13/04/2024 - Edição 540

True Colors

O crime da omissão

Publicado em 05/12/2014 12:00 - Guilherme Cavalcante

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Todo dia conta com altos e baixos, a coisa tende a ser equilibrada. Mas alguns baixos nos deixam bem mal. Militância LGBT é um ato de luta pela diversidade e pela igualdade, respeitando as diferenças, não é? Ao menos, deveria ser. Mas quando eu abro o Facebook, um “companheiro” de luta está comparando Clodovil com Jean Willys. Aliás, não só comparando, mas defendendo Clodovil.

Darling, please!

Existem momentos em que já não há estrutura emocional para se manter paciente e cordial com as pessoas que, envolvidas em um mesmo projeto, destoam tão agressivamente da ideologia que tentamos defender. Já tinha um tempo que eu trocava farpas com essa pessoa, que via de regra soberaniza em seus posts o gay com aparência de heterossexual.

Diante disso, o que fazer? Manter mais uma vez o silêncio pelo bem das relações ou mostrar ao sujeito onde está o erro? Ah, meu amigo, já faz tempo que não cometo o crime da omissão. Vamos fazer isso direitinho… Pior que um militante LGBT com ideias higienistas (do tipo que defende que “bicha boa é bicha discreta”) é o gay que se cala diante da opressão. Palavras, pra que te quero!

Comecei dizendo que essa postura assusta e depois explique porquê. Dei uma aulinha sobre sexualidade, não muita coisa, apenas o que todo militante LGBT deveria saber se não se achasse muito superior a um livro de filosofia. Diferentemente do que diz o senso comum, sexualidade é tudo. É existir, é legitimar-se enquanto ser humano. É expressar suas vontades, seus desejos, suas atitudes, sua identidade. E como toda identidade, se trata de uma performance, algo que se ratifica no dia a dia, no agir, no fazer, no ser, no simples ato de ir à padaria comprar pão.

Militância LGBT é um ato de luta pela diversidade e pela igualdade, respeitando as diferenças, não é? Ao menos, deveria ser.

Sexualidade é uma mistura entre cultura, educação, da própria personalidade e das próprias circunstâncias emocionais, algo que não se restringe aos órgãos e ao ato sexual, mas que se estende aos desejos, às fantasias, aos impulsos. Não é, portanto, algo que se deixe na cama. Deixar a sexualidade na cama, por sua vez, é inexistir. É invisibilizar-se. É aceitar a condição de subsistência que a sociedade nos impõe. Não é e nem pode ser o discurso de um militante LGBT.

Utilizo esta história apenas como ponto de entrada de uma discussão. A situação descrita, mais comum do que se pensa, é apenas um dos desafios diários do movimento LGBT. Não sei se cabe o termo, mas há muita desonestidade intelectual nesse meio, que muitas vezes se torna uma briga de egos sem fim. Mas para vencer um debate, é preciso sustentar as ideias (não foi o caso, felizmente).

Este companheiro é só mais um de milhares que arbitrariamente dispensam o suporte teórico para o ato da engenharia social, o que é uma pena. Para entender melhor: quando defendemos o direito e o respeito à identidade de gênero de uma travesti ou de um transexual, não queremos simplesmente empurrar isso goela abaixo da sociedade. Estamos reproduzindo, por outros meios, os estudos e discussões de décadas que subsidiam nosso autoconhecimento e que nos municia na luta contra a desigualdade. Nada disso é invenção.

Pensem bem: como haveria a Revolução Francesa sem os autores do iluminismo? O que seria do feminismo, por exemplo, se jamais tivessem lido Simone de Beauvoir???? O que seria do socialismo sem Karl Marx?

Sexualidade é uma mistura entre cultura, educação, da própria personalidade e das próprias circunstâncias emocionais, algo que não se restringe aos órgãos e ao ato sexual.

No nosso caso, alguém disse que Deus condena os gays, uma mentira que se alastrou pelo globo há milênios. E com base no conhecimento, estamos a duras penas tentando provar o contrário, é a ciência contra o dogma. E ainda assim vem gente dar opinião sem se dedicar 3 minutos a pensar sobre o que anda escrevendo. Isso me deixa esgotado emocionalmente, para ser muito franco.

Se o movimento LGBT chegou até este ponto, não foi por conta de uma guerra de paus e pedras. A ciência teve sua contribuição (e continua tendo) e por isso conhecer a teoria para ajustar e saber sustentar os discursos não é mais que a obrigação de todo mundo que anda por aí com um broche do arco-íris no peito. Da mesma forma, se a academia insiste nestes estudos e defende a relevância deles, é porque há bom uso dessas informações pelos que, no dia a dia, dedicam a vida ao combate à opressão.

Quer dizer, são trabalhos diferentes que ao serem somados resultam num motor de transformação social. Nenhum deles é superior ao outros, são atividades que só têm sentido de existirem se forem complementares.

Arrogância e preguiça intelectual não combinam com o ativista LGBT, da mesma forma que sentimento de superioridade não deveria integrar o perfil do pesquisador. o importante é que cada um faça a sua parte e use o que tiver para desmistificar os mitos que nos oprimem, como essa ideia ridícula de que homem é mais forte que a mulher.

A causa é nobre e merece muito mais que preconceito camuflado de frases de impacto.

 

SBT na contramão

Uma telenovela que está sendo exibida no canal SBT está surpreendendo na cara de pau. Um casal gay da trama foi redublado no Brasil para parecerem dois garanhões heterossexuais.

Sortilégio, que costuma ir ao ar por volta das 16h diariamente, de segunda a sexta, conta com os personagens Ulisses e Roberto, bissexuais que mantêm um caso, mas que possuem namoradas. A direção do SBT, no entanto, achou melhor disfarçar isso e em sua dublagem, suprimiu os diálogos que denunciam a relação dos dois e cortou cenas românticas entre eles.

Segundo o SBT, a justificativa para a “adaptação” é a classificação indicativa, que supostamente proibiria a telenovela de ser exibida às 16h se as cenas originais fossem respeitadas. No entanto, a classificação indicativa jamais considerou conteúdo homossexual como inadequado para qualquer faixa de horário.

Curioso, no entanto, é que os personagens principais da trama Alessandro e Maria José, protagonizam cenas tórridas de sexo, estas sim passíveis de classificação indicativa. Santa hipocrisia, SBT!

 

Rupaul’s Drag Race season 7

Finalmente foram reveladas as draga queens participantes da sétima temporada do reality show mais assistido pelos gays mundo a fora: Rupaul’s Drag Race 7 contará com 14 drag queens dos mais diferentes estilos na disputa pela coroa e pelo prêmio em dinheiro, que costuma ser de 100 mil dólares.

Infelizmente, a Logo (canal onde o programa é originalmente exibido nos EUA) impede a reprodução de seus vídeos por streaming no Brasil. Quem quiser conhecer as 14 participantes pode clicar AQUI e baixar os 14 vídeos (já legendados) ou ficar ligado na comunidade All Rupal no Facebook.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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