24/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Vamos falar a real sobre Trump?

Publicado em 29/07/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Donald Trump gosta de dizer que é gente do povo: fez sua fortuna com trabalho e hoje é um bilionário de sucesso. Mentira. Ele é herdeiro da família rica, abriu falência em quatro de suas empresas (incluindo um cassino!) e há dúvidas sobre as reais cifras de seu patrimônio. Dúvidas que ele insiste em não sanar, negando-se a revelar sua declaração de bens.

Donald Trump diz que é contra o “negócio da política”. Você sabe, doações de campanhas feitas por empresas e poderosos. Favores que acabam comprometendo a autonomia administrativa do candidato eleito. Ele diz que tem dinheiro de sobra para financiar a própria campanha. Mentira. O dinheiro dos Super PACs republicanos já está caindo na conta. Trump inclusive desviou algumas dessas doações para reformar seu campo de golpe na Escócia.

Donald Trump diz que imigrantes ilegais são um problema para a economia e que vai construir um muro para separar o México dos Estados Unidos e o governo mexicano vai pagar por isso. Mentira. Imigrantes são a força motora da economia americana desde sempre. Além do mais, não é possível obrigar outro país soberano pagar a conta de sua obra. Pelo menos não sem criar um climão diplomático com um dos seus mais importantes parceiros comerciais. Não é assim que diplomacia e política internacional funcionam.

Depois do massacre na boate gay em Orlando, Trump lamentou que não haja uma maneira eficiente de filtrar os refugiados muçulmanos que chegam aos Estados Unidos. Mentira. Desde 1980, o processo de triagem de refugiados envolve diversas agências de inteligência nos EUA e das Nações Unidas. O processo todo chega a levar dois anos e é composto por várias verificações de segurança. Além do mais, o atirador de Orlando nasceu em Nova York.

Trump vai ser o marco que os historiadores sobreviventes usarão para falar do nascimento do neo-obscurantismo, quando os homens ignoraram a razão e retornaram aos seus instintos tribais. E não tenha dúvida, amigo troll. Nossa hora vai chegar.

No seu discurso na convenção republicana, Trump reclamou que os EUA “são o país com a maior taxa de impostos do mundo”. Mentira. Além da crise de risos que esta afirmação provoca em qualquer brasileiro, os Estados Unidos estão quase na lanterninha na quantidade de impostos das 33 maiores economias industrializadas do mundo.

Trump afirmou que o desemprego nos EUA chega a 42%. Mentira. As estimativas mais agressivas indicam 16%. E caindo.

Mas Trump não esconde seu preconceito e se orgulha do próprio machismo. Ele acha que mexicanos atravessam a fronteira para estuprar americanos. Quando uma entrevistadora o pressiona, ele insinua que ela está de TPM. A cowboyzada pira e bate palma.

Já consigo ouvir o amigo troll batendo o teclado. “O que isso tem a ver comigo? Eu to no Brasil! Complexo de vira-lata!” A questão é que uma parte considerável do eleitorado de Trump sabe dessas “contradições”. Quem vota no Trump sabe que o que ele diz não é necessariamente verdade. Mas os fatos não importam. O que importa é a sensação de que o eleitor conservador “sente” que essas afirmações são verdadeiras. Ainda que não sejam. Para o republicano branco, o país “parece” mais perigoso. A economia “aparenta” estar indo de mal a pior. Os imigrantes “parecem” estar roubando empregos. Os fatos não importam mais. As sensações, sim.

Quando confrontado com um fato que nega sua visão de mundo, o ser humano refuta o dado e se agarra na própria percepção da vida. Esse efeito colateral do acesso à informação será a mola propulsora da próxima era, assim como o concreto armado no modernismo. Trump vai ser o marco que os historiadores sobreviventes usarão para falar do nascimento do neo-obscurantismo, quando os homens ignoraram a razão e retornaram aos seus instintos tribais. E não tenha dúvida, amigo troll. Nossa hora vai chegar.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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