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Eles em Nós
O Sebastião do STF normalizou a censura prévia, expulsou cidadãos das redes sociais sem o devido processo legal
Publicado em 14/01/2026 12:00 - Idelber Avelar
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O juiz e a jornalista são as mesmas pessoas que sempre foram. Ele é da linhagem capanga, prometendo, com enxada, erradicar do continente uma planta que a humanidade usa há 5 mil anos. Quem se lembra dos massacres policiais em São Paulo em 2013 sabe quem é ele.
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A jornalista também sempre foi a mesma. Autora de livros que destrincham o funcionamento do capitalismo das empreiteiras, ela é hoje execrada pelo grupo político que antes a citava. O motivo é o de sempre: todos sabem que ela relata a verdade.
Como o juiz deveras foi firme em seu repúdio à tentativa de golpe, e como no Brasil não aceitamos a ideia de que a personalidade estatal possa cumprir sua função sem que se instale uma dinâmica sebastianista de crédito infinito, a megalomania do juiz prosperou.
O setor progressista da sociedade se ajoelhou em frente ao juiz. Aos poucos que apontavam seu caráter autoritário, havia a resposta pronta:
— Está fazendo o jogo da direita. Quer um golpe de Estado?
O petismo realizava um sonho que já dura 20 anos: catalogar como golpista toda e qualquer oposição. Que realizasse isso pelas mãos do juiz que o próprio petismo qualificara como um fascista produto de golpe é um desses oxímoros da História brasileira. Dom Sebastião se encarnava na figura de um juiz, agora idolatrado pela esquerda. Não custa lembrar que, poucos anos antes, o país havia tido outro Dom Sebastião encarnado em juiz, só que idolatrado pela direita.
O Sebastião da Suprema Corte normalizou a censura prévia, expulsou cidadãos das redes sociais sem o devido processo legal, bloqueou plataformas no país inteiro, violou o princípio do juiz natural, rompeu como pilar mais básico do Direito Penal, a responsabilidade pessoal (você é culpado pelo que fez) e conduz um inquérito de fim do mundo em que é simultaneamente juiz, procurador e vítima de um crime indeterminado e sem data (fake news).
Enquanto isso, dá-lhe convescote patrocinado por entidades privadas que o juiz pode vir a ter de julgar amanhã.
É nesse contexto que a jornalista publicou seus achados. O escritório da esposa do juiz assinou um contrato para receber ao redor de R$ 130 milhões em pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões, o que é honorário advocatício irrealista até em Mônaco. A tarefa era atuar em processo nenhum, em nenhum litígio nomeado, mas representar os interesses do banco no Judiciário, inclusive ali na Suprema Corte em que atua seu marido.
Como se não bastasse, o juiz fez lobby pelo banco junto ao presidente do Banco Central — informação cristalina, confirmada pelo método jornalístico mais clássico. O juiz emitiu negativo protocolo que continha até erros de datas. Todo mundo sabe que o revelado pela jornalista é verdadeiro.
Nesse contexto surge o servo. Remunerado ou não, acredita ou finge acreditar que faz “militância” por um mundo melhor. Mas trata-se apenas de capangagem, já que a tarefa é só difamar a jornalista.
Alguns monetizam a capangagem, mas isso não altera a relação de servidão. A característica essencial do servo digital é usar duas medidas para o mesmo peso: quando a mesma jornalista revelou as contas secretas de Paulo Maluf na Suíça, ela não confundiu jornalismo com tribunal para exigir “provas”. Pelo contrário, bateu bumbo com os achados do jornalismo.
Sabe-se onde estará a jornalista amanhã: fazendo seu trabalho com o rigor de sempre. Também sabemos onde estará o servo: credibilizando ou descredibilizando os achados do jornalismo segundo a conveniência da força política a que serve.
O juiz, apesar do poder de sua posição, é de futuro mais incerto. A ruptura com o devido processo legal só volta, como um escorpião, para cravar o ferrão naqueles que a desataram.
Idelber Avelar – Professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane e autor de “Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI”, entre outros livros. Coapresenta o podcast “Meio de campo: o futebol e sua história” no Canal Meio.
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