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Povos da Terra

Mortes entre Yanomamis caem 21% em 2024

Redução de óbitos por desnutrição, malária e infecções respiratórias reflete aumento de profissionais de saúde, vacinação e reabertura de polos médicos em território indígena

Publicado em 19/05/2025 5:01 - Ava Rory

Divulgação Igor Evangelista - MS

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Após anos de colapso sanitário e abandono estatal, o território Yanomami registra em 2024 a primeira melhora significativa nos indicadores de saúde desde o início da emergência pública. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de óbitos entre os Yanomamis caiu 21% em relação a 2023 — passando de 428 para 337 mortes. A redução ocorre após o reforço de equipes médicas, aumento das ações de vacinação e reestruturação da infraestrutura de atendimento, incluindo a reabertura de unidades de saúde antes desativadas por conta da insegurança provocada pelo garimpo ilegal.

As informações fazem parte do 7º Informe do Centro de Operações de Emergências (COE) e indicam que a maior queda percentual se deu nos casos de infecções respiratórias agudas (menos 47%), seguidas por malária (redução de 42%) e desnutrição (20%). Esses dados, embora positivos, ainda retratam uma situação crítica, e especialistas alertam que a recuperação plena da saúde indígena exige persistência estrutural.

“A ação conjunta de todo o governo federal garantiu o combate necessário e permitiu que os profissionais de saúde pudessem entrar em aldeias e cuidar da população. Mais que dobrou o número de profissionais de saúde dentro do território”, declarou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Avanço na assistência e presença ampliada de profissionais

Um dos pilares para a reversão do quadro foi a ampliação da presença de equipes de saúde. De acordo com o ministério, o número de profissionais atuando nas terras Yanomami aumentou 158% entre o início de 2023 e 2024 — passando de 690 para 1.781 agentes. Essa mobilização viabilizou o retorno das atividades em sete polos base que haviam sido fechados por razões de segurança, em função da atuação de garimpeiros armados. Até abril de 2024, todos os polos reabriram, beneficiando diretamente 5.224 indígenas.

As unidades reativadas estão localizadas em Kayanaú, Homoxi, Hakoma, Ajaraní, Haxiú, Xitei e Palimiú. Esses polos representam o primeiro ponto de contato da população Yanomami com o sistema público de saúde e são essenciais para atendimento primário, vacinação e monitoramento nutricional.

Vacinação em alta: salto de 65% nas doses aplicadas

Outro dado relevante diz respeito à cobertura vacinal. Em 2024, foram aplicadas 53.477 doses de vacinas de rotina, um aumento de 65% em relação a 2023, quando foram aplicadas 32.352 doses. A ampliação faz parte do plano de ação dentro da Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional Yanomami, declarada pelo governo federal no início de 2023 diante da situação de calamidade.

Essa resposta emergencial tem buscado conter doenças antes controladas, como sarampo, além de proteger a população contra infecções respiratórias e gastrointestinais — causas comuns de mortalidade entre crianças indígenas.

Desnutrição: melhora lenta, mas contínua

O relatório também aponta uma redução na desnutrição grave entre crianças menores de cinco anos, cuja prevalência caiu de 24,2% em 2023 para 19,2% em 2024. O número de crianças com baixo peso teve leve aumento, o que, segundo o Ministério da Saúde, indica uma migração positiva do quadro de desnutrição grave para moderada, com aumento no percentual de crianças em faixa de peso adequada, que hoje representa 50% da população infantil Yanomami.

“A recuperação nutricional em crianças é um processo mais lento e complexo, principalmente nos casos mais graves, podendo levar anos até a normalização do peso e o fortalecimento do sistema imunológico”, explicou o secretário de Saúde Indígena, Weibe Tapeba, também membro da etnia Tapeba e primeiro indígena a ocupar o cargo.

A redução geral das mortes se refletiu tanto nos óbitos evitáveis — que passaram de 179 em 2023 para 132 em 2024, uma queda de 26% — quanto nos não evitáveis, que caíram de 249 para 205 (-17,7%). Essa distinção é importante porque indica não apenas a melhoria da resposta clínica, mas também avanços em prevenção, diagnóstico precoce e logística de atendimento, áreas historicamente deficitárias na região.

Crise humanitária e avanço do garimpo

A crise no território Yanomami, que ganhou repercussão internacional em 2023, foi agravada por anos de negligência estatal, desmonte da política indigenista e avanço descontrolado do garimpo ilegal, especialmente durante o governo de Jair Bolsonaro. Estimativas da Hutukara Associação Yanomami indicaram que mais de 20 mil garimpeiros ilegais invadiram o território, contaminando rios com mercúrio, destruindo florestas e introduzindo doenças entre comunidades isoladas.

Em relatório publicado naquele ano, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou para o risco iminente de genocídio por omissão. O cenário foi comparado por lideranças indígenas a uma “epidemia silenciosa” com impacto devastador sobre a saúde física e emocional dos povos originários.

Desafios persistem, mas indicadores apontam retomada

Apesar da melhoria nos indicadores, a situação do território Yanomami ainda exige atenção contínua e investimentos permanentes. Especialistas em saúde indígena, como a pesquisadora Ana Lúcia Pontes, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, têm alertado que ações pontuais não são suficientes: “É preciso fortalecer o subsistema de saúde indígena como política de Estado, com presença contínua, respeito aos saberes tradicionais e segurança territorial”, afirmou em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias (2023).

Com as novas ações implementadas, o governo federal aposta em uma inflexão na trajetória de abandono. A queda nas mortes, a ampliação da vacinação e o retorno dos serviços básicos indicam que é possível reverter anos de negligência — mas será necessário garantir que essa resposta não se limite à emergência, e sim à reconstrução estrutural e cultural da atenção à saúde indígena no Brasil.

AVA RORY

É sociólogo e indígena da etnia Guarani e Kaiowá.

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Ava Rory


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