foi celebrado o Dia do Cerrado, e organizações da sociedade civil como os institutos Cerrados, Sociedade População e Natureza, Ipam e WWF Brasil lançaram uma campanha de sensibilização sobre a relevância do bioma e os desafios a serem enfrentados para a sua preservação.

Chamada Cerrado, Coração das Águas, a campanha foi lançada em um site que reúne informações relevantes sobre o bioma, suas características, biodiversidade, povos, turismo e caminhos para a preservação, além de reunir boas histórias dessa “floresta invertida”.


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