13/04/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Você já aceitou a salvação de Santa Muerte?

Publicado em 03/03/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Se eu tivesse que apostar qual será a religião que mais crescerá nos próximos 300 anos, minha aposta seria uma só: Santa Muerte. Já ouviu falar? Mas vai.

Normalmente representada por uma caveira coberta por um véu – uma espécie de Virgem Maria do Halloween – a Santa Muerte é um culto sincrético que mistura elementos da igreja católica com a cultura asteca. É um fenômeno recente, com menos de cinquenta anos. Mas já tem milhões de adeptos no México e nas comunidades latinas americanas.

Em determinadas regiões pobres e assoladas pela violência, Santa Muerte é mais popular que Jesus. É a santa padroeira dos miseráveis, das prostitutas, dos traficantes, dos bandidos e dos que se sentem rejeitados e ignorados pela sociedade em geral. Bandidos tatuam sua imagem. Ao mesmo tempo, suas vítimas nas grandes cidades mexicanas engrossam os números de seguidores. Você pode achar estranho, mas tenho um palpite que seu bisneto será devoto. Nem adianta fazer o sinal da cruz.

Não queremos ser educados, mas reafirmados. Buscamos líderes que digam aquilo que nos conforte, que repitam aquilo em que já acreditamos. Não importa se a verdade é outra. Nesse mundo pós-fatos, estamos todos mais que dispostos a reverenciar caveiras disfarçadas de santos.

Para entender a vantagem teológica de Santa Muerte é preciso contexto – como tudo na vida. As religiões milenares envelheceram mal. Não é para menos, elas foram idealizadas para atender os anseios de suas próprias tribos. Foi assim de Ramsés a Moisés. Não foi atoa que o império romano expansionista se agarrou no cristianismo. Qualquer um podia chegar, bastava aceitar Jesus. O islamismo viu o potencial e adotou a mesma política de recrutamento. A religião deixou de ser a identidade de um só povo para recepcionar estrangeiros procurando o paraíso depois da vida.

Mas a História é essa grande roda de hamster, e muitas nações começam a demonstrar intolerância com o estrangeiro, o excluído, o outro. As portas das grandes religiões parecem cada vez mais estreitas para quem é diferente. É aí que Santa Muerte mostra seu apelo.

Santa Muerte é a grande equalizadora. Ela não vê dinheiro, raça, orientação sexual ou passado. Para ela, todos são iguais. Ela recebe a todos e traz alívio às agruras da vida sofrida. Para seus devotos, a vida é preciosa porque é um preparativo para o encontro com a padroeira. E ela não julga. Ela abraça.

O fenômeno de Santa Muerte é uma lição útil também para os céticos, pois revela uma coisa muito importante sobre a natureza humana. Nossa obsessiva busca por liderança e orientação. E aí está o pulo (cínico) do gato. Não queremos ser educados, mas reafirmados. Buscamos líderes que digam aquilo que nos conforte, que repitam aquilo em que já acreditamos. Não importa se a verdade é outra. Nesse mundo pós-fatos, estamos todos mais que dispostos a reverenciar caveiras disfarçadas de santos.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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