Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Ecologia
Relatórios científicos confirmam que o mundo está perto de cruzar o limite de 1,5 °C; cientistas alertam para riscos de colapso sistêmico
Publicado em 19/11/2025 3:32 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
É a Terra que está esquentando ou é a política que está esfriando? Essa pergunta poderia resumir o dilema que se impôs, mais uma vez, na COP30, realizada em Belém do Pará, em meio a um cenário de alertas científicos cada vez mais inequívocos: o planeta ultrapassará o limite de 1,5 °C de aquecimento médio global já na próxima década, e a humanidade caminha, com passo firme, rumo a um ponto de inflexão climático — talvez, irreversível.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
No mais recente Relatório Global de Carbono, divulgado em 13 de novembro, os dados são contundentes: as emissões de CO₂ oriundas da queima de combustíveis fósseis devem atingir um recorde histórico de 38,1 bilhões de toneladas em 2025. A estimativa representa um aumento de 1,1% em relação ao ano anterior e frustra as expectativas de que o pico de emissões fosse alcançado até 2025, conforme exigido pelo Acordo de Paris. O mundo não só perdeu esse prazo: está indo na direção contrária.
Para o cientista Pierre Friedlingstein, professor da Universidade de Exeter e coordenador do estudo, “precisamos que as emissões de CO₂ diminuam a cada ano nos próximos 20 a 30 anos se quisermos manter o aquecimento abaixo de dois graus” — uma meta que, embora ainda possível em termos físicos, se torna política e socialmente improvável diante da inércia das grandes potências. A citação é do próprio relatório do Global Carbon Budget (2025).
Os Estados Unidos, por exemplo — o segundo maior emissor histórico de carbono —, aumentaram suas emissões de carvão em quase 2%, e o governo do republicano Donald Trump sequer enviou delegação para a COP30, reiterando seu negacionismo climático já conhecido. Na Europa, outro sinal de retrocesso: as emissões também cresceram. Enquanto isso, a China mantém suas taxas praticamente estáveis, embora siga como a maior emissora anual do planeta.
Do colapso climático ao colapso civilizatório?
Não se trata apenas de calor. A superação do limite de 1,5 °C representa um risco sistêmico que pode desencadear um efeito dominó de impactos devastadores: perda de biodiversidade, eventos climáticos extremos, escassez hídrica, insegurança alimentar, aumento do nível do mar e, sobretudo, o colapso de ecossistemas cruciais, como os recifes de corais e a floresta amazônica.
A cientista Marina Hirota, pesquisadora ligada ao Instituto Serrapilheira, reforça que já vivemos em um contexto de “overshooting” — ou seja, já ultrapassamos temporariamente o limite seguro de aquecimento. “Agora, o esforço é manter esse aumento pelo menor tempo possível”, disse Hirota. Para ela, o planeta funciona como um organismo: “se os corais desaparecem, o oceano aquece e a Amazônia enfrenta secas mais extremas. Todo o sistema terrestre enfraquece”.
Hirota também chama atenção para o que talvez seja o aspecto mais negligenciado da crise climática: a distância entre ciência e sociedade. Traduzir conceitos técnicos como “ponto de não retorno” para o cotidiano das pessoas é essencial, mas ainda é um desafio. “Conversei com um motoboy, e ele me disse que não dá para pensar no fim do mundo quando ele precisa pensar no fim do mês”, relatou a cientista durante o evento. O problema, portanto, não é só ambiental — é também comunicacional, social e ético.
Uma falência moral em escala planetária
Se os números são alarmantes, a inação das lideranças globais assume contornos morais. O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi categórico na abertura da COP30: o não cumprimento das metas do Acordo de Paris representa “uma falha moral e negligência fatal”. Mesmo uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5 °C pode ter “consequências dramáticas”, alertou Guterres, citando o Relatório sobre a Lacuna de Emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), publicado em 4 de novembro.
De acordo com esse documento, o mundo está agora a caminho de um aumento entre 2,3 °C e 2,5 °C até 2100, caso todas as promessas nacionais sejam integralmente cumpridas — algo pouco provável, dado o atual cenário geopolítico. Se os países seguirem suas políticas atuais, chegaremos a 2,8 °C de aquecimento até o fim do século, uma cifra que beira o colapso climático.
Para a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, “embora os planos climáticos nacionais tenham proporcionado algum progresso, este está muito aquém do necessário”. Ela destaca que as soluções estão disponíveis — desde o crescimento das energias renováveis até cortes de emissões de metano —, mas o mundo caminha com lentidão diante de uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente.
O que nos resta? Ação coletiva e reconstrução de sentidos
Apesar do cenário sombrio, os últimos dez anos mostram que a ação política coordenada ainda é capaz de gerar mudanças significativas. Antes do Acordo de Paris, as projeções de aquecimento até 2100 chegavam a 3,5 °C. O uso crescente de energia solar e eólica, e o abandono parcial do carvão por alguns países, impediram uma deterioração ainda maior do cenário.
Mas isso é insuficiente. Para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C, as emissões teriam de cair 55% até 2035 — uma meta que exigiria cortes radicais e imediatos, sobretudo nos países ricos. Além disso, seria necessário um aumento sem precedentes no apoio aos países em desenvolvimento, os mais afetados pelas mudanças climáticas, embora sejam os que menos contribuíram para o problema.
“Cada fração de grau evitada reduz a escalada de danos, perdas e impactos na saúde que afetam todas as nações — atingindo os mais pobres e vulneráveis com mais força”, adverte o relatório da ONU.
É aqui que reside o papel insubstituível da ação coletiva — desde escolhas políticas conscientes até práticas cotidianas que engajem outras pessoas. Como lembra Marina Hirota, “o ser humano funciona muito em efeito manada”. É preciso criar ondas de comportamento, conectar ciência com cultura, e colocar a crise climática não como um tema de especialistas, mas como questão de sobrevivência comum.
Entre o negacionismo e a esperança
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada civilizatória. A crise climática não é apenas um problema ambiental: é o reflexo de um modelo de desenvolvimento que fracassou em conciliar progresso e sustentabilidade, lucro e bem-estar, poder e responsabilidade. O negacionismo — explícito ou disfarçado de omissão — revela mais do que ignorância: mostra um esvaziamento ético das instituições e uma desconexão profunda entre governantes e governados.
Ainda assim, resta um caminho: o da consciência crítica, da articulação política, da educação ambiental e da pressão pública. Afinal, como dizia o filósofo Antonio Gramsci, “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. Entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade, o desafio é manter acesa a centelha de transformação.
Porque o planeta, este, já está queimando.
Da Eco92 à COP30: a trajetória de enfrentamento à mudança do clima
Deixe um comentário