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Comportamento

Conectados, mas desiguais

O avanço da internet expõe contradições históricas e contemporâneas: enquanto especialistas alertam para os riscos à infância e juventude no ambiente digital

Publicado em 11/01/2025 10:29 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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A presença massiva da internet no cotidiano dos brasileiros molda comportamentos, transforma relações sociais e desafia políticas públicas. Dados recentes do Censo Demográfico 2022 mostram que nove em cada dez brasileiros têm acesso à internet em casa, mas essa realidade esconde desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas. Enquanto isso, a infância e juventude enfrentam os impactos do uso inadequado da tecnologia, como revelam as alarmantes estatísticas do estudo TIC Kids Online Brasil (2024), que apontam 24,5 milhões de crianças e adolescentes conectados, muitas vezes sem supervisão ou preparo adequado.

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O Brasil experimentou um salto na conectividade domiciliar nas últimas décadas. Em 2010, apenas 31,3% da população tinha acesso à internet em casa, sendo a maioria via microcomputadores. Em 2022, essa taxa chegou a 89,4%, impulsionada pela popularização dos smartphones. No entanto, essa evolução não ocorreu de forma homogênea.

As regiões Norte e Nordeste permanecem como pontos críticos de exclusão digital. No Acre, por exemplo, apenas 75,2% das famílias têm acesso à internet, enquanto o Distrito Federal lidera com 96,2%. Entre os povos indígenas, o índice de exclusão é alarmante: 44,5% não têm conexão domiciliar, um retrato da marginalização histórica dessa população.

Essa disparidade, como aponta o analista do IBGE Bruno Mandelli, reflete as condições precárias de habitação e infraestrutura. Essa precariedade não é meramente circunstancial; ela é herança de um modelo de desenvolvimento excludente, que historicamente marginalizou regiões inteiras e grupos sociais. Como pontuou o sociólogo Gilberto Freyre, “a formação da sociedade brasileira é marcada por profundas desigualdades estruturais que moldam todas as esferas da vida, inclusive o acesso à modernidade tecnológica”.

Infância Conectada: Entre a Oportunidade e o Risco

O ambiente digital pode ser uma ferramenta transformadora para a educação e o desenvolvimento infantil. No entanto, sua má utilização é fonte crescente de preocupação. Segundo a TIC Kids Online Brasil, 93% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos no Brasil estão conectados, mas apenas um terço dos pais ou responsáveis utiliza ferramentas de controle parental. Essa lacuna de supervisão abre caminho para problemas como cyberbullying, manipulação mercadológica e até mesmo transtornos psicológicos.

Valdir Gugiel, diretor do Centro Marista de Defesa da Infância, alerta que o letramento digital deve ser prioridade: “Assim como ensinamos nossas crianças a não falar com estranhos, é essencial educá-las sobre os perigos e dinâmicas da internet. O uso inadequado pode gerar impactos físicos e mentais profundos”.

Um dado preocupante do estudo mostra que 29% dos jovens relataram terem enfrentado situações ofensivas online, como insultos ou assédio. Dessas, 13% não compartilharam a experiência com ninguém, evidenciando o isolamento que o ambiente digital pode provocar.

A gerente do Centro Marista, Bárbara Pimpão, destaca que casos de ofensas virtuais podem evoluir para cyberbullying, cujas consequências incluem baixa autoestima, depressão e insônia. “Precisamos ir além do monitoramento; é necessário promover um diálogo contínuo sobre ética, segurança e autocuidado no ambiente digital”, ressalta.

Proibição em escolas: solução ou simbolismo?

A recente aprovação de um projeto de lei na Assembleia Legislativa de São Paulo, que proíbe o uso de dispositivos eletrônicos em escolas públicas e privadas a partir de 2025, suscita reflexões importantes. A medida visa combater os efeitos nocivos da exposição excessiva às telas, mas também levanta questões sobre como equilibrar restrição e inclusão tecnológica.

Em países como a Finlândia, referência global em educação, o uso de tecnologia em sala de aula é integrado de forma crítica e estratégica, preparando os alunos tanto para a vida digital quanto para a reflexão ética sobre ela. No Brasil, porém, a proibição corre o risco de ser um paliativo, ignorando a necessidade de investir em infraestrutura, formação de professores e inclusão digital.

A educação como eixo central

O debate sobre tecnologia e desigualdade digital deve, acima de tudo, centrar-se na educação. O filósofo alemão Jürgen Habermas já advertiu sobre os riscos de uma sociedade onde a tecnologia avança sem um arcabouço ético: “A fragmentação das esferas públicas pode intensificar desigualdades e prejudicar a democracia”.

Para superar esses desafios, o Brasil precisa adotar políticas públicas abrangentes, que combinem acesso universal à internet com educação digital de qualidade. Isso inclui desde a ampliação da conectividade em regiões marginalizadas até programas de conscientização para pais e professores.

Um futuro conectado, mas consciente

O Brasil está diante de uma escolha crucial: abraçar a internet como ferramenta de inclusão ou permitir que ela perpetue as desigualdades estruturais. Como afirmou Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”. No contexto atual, essa educação deve ser digital, inclusiva e, acima de tudo, consciente.

O futuro digital do Brasil não será definido apenas pela expansão da conectividade, mas pela capacidade da sociedade de transformar essa conexão em um instrumento de equidade, liberdade e desenvolvimento humano.

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2 respostas para “Conectados, mas desiguais”

  1. karlla rosy farias disse:

    Gostaria de saber a autoria desse texto

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