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Cultura e Entretenimento
Brasileiro retratou a dignidade humana nas maiores tragédias do planeta
Publicado em 23/05/2025 12:04 - Semana On
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Morreu nesta sexta-feira (data a ser confirmada), aos 81 anos, em Paris, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, um dos nomes mais influentes da fotografia mundial. A informação foi confirmada pelo Instituto Terra, organização ambiental fundada por ele e por sua companheira de vida, Lélia Deluiz Wanick Salgado. A causa da morte não foi divulgada, mas o fotógrafo enfrentava problemas de saúde relacionados a uma malária contraída nos anos 1990.
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Salgado não foi apenas um fotógrafo de renome internacional. Foi um contador de histórias visuais de grande potência ética e poética, capaz de tornar visível a dignidade em meio à devastação, a solidariedade em meio à guerra e a resiliência humana diante da injustiça estrutural. Suas lentes – quase sempre em preto e branco – capturaram o mundo não com frieza documental, mas com um olhar profundamente humanista.
“O preto e branco me permite concentrar na personalidade das pessoas, na dignidade, então eu transformo a realidade em uma realidade mais forte ainda”, explicou Salgado certa vez.
Seu acervo, guardado em um estúdio próximo à Praça da Bastilha, em Paris, ultrapassa as 500 mil imagens. A exposição mais recente, “Amazônia”, segue em cartaz no centro cultural Les Franciscaines, em Deauville, norte da França, até 1º de junho de 2025 — fruto de uma parceria com a Maison Européenne de la Photographie, que preserva mais de 400 obras suas.
Da economia à fotografia: um percurso de exílio e revelação
Nascido em Aimorés, Minas Gerais, Sebastião Salgado foi o único homem entre nove irmãs. Formado em Economia, com pós-graduação pela USP e doutorado em Paris, teve seu destino alterado pela repressão da ditadura militar, que o obrigou ao exílio em 1969. Trabalhando para a Organização Internacional do Café, percorreu a África e descobriu na câmera uma ferramenta mais potente que os relatórios para traduzir desigualdades estruturais.
Sua carreira como fotógrafo começou em 1973, após o retorno a Paris, e logo se destacou por reportagens sobre a seca no Sahel, os deslocamentos forçados e o trabalho migrante na Europa. A filiação à cooperativa Magnum, em 1979, abriu as portas para seus projetos de longa duração, como Autres Amériques (1986), dedicado aos camponeses latino-americanos, e Sahel: L’homme en détresse (1986), fruto de 15 meses de documentação com os Médicos Sem Fronteiras em regiões assoladas pela fome e conflito.
Entre 1987 e 1992, Salgado criou Workers, uma série monumental que retrata trabalhadores em escala global. O projeto é considerado um dos maiores registros fotográficos sobre o trabalho humano já realizados.
Estética da dignidade
A marca de Salgado está na fusão entre forma e conteúdo. Seus retratos em preto e branco rejeitam o sensacionalismo da dor e optam pela complexidade do humano. Influenciado por pensadores como Roland Barthes e Susan Sontag, Salgado fez da fotografia um ato ético.
“Não se pode fotografar o outro sem se comprometer com ele”, dizia Salgado.
O documentário, codirigido por Wim Wenders e seu filho Juliano Salgado, foi ovacionado em Cannes e indicado ao Oscar, traduzindo em imagens em movimento a mesma densidade de sua obra fotográfica.
O ambientalista
Na virada dos anos 2000, exausto após anos documentando crises humanitárias, Sebastião Salgado voltou à sua cidade natal com um novo propósito: reflorestar. Ao lado de Lélia, fundou o Instituto Terra, que desde então recuperou mais de 600 hectares de Mata Atlântica em Minas Gerais e formou milhares de jovens em educação ambiental.
Para ele, o gesto de restaurar a natureza era também uma forma de restaurar a si mesmo: “Semeamos árvores, sim, mas também semeamos esperança”, disse em diversas ocasiões públicas. Seu legado ambiental é hoje referência mundial em recuperação de ecossistemas degradados.
O adeus sereno
Em entrevista ao The Guardian em fevereiro de 2024, ao completar 80 anos, Salgado falou com serenidade sobre o fim da vida:
“Você atinge uma liberdade inimaginável. O que vier pela frente é lucro. […] Estou mais próximo da morte, mas não me assombra.”
Deixa a esposa, Lélia, com quem partilhou todas as etapas de sua vida e obra, e o filho Rodrigo. Deixa também um Brasil que lhe deve reconhecimento não só por sua arte, mas por sua ética, por seu ativismo ambiental e por ter sido uma das vozes mais coerentes em tempos de tanto ruído.
Sebastião Salgado nos ensinou que fotografar é, antes de tudo, um ato de escuta.
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