22/02/2024 - Edição 525

Comportamento

Pânico é muito maior do que risco de ataque a uma escola, diz pesquisador

Medo empodera grupos de potenciais agressores

Publicado em 13/04/2023 11:37 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Pixabay

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O pânico que tomou as redes sociais e os aplicativos de mensagens de estudantes e famílias após os recentes ataques a escolas faz com que os potenciais agressores pareçam numerosos, coisa que não são. Ou seja, a boataria está amplificando – e muito – o problema e gerando sensação de insegurança.

Essa é a avaliação feita à coluna pelo coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado. Segundo ele, que acompanha as contas nas redes sociais usadas para celebrar e fomentar ataques, o seu tamanho é muito pequeno. Mas contam com o pânico e os boatos para ganhar reputação.

“Identificamos poucas centenas de contas em redes como Twitter, TikTok e Discord. E mesmo a imensa maioria são adolescentes que estão lá por curiosidade e nunca farão nada”, afirma.

A coluna conversou com uma fonte no governo federal que apontou que boa parte dos jovens que fazem parte desses grupos tem recebido visitas de policiais após avaliação de que representavam algum grau de risco. Foram avisados, bem como seus pais ou responsáveis, de que estavam sendo monitorados. Isso ajudou a devolvê-los ao “mundo real”.

Pablo Ortellado aponta que o Brasil tem menos de 190 mil escolas, entre o ensino básico e o superior. E mesmo com os recentes ataques, registrou pouco mais de 20 casos com vítimas nos últimos 20 anos.

E faz um alerta: “a chance de algo assim coincidir com a escola dos seus filhos é extremamente remota, 1 em 10 mil. Menor do que um bilhete da Loteria Federal.” A chance de receber qualquer prêmio em um sorteio da Loteria Federal é de 1 em 4,78.

Postura de pânico empodera grupos de potenciais agressores

Em sua avaliação, pode ser que aconteçam outros ataques, ainda na esteira do contágio (ver abaixo), mas não na intensidade que o medo faz crer. Avalia que parte das supostas ameaças vem de molecagem irresponsável de jovens que querem pregar peças ou que desejam cancelar aulas.

Mas aponta três responsabilidades imediatas para prevenir novos incidentes e reduzir a onda de pânico.

A primeira, da imprensa. “A maior parte adotou o protocolo de não mostrar imagens, nem revelar identidades. Porque o que eles querem é fama. Ficam celebrando massacres e desejam se inscrever nessa história”, diz.

Segundo, das empresas de tecnologia. “Algumas estão tentando aplicar mudanças, como o TikTok, enquanto outras têm comportamento de moleque, como o Twitter.” Em reunião das plataformas com o ministro da Justiça, Flávio Dino, a empresa de Elon Musk causou indignação ao se negar a tirar publicações que fazem apologia à violência nas escolas.

E, por fim, nós mesmos. “A nossa postura de pânico empodera esses poucos meninos, mostrando que eles podem incomodar a sociedade”. Mudar a postura inclui não repassar conteúdos com ameaças que não foram checadas e consideradas sérias por autoridades, gerando desinformação e medo.

Ataque a escola em São Paulo abriu sequência

Ataques aumentaram a sensação de insegurança em escolas e adubaram o terreno para supostas ameaças que levam pânico à comunidade. Vale ressaltar que os ataques bem-sucedidos não avisaram através de mensagens enviadas à lista da escola que eles aconteceriam, pois precisavam do efeito surpresa. Quem viraliza aviso quer criar pânico.

Após um jovem de 13 anos matar uma professora na escola estadual Thomazia Montoro, na capital paulista, no dia 27 de março, outros casos envolvendo facas e similares ocorreram em outros locais do país mostrando um efeito contágio. Mas o número de escolas atingidas é muito pequeno se comparado ao universo das instituições de ensino. O medo é muito maior que o risco.

Na terça (11), um aluno também de 13 anos esfaqueou três colegas em uma escola em Santa Tereza de Goiás (GO). Os jovens não correm risco e o rapaz foi apreendido. No dia 28 de março, um estudante de 15 anos tentou atacar colegas com uma faca na escola municipal Manoel Cícero, na Gávea, Zona Sul do Rio. Ele foi contido por funcionários e ninguém se feriu, além do próprio agressor.

No caso mais grave, um homem invadiu a creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC), matando quatro crianças de 4 a 7 anos com uma machadinha, em 5 de abril. No mesmo dia, um aluno de 12 anos foi levado à delegacia após ser flagrado com um canivete e uma máscara de palhaço na escola Primo Pascoli Melaré, no Jardim Peri, Zona Norte de São Paulo.

Um aluno de 12 anos do Colégio Adventista do Amazonas, em Manaus (AM), atacou colegas com facas e um coquetel molotov na segunda (10). Ele machucou duas estudantes e uma professora de forma superficial. Na mesma segunda, um adolescente de 14 anos entrou mascarado em uma escola, em Perus, zona norte de São Paulo, com facas e uma arma falsa. Ele é estudante do local e foi detido pelos professores antes de alguém se ferir.

Também nesta segunda, quatro adolescentes de 12 a 14 anos com facas e canivetes foram apreendidos pela Polícia Militar na escola municipal Wilson Hedy Molinari em Poços de Caldas (MG). Os jovens deram a justificativa que queriam se defender exatamente de um “massacre” que estaria sendo divulgado pelas redes.


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