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Cultura e Entretenimento

O que significa a vitória de Fernanda Torres para o Brasil e o mundo

Em tempos de ataques à democracia e normalização do extremismo de direita, prêmio lança luz sobre a escuridão

Publicado em 06/01/2025 10:23 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O cinema brasileiro viveu uma noite histórica na cerimônia do Globo de Ouro de 2025. A atriz Fernanda Torres, aos 59 anos, tornou-se a primeira brasileira a vencer na categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama, pelo papel de Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles. Ao interpretar a viúva do deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura militar brasileira, Fernanda transcendeu os limites da atuação para resgatar, com visceralidade, as memórias de um período sombrio da história nacional.

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Em um discurso emocionado, Fernanda destacou o poder transformador da arte: “Esse é um filme que nos ajudou a pensar em como sobreviver em tempos como esses. Para a minha mãe, para a minha família, para os meus filhos e para todos, muito obrigada ao Golden Globes.”

A vitória ocorre em um momento emblemático, em que o Brasil e o mundo enfrentam um recrudescimento das ameaças à democracia. O filme não apenas celebra a memória de uma família, mas também evoca a importância de se manter vigilante contra as forças que flertam com o autoritarismo.

Uma história de resistência e dor

Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui narra os esforços de Eunice Paiva para criar seus cinco filhos após a prisão, tortura e execução de seu marido pelo regime militar, em 1971. Eunice, interpretada com intensidade por Fernanda Torres, emerge como uma figura de resiliência, carregando a luta pela memória e pela justiça.

“O filme é um retrato fiel do que aconteceu”, disse Marcelo Rubens Paiva, que acompanhou de perto a produção. Walter Salles, que cresceu próximo à família Paiva, dirigiu a obra com um senso de autenticidade, recriando ambientes e cenas que evocam tanto a beleza quanto a violência de uma época marcada por repressão.

O cineasta ressaltou a relevância histórica do filme: “O fato de uma menor de idade ter sido presa, aos 15 anos, mostra que a violência da ditadura não tinha limites.” A fala faz referência a Eliana Paiva, filha de Rubens e Eunice, que foi detida no DOI-Codi, o maior centro de tortura da América Latina.

O contexto histórico e os ecos no presente

O caso Rubens Paiva é um símbolo do período ditatorial brasileiro (1964-1985). Deputado cassado após o golpe de 1964, Paiva foi sequestrado por agentes do regime em 1971. As investigações revelam que foi brutalmente torturado ao som da música Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Seu corpo jamais foi encontrado. Eunice, após ser presa e torturada, dedicou sua vida à defesa dos direitos humanos, um legado que ecoa no filme e na trajetória de sua família.

O resgate dessas memórias ocorre em um momento em que discursos autoritários ganham força ao redor do mundo. A normalização de práticas que minam instituições democráticas e reescrevem narrativas históricas é um alerta para sociedades que ainda lutam contra o negacionismo e a banalização da violência de Estado.

Como bem coloca o filósofo espanhol Manuel Castells, “a memória histórica não é apenas um recurso do passado, mas um instrumento para construir o futuro.” Filmes como Ainda Estou Aqui cumprem esse papel ao relembrar que a democracia é frágil e precisa ser defendida continuamente.

Arte e democracia: reflexão e ação

O impacto de Ainda Estou Aqui transcende o cinema. Ao revisitar as marcas da ditadura, o filme convida à reflexão sobre os desafios da democracia contemporânea. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a psicóloga Vera Paiva, filha de Eunice, sintetizou o sentimento ao assistir à produção: “Senti um misto de emoções: tristeza, indignação, revolta… Mas, principalmente, saudade! Espero que o filme fortaleça a democracia, que se constrói todo dia e a cada geração.”

Além de vencer o Globo de Ouro, o longa recebeu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza e figura como um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Para os roteiristas Murilo Hauser e Heitor Lorega, a narrativa foi pensada para evidenciar a força de Eunice como a verdadeira heroína da história.

Um legado para o futuro

Na atualidade, o Brasil revisita questões sobre sua história e identidade. A reconstrução democrática, após os ataques às instituições nos últimos anos, depende da coragem de contar histórias como a de Eunice e Rubens Paiva. Como afirmou o historiador Tony Judt, “esquecer o passado é condenar-se a repetir seus erros.”

Ainda Estou Aqui não é apenas um filme sobre a dor da perda e a violência de um regime autoritário. É uma celebração da resistência, do amor e da memória como forças para sustentar a democracia. Em tempos de polarização, essa obra nos lembra que a cultura tem o poder de transformar sociedades e manter vivas as lições da história.

A vitória de Fernanda Torres é um marco para o cinema brasileiro, mas também um chamado para que o Brasil nunca se esqueça do que foi a ditadura e do preço pago por aqueles que resistiram. Mais do que nunca, precisamos estar atentos e fortes. Como canta Chico Buarque, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”

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