21/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Vai sobrar para o professor

Publicado em 26/06/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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– Joãozinho?

– Sim, professora.

– Em que ano foi abolida a escravidão?

– Em 1888, professora.

– E a homofobia nos EUA, Gabriela?

– Em… hum…2015, professora.

Joãozinho levanta a mão.

– Pois não, Joãozinho?

– Professora, eu não entendo uma coisa.

– Quem dera fosse só uma – murmurou a professora.

– No caso da escravidão, tinha um monte de gente rica faturando com o sofrimento dos escravos. Daí eu consigo entender porque foi tão difícil acabar com a escravatura.

– Sim, Joãozinho. Foi uma disputa que acabou em guerra em muitos países. – observou a professora.

– Mas por que proibir que gente que se ama possa se casar?

– Ah, Joãozinho. Era um outro tempo.

– Eu sei, né, professora. É aula de história.

A classe riu. A professora não gostou do sarcasmo na resposta torta.

– Joãozinho! – ameaçou .

– Não seria melhor pra igreja se todo mundo pudesse casar na igreja?

– É, mas acontece que era pecado, de acordo com a leitura que os religiosos da época faziam da Bíblia.

– Pois é. Mas na época, quando a igreja se beneficiava da mão de obra não remunerada, a Bíblia apoiava a escravidão. Só depois que os teólogos começaram a ler a Bíblia de outro jeito.

– Os homens antigos eram assim, Joãozinho.

– Eu sei, professora. Mas não faz sentido. Meu pai me ensinou que, antigamente, a opressão acontecia porque algumas pessoas ganhavam com ela.   

– Sim, mas…

– Já o meu outro pai pensa diferente. Pensa que as pessoas oprimem as outras por medo. É uma forma de atacar para se defender daquilo que a gente não conhece.

– Também…

– Mas nesse caso eu não entendo, professora. Qual a vantagem? E o medo era de que? Se eu tivesse nascido antes daquela época, o que aconteceria comigo? Eu ia ficar sem família?

– Não necessariamente. Você poderia ter outra família.

– E eu nunca conheceria meus pais. Quem ganharia para eu nunca ter meus pais comigo?

– Sabe, Joãozinho. É meio injusto julgar as ações dos povos primitivos usando os nossos valores de hoje. Muita gente naquele tempo acreditava que a homofobia existia para proteger as crianças.

– As mesmas pessoas que achavam que a escravidão era super importante para a economia e o país ia falir se todo escravo fosse livre?

– Provavelmente. E os netos deles também.

– Devia ser horrível viver naquela época.

– Por esse lado, sim. Foi uma época difícil para a história da humanidade. Por outro lado, o Brasil tinha, na época, o Brasil chegou a ter 26 estados, imagine você. Quantos estados temos hoje, Glorinha?

– Sete, professora – respondeu Glorinha.

– E não nevava no Brasil, dá pra imaginar? Fazia muito calor!

– Isso foi na época dos pólos ainda com gelo?

– Isso, mesmo Marquinhos!

– Vixe. Meu pai nem era nascido. 

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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