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Comportamento
Eles não estão por toda parte, como a internet faz parecer
Publicado em 13/06/2025 12:55 - Semana On
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Bonecas hiper-realistas, conhecidas como bebês reborn, têm ganhado destaque nas redes sociais brasileiras nas últimas semanas. A tendência conquistou espaço entre influenciadores, virou pauta na imprensa e até apareceu no remake da novela Vale Tudo, da TV Globo. Mas a superexposição do fenômeno tem ultrapassado os limites do mundo digital e gerado repercussões preocupantes — como o caso de uma criança agredida por ter sido confundida com uma dessas réplicas.
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Na última semana, em Belo Horizonte, um homem de 36 anos deu um tapa no rosto de uma menina de 4 anos, que estava no colo da mãe em uma lanchonete. Alegando acreditar que se tratava de um bebê reborn usado para burlar a fila de atendimento, o agressor foi preso em flagrante por lesão corporal. A criança foi levada ao hospital com inchaço atrás da orelha. Dois dias depois, o homem foi solto mediante pagamento de fiança equivalente a três salários mínimos.
O episódio acendeu um alerta sobre os efeitos da exposição midiática intensa a temas polêmicos e a forma como as redes sociais distorcem a percepção da realidade. Segundo especialistas, o caso mostra como uma tendência de nicho pode ganhar dimensões artificiais e, em contextos extremos, gerar consequências reais e violentas.
Realidade inflada pelas redes
“Não é algo que se vê com frequência nas ruas”, afirma a psicóloga Cínthia Demaria, doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ela, o fenômeno dos bebês reborn é amplificado por redes sociais e veículos de imprensa que se retroalimentam. “A internet cria uma realidade com base naquilo que é compartilhado e discutido. Isso não significa que se trata de algo realmente disseminado no espaço público.”
Demaria destaca que esse tipo de tendência viral costuma envolver temas polarizadores, que geram engajamento imediato. “Quanto mais as pessoas têm opinião sobre algo, mais esse assunto se espalha. As redes operam segundo a lógica da polêmica e do palco digital”, explica. A psicóloga também ressalta que esse ambiente virtual favorece o discurso de ódio, ao criar a ilusão de impunidade. “Mas quando esse discurso extrapola para o espaço social, como no caso da agressão à criança, ele revela suas consequências.”
Além do impacto comportamental, Demaria enxerga um fundo simbólico no apelo dos bebês reborn: “São réplicas idealizadas de bebês — não choram, não dão trabalho. Há uma idealização da maternidade e da infância que, em certo sentido, objetifica o cuidado e reforça padrões sobre o papel da mulher.”
Dados e distorções
Apesar da sensação de onipresença nas redes, os dados disponíveis apontam que o fenômeno dos bebês reborn continua restrito a nichos específicos. Segundo o Google Trends, o Brasil lidera as buscas pelo termo, mas o interesse caiu rapidamente após um pico entre 18 e 24 de maio.
Globalmente, um relatório da Market Report Analytics analisou 840 mil postagens com a hashtag #rebornbaby no TikTok e constatou que apenas 2% dos conteúdos são produzidos por “pais” das réplicas. Embora o mercado dos reborns cresça cerca de 8% ao ano, ele movimenta apenas US$ 200 mil anuais, dentro de um setor de bonecas que soma US$ 24 bilhões. Ainda segundo o relatório, 60% dos compradores são adultos ou idosos, incluindo pacientes com Alzheimer, para os quais os bonecos são utilizados como ferramenta terapêutica.
Essa função foi observada de perto pelo psiquiatra Vitor Hugo Stangler, que, em sete anos de atuação clínica, teve contato com apenas uma paciente que usava um reborn — justamente no contexto de tratamento da demência. Para ele, a atual visibilidade do tema nas redes sociais não reflete a realidade: “O uso é limitado e nichado. Mas, por chamar atenção, é transformado em algo que parece estar em todo lugar. Vou com frequência a shoppings, por exemplo, e nunca vi um bebê reborn pessoalmente.”
Stangler relaciona a reação extrema do agressor em Belo Horizonte ao clima social marcado por intolerância e impulsividade. “Vivemos numa sociedade dos extremos. É tudo ou nada, amor ou ódio, direita ou esquerda. Não há espaço para o meio-termo”, avalia. Segundo ele, o uso intensivo de celulares e redes sociais atua sobre o sistema límbico do cérebro, desregulando a produção de dopamina — o que pode estar relacionado a quadros como TDAH, transtorno explosivo intermitente e até esquizofrenia.
“Agressões como essa podem ter um componente ético e moral, sim. Mas também apontam para um problema mais amplo: a dificuldade crescente em lidar com o diferente, com o que causa estranhamento”, afirma.
Apesar do barulho nas redes, os especialistas concordam: os bebês reborn não estão por toda parte, como as redes sociais fazem parecer. “Vivemos de fenômeno em fenômeno. As modas são fugazes. Daqui a três meses, provavelmente não estaremos mais falando disso, mas de outra coisa que também parecerá urgente e onipresente”, conclui Stangler.
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