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Comportamento
Pesquisas apontam que os jovens estão mais solitários e inseguros, e isso tem consequências para a política e a economia global
Publicado em 22/03/2025 11:02 - Semana On
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Nos últimos anos, a juventude ocidental experimentou uma queda acentuada em seu bem-estar emocional, contrariando a noção histórica de que a fase adulta inicial é a mais feliz da vida. De acordo com o World Happiness Report 2025, jovens da Europa Ocidental e da América do Norte agora relatam os menores níveis de felicidade entre todas as faixas etárias. Essa tendência reflete um cenário global de crises sobrepostas: mudanças climáticas, inflação, desemprego, guerras e um aumento alarmante da solidão.
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O Brasil, embora tenha subido oito posições no ranking global da felicidade, ainda enfrenta desafios. Enquanto isso, países tradicionalmente bem colocados, como os Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, caíram para suas piores posições históricas. Para os jovens americanos, em particular, a situação é ainda mais drástica: se considerados isoladamente, os Estados Unidos não figurariam sequer entre os 60 países mais felizes do mundo.
O que está por trás desse fenômeno? A resposta envolve não apenas fatores econômicos, mas também sociais e políticos, evidenciando um declínio na coesão social e no otimismo das novas gerações.
A Ascensão da Solidão e o Impacto na Felicidade
Um dos fatores que explicam essa infelicidade crescente é a solidão. Segundo o pesquisador Jan-Emmanuel De Neve, do Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford, jovens estão se desconectando socialmente. Ele destaca que o hábito de compartilhar refeições caiu drasticamente: “Os jovens de hoje têm duas vezes mais probabilidade de jantar sozinhos em comparação a duas décadas atrás. Quando olho para meus alunos, vejo que comem sozinhos, com o celular na mão. Mas nossos dados mostram claramente que as pessoas que compartilham refeições são mais felizes.”
A tendência de isolamento é reforçada pelo declínio das interações presenciais. Enquanto no passado a socialização ocorria principalmente em festas e eventos, hoje muitos jovens substituíram esses encontros por interações online e até mesmo por manifestações políticas. Em Nova York, a jovem Joana relatou que protestos se tornaram um novo espaço de encontro entre amigos. “Sempre tem gente se reunindo. O que acho positivo, pois há um forte senso de comunidade”, afirmou.
Mas há um paradoxo evidente: mesmo com novas formas de engajamento social, a juventude segue emocionalmente esgotada. Muitos jovens enfrentam dificuldades econômicas, ansiedade e desilusão política, levando a um aumento no consumo de medicamentos psiquiátricos. Nos Estados Unidos, as prescrições de antidepressivos cresceram 64% entre 2020 e 2022, segundo um estudo que analisou 221 milhões de receitas médicas.
Crises e polarização: a juventude em “modo de crise”
A sucessão de crises políticas e econômicas ao longo da última década também teve um impacto duradouro sobre os jovens. A pandemia, em especial, deixou marcas profundas. Joana resume bem essa experiência: “Minha juventude foi marcada por convulsões políticas. Eu estava no último ano da escola quando Trump foi eleito pela primeira vez. Depois veio a pandemia, e todo mundo teve que estudar de forma remota. No meu aniversário de 21 anos, nem podíamos ir a um bar, fazíamos as festas no Zoom.”
Além da Covid-19, a incerteza econômica contribui para um estado de ansiedade permanente. O desemprego entre os jovens cresceu, os custos de vida aumentaram e a precarização do trabalho impôs novos desafios. Segundo Anthony Giddens, sociólogo britânico e um dos principais estudiosos da modernidade, a sociedade contemporânea vive uma “cultura do risco”, na qual os indivíduos são constantemente pressionados a gerenciar incertezas em todas as esferas da vida.
Essa instabilidade também se reflete na política. Como aponta o World Happiness Report, pessoas infelizes têm maior probabilidade de votar em partidos antissistema. O descontentamento da juventude tem sido combustível para polarização e instabilidade política em diversos países. Da ascensão da extrema-direita na Europa ao fortalecimento de discursos populistas nos EUA e América Latina, o voto juvenil tem sido um vetor de mudanças radicais.
O que faz da Finlândia o país mais feliz do mundo?
Se a infelicidade dos jovens está crescendo, o que explica o fato de que alguns países continuam figurando no topo do ranking da felicidade? Pela oitava vez consecutiva, a Finlândia lidera a lista. Mas a própria população finlandesa se surpreende com esse título. “Sempre fico um pouco surpresa quando ouço que a Finlândia está em primeiro lugar em felicidade, porque aqui é muito escuro no inverno e as coisas são caras”, disse Lisa, uma recepcionista corporativa de Helsinque.
O segredo finlandês não está apenas em fatores subjetivos, mas sim em um modelo de sociedade que oferece segurança e bem-estar. O país possui uma forte rede de proteção social, garantindo que mesmo aqueles que vivem sozinhos tenham acesso a serviços de qualidade e suporte do Estado. Além disso, como aponta De Neve, a confiança social na Finlândia é muito superior à dos EUA: “As pessoas confiam, por exemplo, que carteiras perdidas serão devolvidas.”
Outro fator essencial é a redistribuição de riqueza. Embora os países escandinavos e os Estados Unidos possuam níveis semelhantes de riqueza per capita, os primeiros investem muito mais em seguridade social, educação e saúde pública. Enquanto nos EUA perder o emprego pode significar a perda do seguro de saúde, na Finlândia, o acesso à saúde é universal. Como resultado, a ansiedade econômica é menor, e isso impacta diretamente a felicidade.
A felicidade como prioridade política
A felicidade não é um luxo individual, mas um indicador-chave da saúde democrática e econômica de uma sociedade. “A solução é colocar a felicidade no centro da formulação de políticas públicas”, sugere De Neve. Países como Dinamarca, Finlândia, Costa Rica e México já implementam estratégias focadas no bem-estar coletivo.
Para reverter o declínio da felicidade juvenil, especialistas apontam alguns caminhos essenciais:
Investimento em políticas de proteção social: Modelos como o escandinavo mostram que segurança econômica reduz a ansiedade e melhora o bem-estar.
Combate à solidão e incentivo à vida comunitária: Promover espaços de convivência e reforçar a importância de interações presenciais pode melhorar a qualidade de vida.
Despolarização e fortalecimento da confiança na democracia: A infelicidade e o descontentamento levam à polarização política. Políticas públicas devem focar na reconstrução do laço social e na redução da desigualdade.
Mudanças na cultura do trabalho e da educação: Garantir condições dignas para os jovens no mercado de trabalho pode evitar o sentimento de desesperança.
O aumento da infelicidade entre os jovens não é um fenômeno isolado. Ele reflete uma crise estrutural que afeta a política, a economia e a coesão social. Se governos não agirem para conter essa tendência, o impacto pode ser duradouro, levando a um futuro marcado pela instabilidade e pelo desengajamento cívico. Afinal, como já alertava o filósofo John Stuart Mill, “o valor de um Estado, a longo prazo, é o valor dos indivíduos que o compõem”. Se a juventude está infeliz, o futuro de qualquer nação está em risco.
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