22/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Unidos nas sombras

Publicado em 09/05/2014 12:00 - Rodrigo Amém

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Nas últimas semanas, observamos um fenômeno raro. Nas redes sociais, nos programas de TV, nas filas dos bancos, atingimos um consenso: o horror diante dos linchadores de Guarujá, do assassino arremessador de privadas no Recife, e da família infernal do pobre Bernardo em Três Passos.

Diferentemente da morte do dançarino do Esquenta que, para uma parcela da população, fez por onde morrer e não merecia homenagens de seus colegas de trabalho porque “tinha amigos bandidos”, ninguém tentou culpar Fabiane por ser parecida demais com uma “raptora de menores”. Também não ouvi ninguém acusar Paulo Ricardo de ter provocado a queda da privada em sua própria cabeça por ter se envolvido com torcedores. Ninguém disse que Bernardo era um mau menino.

Tem um monte de sociólogo ponderando que estes atos de barbárie são reflexos da falência das instituições. Se as autoridades não fazem o que esperamos dela, fazemos nós, o que é uma meia verdade. Não buscamos compensar nosso contrato social falido. Contamos com sua ausência para expressar nossa barbárie. Nossos atos de violência não são motivados pelo desespero de quem tem medo, mas pela convicção de impunidade.

O consenso diante do circo de horrores das últimas semanas é o pavor de quem não consegue se desvencilhar nem da posição da vítima, nem da imagem do criminoso. Somos todos filiados no partido das sombras da condição humana. 

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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