Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Comportamento

Celulares fora da escola começam a gerar resultados pelo país

Lei que restringe uso de smartphones em sala de aula revela ganhos imediatos

Publicado em 06/06/2025 10:27 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A recente lei que proíbe o uso de celulares em escolas brasileiras já mostra seus efeitos: intervalos mais ativos, menos conflitos em sala de aula e aumento na concentração dos estudantes. No entanto, especialistas alertam: a medida, embora bem-vinda, é apenas um ponto de partida diante da crise digital que atravessa o cotidiano das juventudes e afeta diretamente sua saúde mental, desempenho escolar e vínculos sociais — revelando um abismo entre a legislação e a realidade plural das escolas no país.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Era manhã em uma escola pública de São Paulo quando Bruna Pinha e Yasmin Bispo, ambas de 17 anos, depositaram seus celulares em uma caixa identificada — um novo ritual do cotidiano escolar. Desde a sanção da Lei 15.100/2025, sancionada em 13 de janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa cena tem se repetido em milhares de instituições de ensino do país. A regra é clara: celulares estão proibidos durante todo o período escolar, salvo para atividades pedagógicas.

Se, para as duas estudantes do 3º ano, o distanciamento das telas soa incômodo no início — “é difícil não registrar o último ano de escola”, admite Yasmin —, também já é possível identificar benefícios. “No final das contas, é bom ter este momento de desintoxicação; algumas pessoas ficavam como zumbis no intervalo”, diz Bruna. Ela não exagera: de acordo com o Instituto Alana, 75% dos brasileiros acreditam que crianças e adolescentes passam tempo demais conectados às redes, e 90% avaliam que as empresas tecnológicas não fazem o suficiente para protegê-los.

Melhoras visíveis, mas insuficientes

Diretores como Marcus Loures, que coordena a escola das duas jovens, apontam melhora significativa na atenção dos alunos, na convivência e na redução de conflitos. “As leis geralmente suprem lacunas de modo coercitivo, o que não é o ideal, mas por enquanto é necessário”, pondera. Sua percepção encontra respaldo em dados: algumas escolas de São Paulo registraram até 20% de aumento nas notas em relação ao primeiro bimestre de 2024. No Rio de Janeiro, onde a proibição está em vigor desde o ano passado, uma pesquisa da Secretaria Municipal de Educação mostrou que estudantes do 9º ano tiveram 53% mais chances de alcançar o nível adequado em matemática.

Além do desempenho, houve queda nos casos de cyberbullying durante os intervalos. A explicação, segundo o psicólogo Rodrigo Nejm, especialista em educação digital, está no “design manipulativo das plataformas digitais”. “Os algoritmos são pensados para prender o usuário o máximo de tempo possível. Isso causa ansiedade, impulsividade e deterioração do autocontrole, especialmente entre os jovens”, explica.

A constatação é respaldada por estudos. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, com exames de ressonância magnética em adolescentes viciados em smartphones, revelou alterações físicas na massa cinzenta do cérebro — justamente nas áreas que controlam memória, emoção e tomada de decisão.

E no Brasil, os impactos já se tornaram epidêmicos. Dados do SUS indicam que, pela primeira vez, a taxa de ansiedade em crianças e adolescentes superou a de adultos. Entre 10 e 14 anos, são 125,8 atendimentos por 100 mil habitantes. Entre adolescentes, o número sobe para 157.

Entre a mesa de pebolim e a tela escondida

Nas escolas que adotaram medidas criativas para lidar com os intervalos sem celular, como mesas de pebolim, tênis de mesa e jogos de tabuleiro, a resposta foi positiva. Vilso Giron, diretor de uma escola estadual, descreve a mudança: “Antes, víamos um paredão de alunos, cada um no seu celular. Agora há gritaria, movimento, brincadeiras. É desesperador pensar que isso havia desaparecido”.

A psicopedagoga Ruth Nassiff relata que os alunos voltaram das férias sem saber o que fazer nos primeiros intervalos sem celular. “Sofriam com a ociosidade. Hoje estão mais ativos e engajados, embora ainda seja preciso lidar com a competitividade nas interações presenciais”. Ela alerta que o problema da dependência não se resolve apenas com proibição: “É um processo de reeducação”.

Porém, mesmo com a lei em vigor, o uso oculto persiste. “A gente vê escondido debaixo da mesa mesmo, ou vai ao banheiro”, conta Rayanne Carlani, de 14 anos. A colega Samantha de Paula admite navegar até 4h da manhã e fazer tarefas escolares com uma mão só, enquanto segura o celular na outra. “Sou ansiosa, não consigo dormir”.

Entre proibição e desigualdade

A proibição, no entanto, não afeta todos de maneira igual. Viviane Jordano, diretora de uma escola municipal na zona leste de São Paulo, compartilha uma experiência marcante: uma aluna do 9º ano desesperada por querer ligar para a mãe após presenciar mais um episódio de violência doméstica. “Ela bateu na minha porta tremendo”, recorda. O celular, nesse contexto, é ferramenta de sobrevivência — e não apenas de distração.

O pesquisador e educador Alexandre Sayad adverte para esse ponto cego da legislação: “A lei foi pressionada por setores da classe média urbana, que terceirizam à escola a gestão do problema que a própria família não sabe como lidar”. Para ele, a proibição só é benéfica se vier acompanhada de educação digital crítica. “A escola precisa ensinar o jovem a lidar com esses algoritmos viciantes. Só proibir atesta, de certa forma, a falência da escola e da família”.

Sayad identifica um cenário preocupante: descompasso entre educação formal e interesses dos jovens; entre universidade e mercado de trabalho; aumento de doenças mentais desde a pandemia; e uma crise econômica que agrava a desigualdade. “Estamos diante de uma tempestade perfeita”.

Mesmo assim, o apoio à medida é expressivo. Pesquisa da Nexus revelou que 86% dos brasileiros apoiam algum tipo de restrição ao uso de celulares nas escolas, sendo mais da metade a favor da proibição total. Entre os pais de crianças pequenas, o apoio é ainda mais elevado. Estudos como o TIC Kids Online mostram que 63% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos têm perfil no Instagram, e 45% no TikTok — plataformas que, vale lembrar, não são recomendadas para menores de 13 anos.

Até nas aldeias, o alerta está dado

O problema extrapola os grandes centros. Na Aldeia Solimões, no Pará, o professor Thiago Kumaru viu a chegada da internet por meio da Starlink transformar a rotina. “Gente que deixou de jogar bola, pescar, cuidar da roça. Ficavam a noite inteira ao redor do celular”. A solução foi simples: desligar a antena à noite e recolher os celulares na entrada da escola.

Assim como nas escolas urbanas, a redução do uso foi acompanhada de ganhos sociais e cognitivos. “Mudou até o linguajar dos jovens”, relata Kumaru. “As famílias passaram a nos apoiar porque viram a diferença.”

A nova lei de proibição de celulares nas escolas brasileiras é, portanto, mais que uma norma disciplinar: é uma tentativa de reconectar os jovens à realidade que os cerca, frear uma epidemia silenciosa de ansiedade e resgatar a função educativa da escola como espaço de encontro, troca e formação cidadã.

Mas, como apontam educadores e especialistas, não basta legislar: é preciso educar. O banimento é um ponto de partida — não de chegada. Só com políticas públicas integradas, regulação das big techs, apoio às famílias e inclusão da educação midiática no currículo será possível enfrentar de forma madura e democrática os desafios da era digital.

Jovens desconectam para reconectar com a vida real


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *