19/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Vem logo, pêndulo

Publicado em 25/07/2018 12:00 - Rodrigo Amém

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Teve a revolução industrial. E a gente começou a cobrir o céu com fuligem e colocar criança para trabalhar em máquinas de tear. A realidade era cinzenta, miserável e cheia de meninos desmembrados. E, para piorar, uma guerra mundial.

Não tava certo, pensamos. Somos melhores que isso, pensamos.

E começamos a planejar um futuro mais otimista, cheio de evoluções tecnológicas e maravilhas arquitetônicas. Imaginamos um mundo sem fome, sem sujeira.  Deixar o passado para trás e viver o moderno. Chamamos a esse conceito de modernismo.

Aí teve uma outra guerra mundial. A segunda.

Matamos milhões de pessoas, uma parte considerável delas simplesmente por pertencerem a diferentes etnias.

Não tava certo, pensamos. Somos melhores que isso, pensamos.

Desapontados e morrendo de vergonha, abandonamos a crença de um futuro único para todos. Passamos a ser pós-modernos. Nossos valores se tornaram contextuais. Depende de quem você é, de onde você vem. Depende do seu lugar da fala. Com todo respeito e multiculturalidade. A vida não tinha mais que fazer o mesmo sentido para todos, porque nada faz sentido em si. Mas cada um é livre para descobrir a sua verdade. Mas, quem tem liberdade para crer, também tem liberdade de questionar.

Viramos cínicos, em constante desconfiança em relação ao diverso. Voltamos a declarar nossos preconceitos e desconsiderar contra-argumentos. Em resposta ao plano de uma aldeia global, fechamos nossas fronteiras e voltamos às nossas tribos, rejeitando qualquer idealismo, qualquer positividade. Ser otimista é cafona, mal-informado. O mundo é um lugar cruel. Aproveite enquanto o que puder pelo tempo que durar.

Ainda não tivemos a terceira guerra.

Mas já sabemos que não está certo. Já sabemos que somos melhores que isso.

Uma parte da sociedade já clama por idealismo, por esperança. Porque não está dando certo. Mudanças climáticas, polarização política, crianças em jaulas. É preciso que o pêndulo balance novamente. Começa a surgir o metamodernismo, que atesta: "Provavelmente vai dar merda, mas não podemos nos dar ao luxo de perder a esperança".

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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