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Comportamento
Dos conflitos internacionais às periferias brasileiras, a violência também molda vidas antes mesmo do nascimento
Publicado em 30/03/2025 12:11 - Semana On
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Uma guerra pode durar meses, anos. Mas os seus efeitos, mostram estudos recentes, atravessam o tempo e permanecem inscritos no corpo, na mente — e agora, como se revela, até no código genético de quem sequer esteve presente no front. Uma pesquisa publicada pela revista Scientific Reports, liderada por cientistas da Universidade da Flórida, confirmou que netos de mulheres grávidas durante o massacre de Hama, na Síria, em 1982, carregam marcas genéticas do estresse vivido por suas avós.
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O estudo lança nova luz sobre os impactos de longo prazo da violência e desafia os tomadores de decisão a enxergarem os conflitos não como eventos pontuais, mas como forças históricas com poder de moldar gerações. A constatação, embora nascida do contexto sírio, ressoa fortemente no Brasil, país onde a violência armada e estatal também deixa um rastro intergeracional.
Genética do trauma: o que diz a ciência
A pesquisa observou 138 indivíduos de 48 famílias sírias refugiadas na Jordânia. Dentre eles, estavam descendentes de mulheres que sobreviveram ao massacre de Hama, quando entre 10 mil e 25 mil civis foram mortos pelas forças do então presidente Hafez al-Assad. Mesmo netos desses sobreviventes — que jamais vivenciaram pessoalmente o conflito — apresentaram 14 áreas do genoma alteradas, reflexo epigenético do estresse extremo vivido por suas avós durante a gravidez.
Essas modificações não alteram o DNA em si, mas adicionam marcadores químicos que afetam a forma como os genes se expressam. É o que se conhece como epigenética, campo que estuda como o ambiente e as experiências de vida moldam o funcionamento dos genes.
Segundo Connie Mulligan, geneticista e antropóloga da Universidade da Flórida e autora principal do estudo, “a ideia de que o trauma e a violência podem ter repercussões nas gerações futuras deveria promover mais empatia e motivar os tomadores de decisões a prestarem mais atenção ao problema da violência” (Universidade da Flórida, 2024). Ao lado da bióloga Rana Dajani e da antropóloga Catherine Panter-Brick, Mulligan também identificou sinais de envelhecimento epigenético precoce em indivíduos que foram expostos ao estresse ainda no útero — uma condição associada a doenças como hipertensão, diabetes e Alzheimer.
#Epigenetic changes linked to #Violence may pass through generations, as seen in Syrian families. This genetic imprint suggests trauma’s lasting impact, echoing findings in animal studies. @SciReports https://t.co/YUMh1WNOIJ
— Medical Xpress (@medical_xpress) February 27, 2025
Do Oriente Médio às favelas brasileiras
O estudo sírio oferece um potente paralelo com o cenário brasileiro, onde milhares de crianças crescem em contextos marcados por violência estrutural, policial e doméstica. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023), uma pessoa negra é morta a cada 10 minutos no Brasil, e os jovens são as maiores vítimas — 75% dos assassinados têm entre 15 e 29 anos.
Mas não se trata apenas de mortes: o ambiente de medo crônico, o trauma da perda, a convivência com a brutalidade das abordagens policiais ou com a presença constante de milícias e facções criminosas criam um clima tóxico que afeta o desenvolvimento físico e mental desde os primeiros anos de vida. Pesquisas do Instituto de Psicologia da USP já apontaram que crianças expostas à violência urbana apresentam alterações hormonais, dificuldades cognitivas e sintomas de estresse pós-traumático — fenômenos que, à luz do estudo sírio, podem deixar marcas inclusive nas gerações seguintes.
A filósofa e psicanalista Suely Rolnik, ao tratar da transmissão do trauma colonial e da violência sistêmica, afirma: “Há feridas que se abrem e se reabrem em cada corpo que é violado, mas que também se inscrevem como códigos de um sofrimento histórico não simbolizado” (Micropolítica e poder, 2018). A epigenética oferece agora uma chave científica para decodificar esse sofrimento.
Políticas públicas precisam olhar além do imediato
Se a ciência comprova que a violência se transmite geneticamente, a resposta pública precisa ser tão estrutural quanto o problema. Não basta contenção policial ou investimentos pontuais em segurança: é preciso reconhecer a violência como um fenômeno histórico, estrutural e intergeracional.
Esse reconhecimento deve pautar políticas que contemplem reparação, acolhimento e justiça. Como sugerem as autoras do estudo sírio, os governos precisam ser capazes de enxergar a infância não apenas como um estágio da vida, mas como o alicerce sobre o qual se constrói — ou se destrói — o futuro de uma nação.
No Brasil, essa mudança de chave implica rever o modelo de segurança pública, repensar o encarceramento em massa, e investir de forma realista em educação, saúde mental, cultura e renda básica. Exige, sobretudo, um compromisso com a dignidade humana — princípio inscrito na Constituição, mas tantas vezes esquecido nos becos da cidade.
Um legado que pode ser interrompido
A violência é, como já dizia Hannah Arendt, “impotente quando enfrenta o poder autêntico, que nasce da união e do consenso” (Sobre a violência, 1970). Mas ela é eficiente em minar futuros, sequestrar infâncias e perpetuar desigualdades. O estudo sobre os netos das sobreviventes de Hama é um alerta: o trauma não morre com as vítimas. Ele se espalha como uma sombra genética, atravessando gerações. E essa sombra também paira sobre o Brasil.
Transformar essa realidade exige mais do que repressão ou discursos moralistas. Exige ciência, sensibilidade e políticas comprometidas com a vida — inclusive a vida futura.
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