02/12/2023 - Edição 525

Povos da Terra

Nestes 50 anos, violência contra indígenas tornou-se um combate cotidiano, diz Cimi

Conselho ligado à CNBB criado em 1972 no combate à ditadura pede perdão aos povos indígenas pelos “pecados da colonização”. E agradece a graça de acompanhar suas lutas em cada ato de resistência

Publicado em 28/11/2022 10:09 - Cida de Oliveira - RBA

Divulgação Apib

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A violência contra os povos indígenas intensificou-se e tornou-se um combate cotidiano contra seus espaços, terras, florestas que as recobrem, a vida que pulsa em todas as suas expressões. Em nome de um projeto desenvolvimentista e de uma acumulação sem precedentes, devastam-se os territórios. Incendeiam-se as matas, exterminam-se os animais, contaminam-se as fontes de água. Profanam-se os espaços sagrados, perfura-se o corpo da terra-mãe em busca de minérios.

Essa situação que chama atenção do mundo e se agravou nos últimos quatro anos, com o governo de Jair Bolsonaro (PL), está no balanço do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O órgão celebrou seus 50 anos em evento em Luziânia (GO), nesta semana.

“Depois de 50 anos, o horror não passou. Lembramos do ocorrido na área indígena Tanarú, onde o seu último sobrevivente, depois de encontrado morto, teve seu corpo vilipendiado. Que sua terra seja demarcada e protegida, em memória do martírio desse povo”, diz trecho do manifesto.

O conselho se refere ao Índio Tanaru, visto pela primeira vez por homens brancos em Rondônia, em 1996. E que em agosto, após 26 anos, foi encontrado morto em seu território, em sua rede de dormir. Vivia sozinho e isolado na floresta. Morreu como o último homem de seu povo. As buscas por ele começaram após madeireiros relatarem sua existência, morando em uma cabana, entre os municípios de Chupinguara, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste.

Exploração de madeira e ataques aos povos indígenas

Segundo a Funai, os últimos parentes foram mortos em 1995. Desde 1980, os indígenas que viviam na Terra Indígena Tanaru, com 8.070 hectares, foram vítimas da colonização desenfreada, da abertura de fazendas e da exploração ilegal de madeira. Houve sucessivos ataques aos povos isolados, com mortes e expulsão dos indígenas de suas terras.

Não se sabe o que os impediam de se reproduzir. Mas é fato que desde 1980 os indígenas que viviam ali foram vítimas da colonização desenfreada, da instalação de fazendas e da exploração ilegal de madeira. Isso levou a sucessivos ataques aos povos isolados que viviam na região e resultaram em mortes e na expulsão dos indígenas de suas terras.

O órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi criado em 1972, oitavo ano da ditadura civil-militar. Era uma época que aflorava a ideologia desenvolvimentista e autoritária. E com ela pairava no horizonte o extermínio e a integração compulsória como destino para os povos indígenas.

Como lembra o conselho, em 25 de setembro daquele ano foram inaugurados os primeiros 1.254 quilômetros da rodovia Transamazônica (BR-230), cujo traçado atingiu mortalmente 29 territórios indígenas. Pela TV, o evento foi festejado como um dos esteios do “milagre brasileiro”. Na mesma época, a denúncia de uma “Biafra brasileira” no Vale do Guaporé percorreu a imprensa internacional.

Missionários pedem perdão aos povos indígenas

O traçado da BR-364, de Cuiabá a Porto Velho, atravessou o coração do território Nambiquara. Isso causou a contaminação por sarampo e a morte de todas as crianças e jovens menores de 15 anos. Esse foi um entre tantos outros genocídios e crimes praticados nos anos de autoritarismo.

Olhando para os últimos 50 anos – e os mais de 500 desde a invasão dos portugueses –, o Cimi perde perdão aos povos originários. “Em nome da nossa Igreja, perdão aos povos indígenas pelos pecados da colonização da qual participamos ao longo desses mais de 500 anos”, afirma o conselho em manifesto divulgado no final do evento.

Ao mesmo tempo, o órgão manifesta gratidão a esses povos, pela caminhada compartilhada. “Ao mesmo tempo, agradecemos aos povos originários a graça pascal de acompanhar suas incansáveis lutas, sustentadas nas ancestralidades e na certeza de que há outros mundos possíveis. A esperança que se renova em cada luta, em cada movimento, em cada ato de resistência dos povos e comunidades indígenas é facho de luz, que ilumina e orienta também a nossa missão.”

Por isso o Cimi renova seu compromisso de seguir em defesa desses povos. “Junto a esses corpos ancestrais de sonhadores e lutadores indígenas, num caminhar contínuo, esperançoso, compartilhado, solidário, comprometido com o Bem Viver e com a construção de um outro mundo possível.”

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Equipe Semana On

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