22/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Um mundo muito Black Mirror

Publicado em 28/01/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Faz uns doze anos desde que meus olhinhos deslumbrados viram meu nome na lista de aprovados do mestrado em Comunicação Social na PUC – Rio. Na época eu não fazia ideia, mas minha seleção teve uma direta influência do zeitgeist do começo do século XXI. O candidato "do meio do mato" trazia uma perspectiva brejeira, talvez até tribal, para a academia carioca. Era quase como um sistema de cotas cultural e informal. Assim como o mandioqueiro aqui, havia um mineiro e uma garota do sul, salvo engano. De resto, só os universitários que faziam as vezes de fiéis escudeiros dos doutores da casa.

O clima, naquela época, era de otimismo em relação ao mundo. Era impossível ler ou escrever um artigo sem tropeçar nos clichês positivistas da época: "aldeia global", "multiculturalismo", "globalização", "fronteiras borradas".

Quando eu confessei para meu orientador que tinha interesse em falar de ficção científica na minha dissertação, ele reagiu contrariado. "Mas você não ia falar de Glauber?" Eu tinha mentido que queria falar de Glauber. E não me senti mal nem nada, já que acreditava que Glauber era uma mentira. Mas é comum mudar o tema do mestrado. Não era esse o problema. Eu não entendi na época e ninguém articulou isso para mim, mas o problema não era a ficção científica. O problema era a visão que a ficção científica imprimia sobre o mundo.

A ficção científica é a desconfiança em relação ao progresso da sociedade. Ficção científica não é Star Wars. É Black Mirror. É o mal estar que a sociedade sente quando algo ameaça suas certezas tribais. Falar de ficção científica no começo dos anos 2000 soava bobo na academia porque havia um arraigado otimismo em relação ao futuro graças à revolução digital. "As fronteiras seriam desfeitas. Seríamos cidadãos do mundo."

Os últimos racionais alegam que não se pode reconstruir os muros entre as nações. Mas eles não entendem é que esses muros não são concebidos pela sua eficácia, mas pelo seu simbolismo. É a rejeição ao outro, ao novo, ao diverso. É um protesto contra o futuro e em favor do passado.

Hoje é quase obsceno falar em multiculturalismo e globalização. A classe média conservadora em todo mundo mostrou que já está pronta para erguer os muros derrubados. Diversidade virou um palavrão esquerdista. O conceito de alta e baixa culturas voltou a desfilar nas timelines da vida, fazendo Umberto Eco revirar no túmulo.

A primeira obra de ficção científica do mundo foi Frankenstein, de Mary Shelley. Era para ser um conto de terror no berço da revolução industrial. Um cientista, o Dr. Frankenstein,  costura pedaços de diversos corpos diferentes e dá vida ao monstro com energia elétrica, o último grito da tecnologia daquele tempo. Apesar dos delírios de grandeza de Frankenstein, a criatura demonstra ter bom coração, apesar das adversidades da sua vida trágica (como diz a máxima: conhecimento é saber que Frankenstein não é o monstro. Sabedoria é saber que Frankenstein é o monstro).

Acontece que a criatura foge e tenta se integrar ao povo. Acidentalmente, mata uma inocente. A população, movida de ancinhos e tochas, exige sua destruição.

A globalização matou a indústria do primeiro mundo ao permitir que as fábricas se mudassem para países onde o trabalho era mais barato. A população se armou com Brexit e Trump para exigir que esse monstro e seus membros de diversas origens sejam desmantelados.

Os últimos racionais alegam que não se pode reconstruir os muros entre as nações. Mas eles não entendem é que esses muros não são concebidos pela sua eficácia, mas pelo seu simbolismo. É a rejeição ao outro, ao novo, ao diverso. É um protesto contra o futuro e em favor do passado.

Pessoalmente, eu preferiria que minha dissertação tivesse permanecido irrelevante.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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