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Comportamento

Pacto propõe adiar uso de celular até os 14 anos de idade

Campanha quer retardar o acesso de crianças a smartphones e redes sociais

Publicado em 09/05/2025 1:50 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em resposta à crescente preocupação com os impactos do uso precoce de tecnologias digitais por crianças, um grupo de pais lançou na quarta-feira (7) o Movimento Desconecta, uma iniciativa que propõe um pacto coletivo para retardar a entrega do primeiro smartphone até os 14 anos e restringir o acesso às redes sociais até os 16. A proposta visa enfrentar, de forma comunitária, a pressão social que cerca o uso de tecnologias pelas novas gerações — e proteger o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da infância e da adolescência.

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O movimento nasceu em abril de 2024 dentro da Beacon School, escola particular localizada no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Um grupo de pais e mães, inquietos com os efeitos das telas sobre seus filhos, decidiu transformar a angústia individual em ação coletiva. “Por um lado, estudos e especialistas recomendam que o acesso só aconteça na adolescência. De outro lado, há uma pressão social para a inserção no mundo digital. Os pais ficam em um beco sem saída. Mas, se houver um combinado com todo mundo, a decisão fica mais fácil de ser tomada e cumprida”, afirma Mariana Uchoa, designer gráfica, mãe de três filhos e uma das fundadoras da iniciativa.

O pacto, que pode ser assinado digitalmente por qualquer família no site do Movimento Desconecta, defende que a mudança só será efetiva se for sustentada por uma rede de apoio entre pais. A proposta se baseia em uma série de evidências científicas e em iniciativas semelhantes bem-sucedidas no exterior.

A base científica por trás do alerta

As preocupações do grupo encontram respaldo em uma ampla gama de estudos internacionais. O relatório da Unesco de 2023 sobre tecnologia na educação aponta que o uso excessivo de celulares afeta negativamente a concentração, o desempenho escolar e as interações sociais. Mais grave ainda são os alertas sobre saúde mental: uma revisão de estudos publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) em 2022 identificou uma associação direta entre uso intensivo de redes sociais e aumento de casos de ansiedade, depressão, automutilação e ideação suicida entre adolescentes.

O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York e autor do livro The Anxious Generation (A Geração Ansiosa, em tradução livre), tornou-se uma das vozes mais influentes nesse debate. Haidt defende que a introdução de smartphones e redes sociais antes da adolescência causou uma “grande reestruturação da infância”, resultando em uma epidemia global de problemas de saúde mental entre os jovens. Segundo ele, “as redes sociais transformaram o ambiente do desenvolvimento infantil de uma forma abrupta e sem precedentes, sem que pais, escolas ou governos estivessem preparados”.

No Brasil, a situação é igualmente alarmante. Um levantamento da Folha de S.Paulo revelou que, pela primeira vez, os índices de ansiedade entre crianças e adolescentes superaram os dos adultos, revelando o tamanho da crise silenciosa que se intensifica nas escolas e nas casas.

Um movimento global ganha força

O Movimento Desconecta ecoa iniciativas já consolidadas em outros países. Nos Estados Unidos, o coletivo Wait Until 8th (“Espere até o 8º ano”) reúne mais de 50 mil famílias que se comprometem a não entregar um smartphone aos filhos antes dos 14 anos. No Reino Unido, a organização Smartphone Free Childhood (“Infância Livre de Celular”) já ultrapassou 60 mil adesões.

Ambas as campanhas baseiam-se na mesma lógica: romper o isolamento das decisões parentais. Para muitos pais, o maior obstáculo não é a falta de informação, mas a sensação de que, ao resistir ao uso precoce das tecnologias, estão prejudicando a integração social dos filhos. Ao promover pactos coletivos, esses movimentos oferecem escudo social e psicológico para decisões que, sozinhas, seriam difíceis de sustentar.

Conectividade consciente

O desafio, segundo os organizadores, não é demonizar a tecnologia, mas reivindicar um tempo saudável para a infância se desenvolver fora das telas. O pacto não se opõe ao uso da internet em ambientes supervisionados e educativos, mas critica o acesso irrestrito e precoce a dispositivos que abrem portas para conteúdos inadequados, hiperestimulação e dependência digital.

O Movimento Desconecta propõe, assim, não um retrocesso, mas uma pausa estratégica — um tempo para que a infância recupere seu espaço, com mais convivência, brincadeiras e menos algoritmos.

Para os pais interessados, o documento de adesão está disponível no site oficial do movimento, onde também há materiais informativos, depoimentos e links para estudos científicos que sustentam a proposta.

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