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Livro conta a história do Mundial do ponto de vista sul-americano
Publicado em 08/06/2026 3:02 - Idelber Avelar
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Livro publicado em inglês, que já surge como um clássico, detalha o profundo vínculo dos países sul-americanos com a Copa do Mundo, que surgiu em 1930 sob o impacto da admiração provocada pelo time do Uruguai. Quase um século depois, a maior edição do Mundial ressalta uma série de mudanças nas seleções da região, inclusive no Brasil, que tenta reafirmar sua soberania após 24 anos sem erguer a taça.
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Tim Vickery e Mark Biram lembram, em um livro novo, que a América do Sul vive as Copas do Mundo como ninguém. Apesar de idealizada pelo francês Jules Rimet, a Copa é uma ideia essencialmente sul-americana. Ganhou viabilidade com o Campeonato Sul-Americano, inaugurado em 1916, e tornou-se inevitável graças ao deslumbramento causado pelos uruguaios nas Olimpíadas de 1924 e 1928.
Em Paris ficou demonstrado, e em Amsterdã ficou óbvio, que o futebol havia se tornado grande demais para as Olimpíadas. Na final de 1924, 60 mil pessoas se apertavam nas arquibancadas para ver o Uruguai derrotar a Suíça por 3 a 0. O futebol já era tão imenso que precisava ser disputado em um calendário próprio, anterior em um mês à abertura dos Jogos.
Na imprensa da época, reiteraram-se variações mais ou menos estupefatas de perguntas que não cessaram de ser feitas ao longo de cem anos: qual o mistério desse jogo que proíbe o uso dos membros com os quais somos mais hábeis e apequena, em popularidade, os nobres esportes herdados dos antigos?
Qual a explicação para que o futebol, que chega sempre pelos pés de gente privilegiada, seja apropriado tão imediata e apaixonadamente pelos desvalidos do mundo todo, ao ponto de eles verem ali sua identidade mesma, o espelho perfeito de suas vidas? Por isso, na Copa do Mundo, o futebol é mais futebol: ele põe em destaque o que lhe é mais próprio.
O coeficiente de Gini, medidor de desigualdade usado por economistas, revela movimentos opostos quando aplicado ao futebol de clubes e ao futebol de seleções.
Desde o acórdão Bosman (1995), que conferiu aos jogadores a mobilidade laboral que já possuía qualquer trabalhador, a inevitável pressão inflacionária sobre os salários na ponta fez o futebol de clubes ficar mais desigual. Já se foram os tempos em que times de Belgrado ou Bucareste podiam ser campeões europeus.
No futebol de seleções, acontece o oposto. A mesma mobilidade laboral que afunila a pirâmide dos clubes socava a estrutura piramidal do futebol de seleções. Cada vez mais jogadores formados nas ligas dominantes defendem seleções que se encontravam na base da pirâmide. Já se foram os tempos em que o Zaire apanhava de 9 a 0 da antiga Iugoslávia na Copa.
Vivemos a era em que a Coreia do Sul elimina a Alemanha e a Costa Rica elimina a Itália (isso quando ela se classifica). Nos últimos 30 anos de futebol profissional e olímpico, o Brasil disputou quatro finais contra o seu velho saco de pancadas, o México. Perdeu todas as quatro.
Essa nova realidade impacta as nações sul-americanas de formas diferentes. No Brasil, vamos aprendendo aos poucos. Foi uma demonstração de maturidade ter dado um ciclo completo a Tite depois da eliminação em 2018. Todos entenderam que ele havia consertado o desastre da era Dunga 2.
O Brasil agora vai com o técnico italiano Carlo Ancelotti, porque finalmente ficou claro que continuávamos a produzir jogadores tão bons como os de qualquer país, mas nossos técnicos estavam defasados. Se o Brasil não ganhar a Copa, ou pelo menos não fizer campanha empolgante, o resultado será usado para negar essa obviedade.
A Argentina tem tanta ambição como nós, mas apenas no português brasileiro fala-se de ganhar a Copa versus perder a Copa como se houvesse apenas dois resultados possíveis em uma competição com dezenas de equipes. A Argentina tenta repetir a fórmula que deu certo com o Brasil de 1962, mas deu errado com a França de 2002 e a Espanha de 2014: defender o título com a mesma base de quatro anos antes.
Aprender seu novo lugar na pirâmide é a lição mesma do futebol uruguaio. A globalização que os próprios uruguaios impulsionaram tornou impossível que uma nação menor que a Zona Leste de São Paulo competisse em igualdade de condições.
