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Cultura e Entretenimento

Oscar para Ainda Estou Aqui reforça compromisso com a democracia

Premiação pode destravar 18 ações no Supremo, enquanto bolsonaristas reagem com fúria nas redes

Publicado em 03/03/2025 10:11 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Na noite do Oscar 2025, a consagração do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, como Melhor Filme Internacional transcendeu a esfera artística. A premiação foi um ato político, uma reafirmação da importância da memória, da resistência e do compromisso com a democracia. O longa-metragem, que narra a trajetória de Eunice Paiva – viúva do deputado cassado e assassinado pela ditadura civil-militar brasileira, Rubens Paiva –, colocou o Brasil no centro de um debate global sobre autoritarismo, impunidade e justiça histórica.

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A premiação ocorre em um momento delicado. O mundo assiste ao avanço da extrema direita e ao crescimento de movimentos autoritários que, ao mesmo tempo em que negam crimes do passado, promovem novas investidas contra direitos fundamentais e instituições democráticas. Nos Estados Unidos, onde o Oscar tem forte peso cultural, a ameaça à democracia tornou-se um tema urgente após os ataques ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, incentivados pelo ex-presidente Donald Trump. No Brasil, a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 expôs o quanto as raízes da ditadura militar ainda sustentam setores da política e das Forças Armadas.

A estatueta recebida por Walter Salles não apenas consagrou um filme de impacto, mas reforçou a necessidade de enfrentar os legados do autoritarismo – e, no caso do Brasil, a impunidade dos crimes da ditadura. A força simbólica da premiação ressoa na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de revisar a Lei da Anistia, um passo que pode destravar ao menos 18 ações penais contra ex-agentes da repressão. No palco do Oscar, Hollywood enviou um recado claro: a democracia não se constrói sem memória e justiça.

O cinema e sua tradição na luta contra o autoritarismo

O cinema sempre foi um veículo poderoso na construção de narrativas políticas e sociais. Em Hollywood, essa influência é evidente desde a Segunda Guerra Mundial, quando filmes como O Grande Ditador (1940), de Charlie Chaplin, e Casablanca (1942) foram usados para mobilizar a opinião pública contra o nazismo. Mais tarde, nos anos 1970, produções como Z (1969), de Costa-Gavras, e Estado de Sítio (1972) denunciaram regimes autoritários e a colaboração de potências ocidentais com ditaduras na América Latina.

No caso dos Estados Unidos, a própria identidade nacional foi moldada pelo cinema, que consolidou o mito da “excepcionalidade americana”, a ideia de que o país teria uma missão especial no mundo, baseada em democracia e liberdade. No entanto, a história recente revelou as fragilidades dessa narrativa. A ascensão de Trump, os ataques ao Capitólio e a crescente radicalização política interna demonstram que a democracia americana não é invulnerável. Assim, ao premiar Ainda Estou Aqui, a Academia de Hollywood reafirma sua capacidade de intervir no debate público, colocando em evidência a necessidade de resistir a retrocessos democráticos.

O filme brasileiro entra nesse contexto global como uma obra de grande impacto emocional e político. Ele não apenas narra a tragédia pessoal da família Paiva, mas expõe as consequências do autoritarismo na vida cotidiana das pessoas. Em um mundo onde líderes populistas manipulam a história para justificar ataques às liberdades civis, contar essa história torna-se um ato de resistência.

O impacto do filme no debate sobre a Lei da Anistia

A repercussão de Ainda Estou Aqui não ficou restrita ao cinema. No Brasil, o filme reacendeu um debate adormecido: a revisão da Lei da Anistia, imposta em 1979 para garantir a impunidade dos agentes da repressão. Entre 2012 e 2024, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou pelo menos 56 ações contra ex-militares acusados de tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores do regime. No entanto, a maioria dessas ações foi paralisada sob o argumento de que a Anistia protege os acusados.

Agora, com o STF disposto a analisar a constitucionalidade da aplicação da Anistia para crimes de desaparecimento forçado, ao menos 18 dessas ações podem ser destravadas. A decisão da Corte será crucial para definir se o Brasil continuará na contramão do direito internacional. Organismos como a Corte Interamericana de Direitos Humanos já condenaram o país por não punir crimes da ditadura, reforçando que violações de direitos humanos são imprescritíveis.

A decisão do ministro Flávio Dino de dar repercussão geral ao caso de desaparecimento de militantes da Guerrilha do Araguaia, citando diretamente Ainda Estou Aqui, mostra como a cultura pode influenciar processos jurídicos e políticos. “A história do desaparecimento de Rubens Paiva sublinha a dor imprescritível de milhares de pais, mães, irmãos, filhos, sobrinhos, netos, que nunca tiveram atendidos seus direitos quanto aos familiares desaparecidos”, afirmou Dino.

Caso o STF decida contra a Anistia nesses casos, o Brasil pode finalmente começar a fazer justiça aos desaparecidos políticos, seguindo o exemplo da Argentina e do Chile, que já julgaram e condenaram torturadores de seus regimes militares.

A reação da extrema direita e a batalha pela memória

O impacto de Ainda Estou Aqui foi sentido também nas redes sociais, onde setores da extrema direita reagiram com fúria à premiação. Acusações infundadas sobre uma suposta “compra” do Oscar pelo governo brasileiro e ataques pessoais a Walter Salles e Fernanda Torres dominaram parte do debate online. A indignação desses grupos não surpreende: o filme representa uma afronta direta à tentativa de reescrever a história e relativizar os crimes da ditadura.

A reação negativa ao filme reforça a importância de sua mensagem. No Brasil, o revisionismo histórico se tornou uma ferramenta política, usada para justificar o golpe de 1964 e minimizar seus crimes. A glorificação de torturadores, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, citado como “herói” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, demonstra o quanto o país ainda convive com os resquícios do regime militar. Como bem apontou a historiadora Lilia Schwarcz, “o Brasil é um dos poucos países da América Latina que não julgou e puniu seus torturadores. Isso tem consequências diretas na nossa democracia.”

O filme, ao alcançar um público diverso, conseguiu furar a bolha ideológica e dialogar com espectadores que talvez não tivessem interesse ou conhecimento prévio sobre o período da ditadura. Ao humanizar a história, centrando-se no drama familiar, Ainda Estou Aqui aproxima o espectador da realidade das vítimas da repressão. Esse é um dos motivos pelos quais a obra causou tanto incômodo entre setores reacionários: ao invés de um discurso panfletário, o filme aposta na sensibilidade e na emoção para contar uma história universal sobre perda, dor e resistência.

A memória como resistência e a necessidade de justiça

Ao receber o Oscar, Walter Salles dedicou a vitória a Eunice Paiva, destacando que, diante da ditadura, ela “não se dobrou”. A frase sintetiza a essência do filme e sua mensagem principal: a resistência à opressão é um dever coletivo. Para o Brasil, a lição é clara: enquanto a impunidade persistir, a democracia continuará em risco.

O legado de Ainda Estou Aqui pode ir além das telas. Se o STF decidir pela revisão da Anistia, o filme terá cumprido um papel crucial na reabertura de um capítulo inacabado da história brasileira. Como alertou o historiador argentino Luis Alberto Romero, “a impunidade dos crimes do passado é a semente da injustiça do presente.” No Brasil, essa impunidade permitiu que setores autoritários voltassem a ameaçar a democracia. Que a premiação sirva como um lembrete: esquecer não é uma opção. Anistiar, muito menos.

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