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Universitárias trans lutam por mais inclusão no ensino superior

Estudantes denunciam violência e barreiras para concluir os estudos

Publicado em 20/02/2025 3:15 - Luiza Camargo

Divulgação Reprodução

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Em 2018, Ariela Nascimento, articuladora da Rede Trans Brasil, ingressou no curso de Pedagogia na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). No mesmo ano, Vênus Anjos começou a estudar Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF). Já em 2021, foi a vez de Zuri Moura ser aprovada para o curso de Serviço Social, também na UFF.

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Elas fazem parte do pequeno grupo de pessoas transexuais e travestis que conseguiram acessar o ensino superior, apesar dos desafios impostos pela discriminação e pela falta de suporte na educação básica. “A universidade foi o espaço onde senti o peso da solidão de ser uma travesti negra. Com o tempo, compreendi que aqueles muros não foram erguidos para corpos como o meu e decidi transgredir”, relata Zuri.

Buscando transformar essa realidade, Zuri idealizou e fundou, em 2022, a Rede Transvesti UFFiana. O coletivo, que também conta com a participação de Ariela e Vênus, teve um papel decisivo na luta pela criação de uma política de cotas para pessoas trans e travestis na UFF. “Hoje temos a possibilidade de sonhar e transgredir. Estamos construindo um novo patamar de dignidade social para a nossa população”, afirma Zuri.

Ariela, atualmente estudante de Ciências Sociais, ressalta que as cotas são uma medida essencial de reparação histórica e social. Para ela, a política deve ser acompanhada de ações que garantam a permanência desses estudantes nas universidades. “Não podemos permitir que, no ensino superior, as poucas que vencem a guerra da educação básica sejam forçadas a desistir por falta de suporte econômico e social”, pontua.

UFF implementa cotas para pessoas trans e travestis

Em setembro de 2024, a UFF se tornou a primeira instituição federal do Rio de Janeiro a aprovar uma política de cotas para a população trans. A partir de 2025, 2% das vagas nos cursos de graduação serão destinadas a esse grupo. Na pós-graduação, todos os programas de mestrado e doutorado deverão reservar pelo menos uma vaga para estudantes trans.

Antes da decisão, 18 cursos de pós-graduação da UFF já haviam implementado ações afirmativas para esse público. “A UFF se tornou pioneira ao adotar essa política, mas ainda precisamos garantir que essas pessoas permaneçam na universidade. A violência transfóbica ainda marginaliza nossa comunidade e impõe obstáculos à permanência estudantil”, reforça Zuri.

Falta de dados sobre estudantes trans

A exclusão de pessoas trans no ensino superior ainda é difícil de mensurar devido à escassez de dados. Um estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) aponta que, em 2018, apenas 0,3% dos universitários nas instituições federais do Brasil eram trans. A pesquisa mais recente sobre o tema foi divulgada em 2021, com base na V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras.

Apesar da crescente presença de estudantes trans, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informou à Agência Brasil que não há um campo específico para a coleta desses dados nos levantamentos oficiais. Da mesma forma, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) declarou não possuir informações sobre a presença de pessoas trans na pós-graduação, mas anunciou que pretende incluir esse recorte no Censo da Pós-Graduação previsto para este ano.

Segundo a Capes, a coleta de dados ajudará na formulação de políticas de ações afirmativas para grupos sub-representados no ensino superior, incluindo a população trans.

Luta por permanência e direitos

Para Vênus Anjos, a marginalização da população trans é resultado da omissão do Estado e da sociedade como um todo. “A inércia das instituições na criação de políticas públicas específicas nos empurra para a precarização da vida”, critica a estudante de Ciências Sociais.

Ela também cobra a criação de bolsas de permanência e pesquisa para pessoas trans e travestis, garantindo que possam estudar e produzir conhecimento sem depender de alternativas de subsistência precárias. “Queremos estudar, pesquisar e ser remuneradas por isso. A prostituição não pode ser nosso único destino”, enfatiza.

Para as pessoas trans que ingressarão na universidade em 2025, impulsionadas pela nova política de cotas da UFF, Vênus deixa um conselho: “Venham sem medo”.

LUIZA CAMARGO

É jornalista e professora. Atua em São Paulo.

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Luiza Camargo


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