O Uruguai vai a esta Copa sem um único jogador dos times Nacional ou Peñarol, realidade que outrora seria impensável. Lá, certo establishment espreita, torcendo contra, para que seu ressentimento contra o técnico Marcelo Bielsa aflore em impropérios.
Depois de não ter se classificado a uma única Copa no século 20, o Equador foi segundo colocado na zona sul-americana das Eliminatórias e participa pela quinta vez em sete edições. Os equatorianos tiveram, de longe, a melhor defesa, com 5 gols sofridos em 18 jogos.
Equador, Paraguai, Colômbia e Uruguai mostram a nova condição do Campeonato Brasileiro como liga importadora. Sete dos convocados paraguaios atuam no Brasileirão. Três convocados do Equador jogam no Galo. A espinha dorsal da seleção uruguaia vem do Flamengo. Já faz anos que um colombiano ligado em sua seleção tem que acompanhar o Palmeiras. A desigualdade no futebol de clubes se desdobra na América do Sul, com o Brasil transformado em importador, sem ter deixado de ser exportador.
Para iluminar a história das Copas, há dois livros recentes em inglês: “The Power and the Glory: The History of the World Cup”, de Jonathan Wilson, e “Mundiales: A South American History of the World Cup”, de Mark Biram e Tim Vickery. Wilson escreveu 13 livros sobre futebol, incluindo “A Pirâmide Invertida”, a mais celebrada história das táticas. Biram publicou trabalhos em antropologia do futebol, e Vickery tem uma carreira brasileira de três décadas.
“The Power and the Glory”, diz o prólogo, é “um livro sobre grandes jogadores e grandes partidas, mas também sobre o futebol como instrumento de autopromoção e tráfico de influência”.
Quem conhece a obra anterior de Wilson se decepcionará. Repete-se um problema comum dos livros sobre futebol e política tão detestados por boleiros, que percebem que o futebol tende a ser um pretexto para a defesa de uma posição política.
O caso de Wilson é diferente. Trata-se talvez do jornalista mais equipado para escrever uma história das Copas do ponto de vista das táticas. Mas, sem ser especialista na política dos países que hospedaram ou ganharam Copas, inclusive porque ninguém poderia sê-lo, Wilson escolheu relacionar poder (político) e glória (futebolística) com base em simplificações.
O modelo é a Copa de 1934 na Itália, em que Mussolini sequestrou o torneio e interferiu no resultado. Daí em diante, Wilson procura um Mussolini em cada Mundial.
No processo, o livro incorre em inúmeros erros factuais. No cartão vermelho de Maradona em 1982, Wilson confunde Batista com Barbas —Maradona estava nervoso, mas não ao ponto de dar coice em seu companheiro. A folclórica decepção de Garrincha com a ausência de segundo turno na Copa de 1958 é atribuída ao costume de se jogar dois turnos no campeonato “paulista”.
Na Copa de 1966, Wilson postula uma ditadura brasileira que só passou perto de existir após do AI-5, dois anos depois: totalitária, proibindo até uma improvável oferta dos Beatles de tocar para a delegação. Ausente está a informação de que a política da seleção ainda era muito mais tributária da velha briga entre Rio e São Paulo, agora acrescida da chegada de Porto Alegre e Belo Horizonte.
Na Copa de 1958, Wilson corretamente critica a mitologia de que a genialidade individual tenha sido a única responsável pela vitória do Brasil. Relata a preparação da Canarinho, que escolheu hotéis e itinerários e inovou ao levar olheiro, médico, psicólogo, dentista. Faz uma breve menção à invenção da linha de quatro.
Mas aí vem a associação aleatória. Para Wilson, isso seria “o mesmo espírito tecnocrático que subjazia a tudo no Brasil de Kubitschek, da construção de Brasília ao plano quinquenal”, o que leva o leitor a se perguntar o que haverá de “tecnocrático” ou juscelinista em preparar-se bem, dar atenção à tática ou levar psicólogos a uma Copa do Mundo.
As associações aleatórias vão se sucedendo. Na descrição da decepção de Cruyff com a violência da Holanda em 2010, topamos com isto: “O paralelo político era inevitável. Depois de setembro de 2001, a Holanda experimenta a ascensão de uma extrema direita anti-islâmica…”. E o leitor pensa: o que raios tem a ver o pontapé do meio-campista holandês Nigel De Jong no peito do espanhol Xabi Alonso, no final da Copa de 2010, com a ascensão da extrema direita? O que há de “inevitável” nesse paralelo?
