13/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Os patriotas da boleia

Publicado em 25/05/2018 12:00 - Rodrigo Amém

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Para entender a greve dos caminhoneiros, é preciso saber a diferença entre greve e locaute. No locaute, os manifestantes são laureados pelo seu protagonismo democrático e pela luta por um país melhor. Na greve, os manifestantes são alvejados com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Outra diferença importante: greve tem a ver com a garantia de direitos de uma classe trabalhadora. Preço de insumo, geralmente, é pauta de empresário. Afeta diretamente sua margem de lucro. O patronato não gosta disso, não.

A greve é uma manifestação de uma categoria profissional em protesto às condições de trabalho que não atendem a requisitos mínimos. Seja de compensação financeira, seja de salubridade. O locaute é uma briga por rentabilidade e/ou poder político. No caso dos caminhoneiros, a pauta do diesel tem a ver com a política de preços da Petrobrás pós-golpe. Teoricamente mais liberal, de acordo com o mercado internacional. Nada provoca mais arrepio no empresário brasileiro do que a ideia de neo-liberalismo na prática. Na teoria e no palanque é show. A direita ama. O conservadorismo neopentecostal aprova. Mas competir com os gringos à vera? Nem pensar. A culpa é do governo. Ele que assuma a bronca da carga tributária. E, se não assumir por bem, assumirá por mal.

O locaute é uma forma de chantagem política, porque desestabiliza as relações econômicas e fragiliza a credibilidade das instituições como um todo. O locaute abre as portas para uma mudança governamental drástica. Cria o clima propício para um levante nos partidos de oposição, impulsiona investigações contra membros do governo, municia assaltos à democracia.

Te contei que o senado aprovou regras para eleições indiretas em caso de "vacância da presidência"? Aconteceu no terceiro dia da greve dos caminhoneiros. Você não viu porque estava na fila do posto. E a gasolina tinha acabado de bater 9 reais.

O locaute é mais efetivo porque estende as consequências da manifestação a toda a sociedade, utilizando a classe média como peão na disputa. Não que nossa classe média não goste do papel, pelo contrário. Taí a FIESP que não nos deixa mentir. Para essa pitoresca parcela da população, você pode morrer roxo esperando que seus direitos sejam respeitados. Só não pode atrapalhar o trânsito. E, misericórdia, não pode criar fila no posto de gasolina. Isso é sacrilégio.

A greve estigmatiza uma categoria. Professores viram comunistas, garis viram vagabundos. O locaute purga as massas de manobra. Os paneleiros envergonhados dão lugar aos patriotas da boleia. Tudo a tempo de impulsionar as vendas de camisetas da seleção para a Copa da Rússia.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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