22/07/2024 - Edição 550

True Colors

Não há nada de novo sob o sol

Publicado em 11/03/2016 12:00 - Guilherme Cavalcante

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"Odeio história de bicha. Pode existir, pode aceitar, mas não transformar em aula pra crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um puta orgulho porque são todos macho pra cacete".

A frase foi proferida pelo autor de novelas Benedito Ruy Barbosa, uma grande referência da TV Globo, responsável por tramas como 'Rei do Gado', 'Renascer' e, mais recentemente, 'Meu Pedacinho de Chão'. E a Globo, vale lembrar, é a maior produtora de telenovelas do mundo. A máxima foi proferida semana passada, durante a festa de lançamento de 'Velho Chico', a nova novela das nove, e deixa bem claro o quanto a emissora realmente (não) se importa com a diversidade. Sim, porque se fizesse o dever de casa direitinho, orientava seus funcionários a seguirem um padrão, pelo menos na frente das câmeras.

Na ocasião, a filha de Ruy Barbosa, Edmara Barbosa, também uma das autoras de 'Velho Chico', estava ao lado dele. E segundo o relato da matéria que trouxe a polêmica frase, ficou visivelmente constrangida com as declarações do pai.

"Deixa eu falar, ué. É a minha opinião", disse o autor, quando a filha pediu que parasse de falar. E continuou: "Não sou contra, não acho errado. O que acho é que quando eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo. Tenho que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja, porque eles não sabem explicar, não sabem como colocar. Muita gente reclama disso para mim. O que não é justo é você transformar: só é normal o cara que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é sapatona é perfeita, a que não é sapatona não é legal. É assim que estamos vivendo", afirmou.

Não é, não, Benedito. Primeiro, que não existe mais audiência de 80 milhões, esse tempo já passou, e nesta nova era as novelas trazem, sim, homossexuais. Segundo, que se os pais não sabem explicar a diversidade aos filhos, é problema deles, porque a vida vai ensinar, de uma forma ou de outra. E terceiro, nenhuma novela da TV Globo trouxe até hoje um personagem homossexual como algo normal, sempre acontece alguma coisa, sempre sofre alguma violência, deixando bem claro que a natureza daquele personagem vai de encontro com os ditames sociais. Não há nada de normal, quem dera fôssemos retratados assim.

E para além disso, muito me admira uma trama que tem como subtema a Tropicália jogar a diversidade para baixo do tapete. Ora mais, o que é a telenovela se não uma reprodutora da realidade? É claro que, neste processo, ela acaba criando uma proposta que às vezes é pouco verossímil, mas até hoje, também, nenhuma telenovela da Rede Globo mostrou algo 'subversivo' sem que a ocorrência já seja um fato social. Exemplo: divórcio, isso só passou na TV depois que virou lei. Quer mais um? Beijo gay: mesmo sendo vetado várias vezes na emissora, só passou quando o movimento LGBT era fortalecido e já se via bicha beijando na rua, apesar das lâmpadas. E por fim, desde quando conteúdo pró-diversidade é inadequado para crianças? No Manual da Nova Classificação Indicativa traz-se justamente o contrário.

Não quero problematizar a alfinetada de Agnaldo Silva, outro novelista, porém homossexual assumido e estranhamento conservador. Mas, vale o registro, para fins de diversão. Disse ele no Twitter: "'Odeio história de bicha', proclamou Benedito Ruy Barbosa. Isso teria a ver com alguma traumática história de sofá em priscas eras?". E completou. "Sem essa de boicotar 'Velho Chico', sou contra. Afinal, a sobrevivência financeira de 3 gerações da família Ruy Barbosa depende dela".

Risos.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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