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Comportamento
Em meio à onipresença digital, cresce o número de jovens que rejeitam as redes sociais
Publicado em 30/05/2025 11:47 - Semana On
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Em um mundo onde o tempo de tela é contabilizado em horas diárias e o gesto de deslizar o dedo na tela se tornou quase automático, um número crescente de jovens começa a dizer “não” à hiperconectividade. Uma pesquisa conduzida no Reino Unido pelo British Standards Institution (BSI) revelou que 46% dos jovens entre 16 e 21 anos prefeririam viver em um mundo sem internet. E mais: quase 70% afirmaram se sentir pior após passar tempo online.
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O sentimento não é isolado. Em cidades como Amsterdã, Londres, Paris e até São Paulo, surge uma nova cena social marcada pelo desejo de reconexão — não com algoritmos, mas com pessoas reais. No centro desse movimento está o Offline Club, fundado por três jovens holandeses — Jordy, Ilya e Valentijn — que organizam encontros presenciais onde smartphones e laptops são vetados.
“Queremos trazer de volta humanidade à sociedade, atualmente isolada e fixada na tela”, afirmam os fundadores em sua conta no Instagram — uma ironia deliberada que ajuda a divulgar a proposta do grupo: redescobrir o prazer da presença física sem a mediação digital. Com quase 530 mil seguidores, o clube tem promovido eventos nos quais os participantes leem, jogam, meditam ou simplesmente conversam, em uma tentativa de reviver o que eles chamam de “tempos sem notificações”.
Apesar da aparente contradição de se promover o “offline” por meios online, o sucesso da iniciativa é inegável. Em abril deste ano, um evento em Londres reuniu mais de mil pessoas dispostas a desligar seus celulares — um recorde, segundo os organizadores, que anunciaram o feito com orgulho via Instagram.
Desconexão como desejo geracional
O fenômeno vai além de uma moda passageira. Os dados mais recentes da associação alemã Bitkom apontam que jovens entre 16 e 29 anos passam, em média, mais de três horas por dia em seus smartphones — o maior índice entre todas as faixas etárias. Mesmo assim, há sinais claros de saturação. Pesquisa da Harris Polls, nos Estados Unidos, identificou que muitos jovens gostariam que plataformas como TikTok, Instagram ou X (ex-Twitter) nunca tivessem sido inventadas.
O sentimento de sobrecarga digital é potencializado por impactos à saúde mental. Segundo a OCDE, a saúde mental dos jovens se deteriorou drasticamente nos últimos 15 anos — uma tendência agravada pela pandemia e paralela ao aumento no uso das mídias sociais. Embora não haja consenso científico sobre uma relação causal direta, estudos apontam correlações preocupantes. Um artigo publicado em 2025 na revista BMC Medicine mostrou que a redução do uso de smartphones por apenas três semanas levou a uma queda de 27% nos sintomas de depressão.
Uma resposta política ainda tímida
Governos começam a se mover, ainda que de forma cautelosa. A Austrália aumentou o limite de idade para uso de redes sociais para 16 anos no final de 2024. A Noruega quer elevar o mínimo de 13 para 15 anos. No Reino Unido, o ministro da Tecnologia, Peter Kyle, declarou ao The Guardian estar avaliando a criação de um “toque de recolher digital”, que limitaria o uso de certos aplicativos à noite. No Brasil, iniciativas locais já baniram o uso de celulares em pátios escolares.
Alguns especialistas apontam para a necessidade de medidas estruturais. O sociólogo Sherry Turkle, professora do MIT e autora de Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other (Basic Books, 2011), alerta: “Estamos perdendo a capacidade de estar sozinhos com nossos próprios pensamentos. A tecnologia está nos oferecendo a ilusão de companhia sem as exigências da amizade.” A frase, de 2011, soa ainda mais urgente em 2025.
Um movimento que ganha corpo
O apelo dos Offline Clubs e iniciativas semelhantes é claro: restaurar o controle sobre o tempo, as relações e até a saúde mental. Restaurantes e clubes pelo mundo já experimentam formatos onde celulares são deixados à porta — uma tentativa de resgatar o prazer da presença plena, tão raro na era do scroll infinito.
A geração que nasceu online agora busca formas de redefinir o que significa estar conectado. Ao desligar o celular, esses jovens não estão apenas se afastando das redes sociais — estão, de certa forma, reconfigurando o próprio tecido das relações humanas no século XXI. Uma revolução silenciosa, feita de olhares, livros abertos e conversas sem filtros.
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