Sobre a Copa de 1978, misturam-se os fatos reais (como a utilização propagandística da vitória da Argentina pela ditadura em curso no país e a visita do ditador Videla ao vestiário do Peru) com as teorias conspiratórias. Entre essas, inventam-se inexistentes benefícios de arbitragem à Argentina, de um suposto pênalti que os franceses nem sequer reclamaram até a ficção da conivência do italiano Sergio Gonella com uma suposta “cera” na final, teoria que não se sustenta à luz de uma revisão do jogo.
O modelo “poder determina a glória” permite que a sanguinária ditadura seja usada para desqualificar os méritos da notável equipe argentina do técnico Menotti, formada em grande parte por vítimas ou opositores do regime. Luque foi sequestrado, Fillol foi ameaçado com revólver para renovar contrato e Tarantini teve a coragem de interpelar o ditador Videla e perguntar pelos desaparecidos.
Só ignorando esses fatos e distorcendo o que aconteceu em campo é possível dizer que “a distinção entre a seleção nacional argentina e a junta [grupo militar que comandava a ditadura imposta em 1976] era extremamente difícil de sustentar,” uma das passagens mais lamentáveis do livro.
A partir de uma situação de conforto, julgam-se figuras que se comportaram dignamente com frases abomináveis, do tipo “Menotti ajudou a junta” —por oposição ao fato histórico “a junta se apropriou do sucesso de Menotti,” coisa bem distinta.
A desqualificação de Wilson (essas, sim, muito justas) das reclamações dos italianos pelo alegado roubo que teriam sofrido na Coreia, em 2002 —”as acusações parecem dizer mais sobre aqueles que a fazem do que sobre o incidente em si”—, aplica-se na verdade ao que diz o próprio Wilson sobre 1978.
O livro irritará os historiadores, que exigem que a política seja narrada sem generalizações tão vagas, e os boleiros, que tendemos a preferir que o jogo seja explicado pela dinâmica interna do próprio jogo.
Há, sim, material de qualidade sobre futebol no livro de Wilson. E há, claro, mérito em escrever sobre os fatos de que a Copa da África do Sul, em 2010, gerou uma conta estratosférica para os anfitriões, e a de 2014, no Brasil, deixou um legado de elefantes brancos superfaturados.
O problema é ver essa relação como um vetor unilateral em que a política é sempre a chave explicativa, e o futebol é sempre o epifenômeno que “espelha” algo dado de antemão pela política. O futebol, que Wilson conhece tão bem, merecia mais.
Aqui, o contraste com “Mundiales”, de Biram e Vickery, fica nítido. Biram, especialista em estudos hispânicos, se encarrega das seções hispanas. Vickery, conhecedor do futebol brasileiro, escreve sobre a participação do Brasil nas 22 Copas. Como não poderia deixar de ser, Pelé é o centro a partir do qual se narram as histórias pregressa e posterior. O afro-uruguaio Andrade, que encantou Paris em 1924, recebe a centralidade merecida na era pré-Pelé. Maradona e Messi dominam a era pós-Pelé.
Em “Mundiales” há, sobretudo, muito futebol. Aqui, sim, o leitor sai com a sensação de que os autores reviram os jogos. Sobre 1978, o contraste com o livro de Wilson é gritante. Sem ignorar o horror político, os autores dão o devido crédito ao time de Menotti, de tabelas rápidas, variações táticas e profundo reencontro com a tradição futebolística do país, agora com velocidade e intensidade desconhecidas na era clássica de “La Nuestra”.
Sobre a Copa de 1950, Vickery lembra que o favoritismo do Brasil contra o Uruguai é uma construção influenciada pelos posteriores cinco títulos do Brasil e pela seca do Uruguai, e pelos sete dias anteriores ao jogo, em que massacramos Suécia e Espanha.
Mas Vickery aponta bem que o Uruguai havia batido o Brasil por 4 a 3 no Pacaembu dois meses antes, e que o histórico entre as duas seleções nos anos 1940 era equilibrado. Se o Uruguai acabara de nos derrotar em território brasileiro, como nos convencemos de que éramos favoritos? Qual é o mecanismo pelo qual essa soberba se alterna em nós com a autodepreciação?
Vickery não se esquece do famigerado empilhamento de discursos políticos a que os jogadores foram submetidos, mas o destaque é a análise do jogo, feita em detalhe. Há uma ligeira imprecisão no capítulo.
Não é verdade que o Uruguai tenha jogado a final de 1950 no WM [esquema tático 3-2-2-3, com três zagueiros, dois volantes, dois meias e três atacantes]. Múltiplas fontes, Zizinho incluído, confirmam que Matías González era um “beque recuado,” em formação parecida com o velho 1-3-3-3 de Karl Rappan. Exatamente o esquema utilizado pela Suíça no 2 a 2 do Pacaembu.
