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Ecologia

Calor extremo causado por desmatamento mata mais de 28 mil por ano

Aumento de temperatura causado pela perda de florestas está diretamente ligado à mortalidade

Publicado em 11/09/2025 12:41 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Mais de 28 mil pessoas morrem todos os anos devido ao aumento do calor provocado pelo desmatamento de florestas tropicais, segundo estudo inédito publicado na revista científica Nature Climate Change. O número, que representa mortes não acidentais, é atribuído diretamente ao aquecimento gerado pela perda de cobertura florestal nas regiões tropicais da Ásia, África e Américas entre 2001 e 2020.

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A pesquisa, liderada pelo Instituto de Ciência do Clima e Atmosfera da Universidade de Leeds (Reino Unido), com colaboração da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Kwame Nkrumah de Ciência e Tecnologia (Gana), lança luz sobre uma realidade frequentemente negligenciada: o desmatamento tropical não é apenas uma ameaça ambiental — é uma crise de saúde pública global.

Foram avaliadas, em escala pantropical, as consequências diretas do desmatamento sobre a temperatura local e a saúde das populações expostas. O estudo estimou que cerca de 345 milhões de pessoas foram afetadas pelo aquecimento local induzido pela perda de florestas no período analisado. A média de aumento de temperatura durante o dia foi de 0,27 °C, número aparentemente modesto, mas com efeitos expressivos sobre a saúde humana, especialmente nos trópicos.

Nas regiões onde houve maior desmatamento, os aumentos de temperatura chegaram a +0,70 °C, enquanto áreas com cobertura florestal preservada aqueceram em média +0,20 °C. O dado mais alarmante: 60% das áreas que mais aqueceram (acima de quatro desvios padrão da média) foram desmatadas, evidenciando a ligação direta entre perda de floresta e agravamento do calor extremo.

Calor que mata

A consequência mais grave apontada pelo estudo é a estimativa de 28.330 mortes anuais por calor excessivo diretamente associado ao desmatamento. A margem de erro é de aproximadamente 5 mil mortes (intervalo entre 23.610 e 33.560), mas os pesquisadores alertam que quase todas são evitáveis. E o impacto não é uniforme.

– O Sudeste Asiático é a região mais afetada, com 15.680 mortes por ano, puxadas principalmente pela vulnerabilidade térmica da população indonésia.

– Na África tropical, o número de mortes é de 9.890 por ano, mesmo com maior exposição populacional, devido a uma menor sensibilidade térmica.

– Já nas Américas Central e do Sul, onde há forte aquecimento, mas menor densidade populacional, as mortes anuais somam 2.520.

“A redução do desmatamento também é uma questão de saúde pública, pois evitamos mortes por calor e garantimos condições climáticas mais favoráveis para populações em situação de vulnerabilidade que dependem diretamente desses ecossistemas”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz Piauí, Beatriz Oliveira, coautora do estudo.

A dupla face da desigualdade térmica

A exposição ao calor extremo tem efeitos documentados na literatura médica: elevação da incidência de doenças cardiovasculares, redução da capacidade cognitiva e produtiva e aumento da mortalidade por causas diversas. Entre 2003 e 2018, o estudo estimou que 2,8 milhões de trabalhadores tropicais foram submetidos a níveis de calor que ultrapassam os limites seguros para o trabalho ao ar livre.

Esses impactos são ainda mais severos em países de baixa renda, onde há escasso acesso a tecnologias adaptativas, como ar-condicionado, e sistemas de saúde frágeis. Milhões vivem em situação de dupla vulnerabilidade: à exposição direta ao calor e à ausência de suporte estatal mínimo para mitigar os efeitos.

Esse cenário agrava uma realidade que já está em deterioração. Em julho de 2025, a temperatura média global foi de 16,68°C, colocando o mês como o terceiro mais quente da história, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da União Europeia. A diferença de temperatura em relação ao período pré-industrial (1850–1900) já atinge +1,25°C.

“O fim da sequência de recordes de temperatura global não significa que as mudanças climáticas pararam. Continuamos a testemunhar os efeitos de um mundo em aquecimento”, alertou Carlo Buontempo, diretor do Copernicus, em comunicado oficial no dia 7 de agosto. Ele ressaltou que a queima de combustíveis fósseis continua sendo o principal motor do aquecimento global.

Floresta ou fatalidade

A pesquisa reafirma o papel vital das florestas tropicais na regulação térmica e na preservação da vida humana. A perda de cerca de 1,6 milhão de km² de cobertura florestal entre 2001 e 2020 não é apenas um número — é a materialização de um processo que transforma ecossistemas inteiros em fontes de calor e morte.

– 760 mil km² foram perdidos nas Américas Central e do Sul;

– 490 mil km² no Sudeste Asiático;

– 340 mil km² na África tropical.

Essa perda ambiental tem consequências urbanas, rurais, econômicas e sanitárias. O desmatamento deixa de ser apenas uma questão de biodiversidade ou carbono para se tornar uma urgência humanitária, especialmente no Sul Global.

Ao fim, o estudo não traz apenas um diagnóstico — é um alerta: conter o desmatamento é evitar mortes. E esse é um dado que não deveria ser negligenciado por formuladores de políticas públicas, ativistas, economistas ou gestores ambientais.

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