18/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

O sentido da vida e o sentido da Copa

Publicado em 04/05/2018 12:00 - Rodrigo Amém

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O ser humano é um bicho com todas as demandas fisiológicas dos demais bichos e mais algumas. Somos mamíferos famintos de atenção. Bípedes sedentos por poder. Somos primatas incapazes de sobreviver sem uma clara noção de propósito. Nenhuma baleia vai se entregar às drogas diante da falta de sentido da sua existência. Mas quase nenhum humano resiste ao apelo do entorpecimento artificial, dada a absoluta irrelevância dos seus dias.

Fizemos a religião para isso. Para garantir que haja sentido e propósito em nossas vidas. Para que o passar do tempo seja, senão produtivo, pelo menos tolerável: "estou aqui esperando coisa melhor depois".

Mas não foi só a fé que nasceu da angústia do "pra quê tudo isso?". Também criamos os esportes. As artes. As ciências. Enfim, quase tudo que está aí ao seu redor emana dessa demanda: um sentido, por favor.

E eis o segredo para a vida harmônica em sociedade: o que dá sentido à sua vida não precisa, necessariamente, fazer sentido para mais ninguém. Você não tem que convencer ninguém que o seu propósito é mais legal, ninguém tem o direito de criticar o seu propósito. Simples, não?

Não. E eu vou transgredir minha regra de ouro agorinha.

Eu não vejo sentido em futebol. Sem dúvida, é mais interessante que curling. Mas é só isso. Um passatempo divertido. Guardo futebol na mesma gaveta que palavras cruzadas e Tetris. Mas, para muita gente, futebol faz todo o sentido. Literalmente.

Tenho amigos cuja vida gira em torno do calendário do brasileirão. Que comemora cada vitória como se tivessem efetivamente influenciado o resultado, sentados com a cerveja na mão e gritando para a TV. Acho que o Seinfeld já havia observado o gritante paradoxo do torcedor. Os elencos se desfazem, os técnicos são demitidos. Os atletas, profissionais do entretenimento, mudam de time mediante melhor oferta. A única constante na equação do time é a camisa, inflacionada pela presença de patrocinadores.

O torcedor vive (e, às vezes, morre) por uma camisa. Como se fosse uma coisa séria. Como se a corrupção e os cartolas não conferissem ao esporte a legitimidade do Wrestling norte-americano. Como se não se tratasse de uma indústria corrompida e manipulável. Presidentes da Fifa, da CBF, dos clubes (menos do Vasco, claro) são afastados por corrupção o tempo todo. A Copa do mundo é uma negociata à disposição bastiões morais como Brasil, Rússia e Qatar. Maradona faz gol com a mão. Tratar futebol como qualquer coisa mais séria do que uma edição do BBB vai contra qualquer lógica ou sensatez.

No entanto, reconheço que Copa do Mundo tem um outro sentido para as pessoas. Não é uma camisa de um time. É a camisa de uma nação. Da pátria de chuteiras. Não é atoa que os patos da FIESP vestiam a camisa da CBF para bater panela. Essa camisa faz um sentido maior que o do esporte. Ou pelo menos costumava fazer.

Falta pouco mais de um mês para a Copa. E, diferente das edições anteriores, há uma frieza no ar que não vem das estepes russas. Há um descaso com o evento. Talvez seja cedo, apenas. Talvez nossa animosidade política tenha fraturado nossa capacidade de deixar tudo de lado para ouvir o Galvão Bueno gritar. Talvez seja cedo, apenas. O fato é que isso preocupa.

Se a situação social e política se tornou tão insustentável que não podemos mais colocar nossas chuteiras verde-amarelas, isso pode ser um indicador de algo mais sério. De que os "milhões em ação" deixaram de fazer sentido juntos. De que, dessa vez, foi a gota d'água. E não estamos falando do 7×1.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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