19/07/2024 - Edição 550

Agromundo

Pode ser diferente: MST aposta em soja sem transgênicos como alternativa ao agronegócio

O plantio da soja não transgênica é considerado apenas o primeiro passo do MST nesta missão de ressignificar o valor do grão

Publicado em 04/03/2023 11:03 - Lucas Weber – BDF

Divulgação Foto: Lucas Weber

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No último dia 25 o acampamento Fidel Castro do MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) realizou a Festa da Colheita para celebrar a primeira safra de soja não transgênica da região. Os 200 hectares de produção foram cultivados na zona rural do município de Centenário do Sul, no Norte do Paraná.

O evento contou com a presença de dois ministros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, e Carlos Fávero, da Agricultura e Pecuária de Abastecimento.

A soja não transgênica é diferente do grão comumente cultivado por empresas do agronegócio, que é alterado geneticamente para ser mais resistente a agrotóxicos. Pior: a soja transgênica usa o Roundup, produto composto pelo glifosato, substância já criticada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) por possíveis efeitos cancerígenos ao ser humano.

Segundo Diego Moreira, membro da Direção Nacional de Produção do MST e liderança na região, o Movimento Sem-Terra está propondo um grande desafio, que é resignificar o valor da soja para toda a população brasileira

“Nós [do MST] entendemos a soja como alimento, e uma ferramenta para o combate à fome no mundo. A gente tá acostumado a tratar ela com preconceito, e com motivos para isso”, diz ele.

“Mas, à medida em que aprofundamos o conhecimento da soja como alimento, não aderirmos à lógica monopolizada pelas grandes empresas. Temos certeza que trabalhadores e trabalhadoras vão entender a importância de plantar soja.”

“É o que o povo tá pedindo, que o povo pede, menos agrotóxicos. A gente sabe que agrotóxico não é bom. Você vai comprar um produto, você prefere com glifosato ou sem?”, questiona Edivan Ghizoni agricultor familiar, assentado do MST na região e responsável por coordenar o plantio de soja não transgênica no acampamento.

Oportunidade única

Para Diego Moreira a visita dos ministros Paulo Teixeira e Carlos Fávero ao acampamento “é muito simbólica, porque mostra as intenções desse governo: com quem e para quem.”

A liderança do MST vê o evento com duas importâncias. A primeira é “uma propaganda do potencial produtivo da região e também da forma sustentável que produzimos aqui”, diz ele.

“A segunda é reivindicar ao governo federal a inclusão desses acampamentos para a reforma agrária. Aqui, eles serão cobrados para realizar o sonho dessas famílias, que é sonho daqueles posseiros e posseiros que atuaram aqui há 60 anos”, finaliza Moreira ao referenciar a Revolução de Porecatu, movimento da década de 1940, protagonizado por  pequenos produtores que disputaram terra contra grileiros donos de grandes plantação de cana-de açúcar e café.

Além dos ministros do governo, o evento deste sábado contará com a presença das deputadas federais Gleisi Hoffmann (PT-PR), que é presidenta do Partido dos Trabalhadores, Carol Dartora (PT-PR) e Luísa Canziani (PSD-PR).

Pelo menos três prefeitos de municípios da região confirmaram presença, além do vice-prefeito de Londrina, João Mendonça.

As mais de 250 famílias que vivem no acampamento Fidel Castro dizem acreditar que o evento – com a presença de membros do governo federal – pode ser o impulso necessário para garantir a regularização do terreno, como explica a agricultora Márcia dos Santos Neri Borges.

“Esse plantio vai ser ótimo pra apresentar o nosso trabalho pro mundo. É importante pro nosso objetivo, o sonho que é garantir o nosso lote”, afirma a trabalhadora que vive desde 2015 no Fidel Castro e é uma das responsáveis pela produção de alimentos destinados à doação.

Durante a pandemia, o acampamento produziu e doou 1.500 quilos de alimentos agroecológicos para famílias em situação de vulnerabilidade da região Norte do Paraná.

Rumo ao orgânico

O plantio da soja não transgênica é considerado apenas o primeiro passo do MST nesta missão de ressignificar o valor do grão. Ceres Hadich, integrante da direção Nacional do MST, explica que “é preciso investir também no beneficiamento, apostando na agroindústria, para que vire, também, alimento direto para as famílias.”

“Neste ano, finalmente, pudemos dar um passo a mais, mostrando que é possível produzir uma soja não transgênica em larga escala”, explica a liderança, lembrando que no ano anterior o acampamento Fidel Castro colheu 8 hectares de soja não transgênica em um experimento com o grão. A promessa para o ano que vem é que chegue a 1.500 hectares.

“Com custo mais baixo você tem a mesma produção”, defende Edivan Ghizoni.

Para explicar a diferença da soja transgênica e a convencional, o agricultor compara usar agrotóxico a ficar doente.

“Você pode comparar o Roundup a uma gripe. Quando nós pegamos uma gripe, nós ficamos baqueados, mais fracos, demora pra se recuperar. E pra isso, precisamos tomar ainda mais remédios. É o mesmo com a soja quando você aplica o Roundup, ela fica fraca, cresce menos. E para voltar a crescer precisa de mais agrotóxicos. E mesmo assim o resultado não é o mesmo.”

A produção do MST não utiliza agrotóxicos na planta. No entanto, para preparar o solo são utilizados produtos que impedem o crescimento de plantas indesejadas na produção.

“Estamos olhando no horizonte, com o empenho de ciência, tecnologia e ferramentas, transformar essa produção em orgânica”, afirma Diego Moreira.

Um dos responsáveis pelo plantio dos 200 hectares de soja convencional é Victor Hugo da Silva, acampado do MST e que está cursando Agronomia em Londrina (PR). Com 21 anos, o estudante comemora poder aplicar a teoria na prática dentro do acampamento do MST, onde vive.

Ao mesmo tempo, ele reclama que dentro da universidade é minoria. Segundo Victor Hugo, na sala de aula “a transgenia é entendida como uma tecnologia, mas as pessoas não veem o dano que ela causa pro ser humano e ao meio ambiente”.

Décadas de luta

O acampamento Fidel Castro existe desde 2008, quando trabalhadores e trabalhadoras sem-terra ocuparam uma área deixada pelo grupo Atalla, grande produtora de cana-de-açúcar da região, que não atua mais. Além dele, mais quatro acampamentos do Movimento surgiram nesta mesma região.

“Aqui a gente é herdeiro de uma luta histórica, que foi de posseiros e posseiras que lutaram contra grileiros na década de 1940. Quando ressurge, nos anos 2000, nos acampamentos da região, a gente vem com essa missão de libertar a terra para aqueles e aquelas que trabalham”, define Ceres Hadich.

Em referência ao nome do acampamento, Diego Moreira finaliza: “tenho certeza que se o Fidel Castro passasse por aqui ele nos daria um muy bien compañeros, porque nós estamos indo no caminho certo”.

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Equipe Semana On

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