O Brasil, sim, atuou no WM, como bem mostra Vickery. Teria sido interessante ressaltar que o Brasil não jogou os anos 1940 com esse esquema, e sim em uma variação dele, a diagonal, sistema não mencionado no livro.
Isso é importante porque, na diagonal, o quadrado do meio é substituído por um paralelogramo em que um lado é mais avançado que o outro —razão pela qual Danilo, com cacoete da diagonal pela esquerda, jogou mais avançado que Bauer, deixando atrás de si o latifúndio que o ponta-direita uruguaio Ghiggia explorou para fazer o cruzamento do primeiro e marcar o segundo gol da vitória por 2 a 1 sobre o Brasil.
A oscilação entre uma estrutura simétrica e uma estrutura torta também é a chave para entender o Brasil de 1982 —e aqui Vickery conta a história completa. O capítulo fala com carinho daquele time inesquecível. Registra a legião de fãs que ele deixou pelo mundo. Cita o verdadeiro poema em prosa dedicado a ele pelo argentino Ángel Cappa: “O povo olhava o relógio com a intenção de deter o tempo porque queria que a partida durasse para sempre”.
Mas não há idealização, porque o livro detalha o problema tático, o vazio da ponta-direita, causado pela retirada de Paulo Isidoro para a entrada de Falcão, que, já jogando na Roma, não havia participado da era Telê Santana antes da Copa (as datas Fifa, em que os clubes são obrigados a ceder jogadores para as seleções, são uma invenção posterior).
O quadrado que deu ao mundo algumas das mais maravilhosas trocas de passes da era moderna (Cerezo, Falcão, Zico, Sócrates) também forçava um revezamento que não conseguiu preencher o buraco à frente do lateral direito Leandro. Sim, Jô Soares (“Bota ponta, Telê!”) estava certo. Vickery também merece crédito por registrar o que ele chama de “um dos maiores ‘e se’ da história do futebol”: a ausência de Reinaldo, pelo conservadorismo político e comportamental de Telê.
Em seções escritas por Mark Biram, reaparecem as associações aleatórias que vimos no livro de Wilson. As pancadas dadas pelo Brasil na Colômbia, em 2014, “espelhavam […] a fúria pública que encontrava seu alvo mais fácil em Dilma”. O pragmatismo da seleção de Lazaroni, em 1990, “espelhava” (sempre esse verbo) “as mudanças na paisagem política do Brasil”. Essas associações vagas podem ser feitas entre qualquer time e qualquer contexto político. É melhor evitá-las.
Mas recomendo, sim, “Mundiales”, com toda ênfase. Especialmente nos textos de Vickery, apesar de uns errinhos factuais (como a menção a “um” título mundial do São Paulo de Telê, quando foram dois, ou a inclusão de Éder na Copa de 1986), nota-se uma combinação entre imersão afetiva e distanciamento crítico que é rara.
Dirigindo-se a um público de língua inglesa, Vickery explica bem uma especificidade brasileira que eu próprio já me vi em maus lençóis para explicar: a inexistência de alternativas entre ganhar a Copa ou perder a Copa, como se fosse, a metáfora é de Vickery, um cara ou coroa no qual só há dois resultados possíveis.
O distanciamento crítico permite a Vickery ver regularidades normalmente não observadas por brasileiros. Podemos até perceber que se escolheu o pragmatismo de Lazaroni como reação ao romantismo ofensivo de Telê. Podemos até perceber que se escolheu o autoritarismo disciplinador de Dunga como reação aos pagodes e bagunças televisionadas de 2006.
Mas conversamos pouco sobre o fato de que a reação mecânica ao ciclo anterior tem sido o nosso padrão. Se o trabalho de Ancelotti não levar ao título ou a uma Copa empolgante, a conversa será sufocada pelos gritos de “técnico estrangeiro não serve”?
O balanço das duas obras pode ser resumido, então, em três conclusões. Temos, pela primeira vez, uma história das Copas do Mundo escrita do ponto de vista do continente sul-americano, que já nasce clássica.
Não há um arcabouço fixo que permita a escrita de uma história das Copas do ponto de vista das relações entre futebol e política, e as analogias vagas não conseguem mascarar esse fato.
E a história das Copas do ponto de vista das táticas continua, como desafio para os pesquisadores, ainda por ser escrita.
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IDELBER AVELAR
Professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane (EUA) e autor de “Eles em Nós: Retórica e Antagonismo Político no Brasil do século XXI” (Record, 2021). Coapresenta o podcast “Meio de campo: o futebol e sua história” no canal Meio
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