22/02/2024 - Edição 525

Povos da Terra

Pará mostra como Bolsonaro armou o Brasil do século 19

Atentado contra agentes da PRF e da Funai é consequência dos quatro anos da extrema direita bolsonarista

Publicado em 07/12/2023 1:43 - Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana ON

Divulgação

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A Polícia Rodoviária Federal e a Funai sofreram um atentado, na segunda (4), no Pará, quando os veículos em que seus servidores estavam foram emboscados e metralhados. O caso mostra como os quatro anos de Jair Bolsonaro serviram para empoderar o Brasil que se recusa a deixar o século 19.

Um funcionário da Funai foi atingido e levado ao hospital. Os servidores atuavam na ação de retirada de invasores das Terras Indígenas Apyterewa e Trincheira Bacajá, a maior operação de desintrusão em curso hoje no país, respaldada por Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal.

São madeireiros e garimpeiros ilegais que resistem em deixar o território que não é deles e ameaçam de morte os moradores tradicionais e os agentes do poder público. Uma decisão liminar do ministro Kassio Nunes Marques havia suspendido a retirada dos invasores, mas foi revertida por Barroso. O vai e vem aumentou, ainda mais, a tensão na região.

A política de Bolsonaro para os territórios indígenas (atacar e sequestrar as instituições de monitoramento e controle da União e dar suporte, através de sua ação e omissão, a quem invadiu áreas indígenas, que são terras públicas federais), trouxe fome e doença. Isso gerou pelo menos 570 crianças do povo yanomami mortas em quatro anos.

No ano passado, 80% de todo o desmatamento aconteceu em áreas federais, sob a bênção de Jair Bolsonaro, que desmobilizou os mecanismos de fiscalização e apoiou os criminosos que fazem parte de sua base eleitoral para invadirem e explorarem ao arrepio da lei.

E através da liberação de armas para os chamados CAC (Colecionadores, Atiradores e Caçadores), ele deu “argumentos” para que garimpeiros e madeireiros resistissem ao retorno da lei na Amazônia mesmo se ele deixasse o poder.

“Hoje, vocês têm uma realidade que é a posse e o porte de arma estendido para o homem do campo. Armas de fogo, mais que segurança familiar, nos dão a certeza de que essa pátria jamais será escravizada”, disse Bolsonaro em um discurso em setembro do ano passado. Pediu “força para resistir e coragem para decidir”.

Seis dias antes dos atos de caráter golpista e antidemocráticos de 7 de setembro de 2021, Bolsonaro avisou, em um evento da Marinha, que “se você quer paz, se prepare para a guerra”.

O provérbio, que vem do latim (si vis pacem, para bellum) e é repetido ao longo de séculos, uma variação de uma declaração atribuída ao escritor romano Flávius Vegetius Renatus, que viveu no final do 4º século de nossa era. Significa isso mesmo que parece. Bolsonaro não falou em sentido figurado. Estava preparando uma guerra. E um dos lados, aquele que ataca a liberdade em nome da liberdade, foi armado até os dentes.

Decreto do governo Lula, em julho, reverteu essa política, mas o estrago já havia sido feito. Para além de quem coleciona, atira esportivamente e caça de fato, matadores de indígenas e membros do PCC também foram os beneficiados. Há mais de um milhão de armas de fogo em poder dos CACs.

Sob o seu governo, segundo o TCU, o Exército não se mostrou capaz de garantir a checagem de documentação para conceder licenças a quem não contava com antecedentes criminais ou cassar quem ganhava ficha corrida após o registro. Não é incompetência, mas projeto.

A impunidade a tudo isso levará a reforçar a ideia de que os crimes cometidos por seguidores da extrema direita são realmente manifestações justas de “movimentos espontâneos”. O que porá um fim, mais cedo ou mais tarde, e espontaneamente, à democracia.

Juscelino Kubitschek teve um plano de levar o Brasil 50 anos adiante em apenas cinco. Jair Bolsonaro afirmou, em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, em outubro de 2018, que o objetivo de seu governo era fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”.

Conseguiu muito mais o que queria. Em muitas áreas, incluindo a que trata da natureza da violência armada, voltamos ao período do império ou da colônia.

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Equipe Semana On

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