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Saiba como educar crianças e adolescentes para respeitar os animais
Publicado em 05/02/2026 4:17 - DW e Agência Brasil
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A brutal morte de Orelha – cachorro comunitário da Praia Brava, em Florianópolis (SC) assassinado por um ou mais adolescentes – chamou a atenção para as redes virtuais globais que incitam a tortura de animais, inclusive no Brasil. Elas são parte de um submundo maior, em que a adoção de comportamentos radicais vira símbolo de status não só entre adultos, mas também entre crianças e adolescentes.
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Sobre o cão Orelha, a primeira-dama, Janja da Silva, disse: “É um alerta doloroso sobre uma geração exposta, desde cedo, a discursos e conteúdos digitais que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento.”
Por ora não há indícios de que os supostos autores das agressões contra Orelha e Caramelo tivessem conexão a estas redes.
Para especialistas, entretanto, o caso de Santa Catarina reforça a necessidade de famílias e instituições educarem a juventude sobre os direitos dos animais, protegendo-as da cooptação por ambientes virtuais maliciosos.
Uma das práticas incitadas por estas comunidades virtuais é o zoosadismo, que se dá quando uma ou mais pessoas ferem ou torturam um animal por prazer, sexual ou de outra natureza. Isso pode significar, por exemplo, maltratar um bicho pelo divertimento próprio ou de terceiros, se a agressão for filmada e compartilhada na internet.
“A violência contra animais é só uma parte de um contexto mais amplo, de um conjunto de comportamentos que funcionam como marcadores de processos de radicalização e de perda da noção das consequências no mundo real,” explica o procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, nas redes sociais do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS).
O MPRS mantém um projeto de prevenção da radicalização e violência extrema entre menores de idade.
Negócio lucrativo
Ao redor do mundo, veio à luz nos últimos anos não só que o zoosadismo prolifera em fóruns próprios, como também que há quem lucre com eles. Em 2023, uma investigação da BBC revelou uma rede global de práticas sádicas contra macacos, que se estendia da Indonésia aos Estados Unidos.
De acordo com a reportagem britânica, centenas de clientes nos EUA, Reino Unido e outros países pagavam indonésios para filmar enquanto torturavam e matavam filhotes de macaco-de-cauda-longa.
Já no ano passado, a CNN mostrou que estes grupos vinham expandindo seu alcance não só ao redor do mundo, como também migrando para plataformas mais conhecidas, tais como Telegram, X e YouTube . Em particular, o canal americano expôs uma comunidade dedicada a mutilar, torturar e matar gatos para ganhar dinheiro, adotando técnicas de extrema violência.
Três meses depois, no Reino Unido, dois adolescentes foram presos por torturar e matar dois filhotes de gato, que foram encontrados mutilados numa área verde de Londres.
Críticas às plataformas
Organizações de defesa de animais vêm chamando atenção à disseminação destas redes na internet, pedindo às plataformas que aumentem o controle sobre este tipo de conteúdo.
As publicações chegam a reunir várias dezenas de milhares de visualizações, com usuários sugerindo ou encomendando ainda mais crueldade. A notoriedade dentro do nicho se torna uma recompensa para abusadores e exporta o modelo dos vídeos para outros países.
Uma coalizão internacional de 45 organizações dedicada ao tema afirma ter recebido denúncias de mais de 80 mil links por suspeita de abuso animal em 2024. A análise de uma amostra de 2 mil links mostrou que os conteúdos retratavam mil indivíduos de 53 espécies, sendo mais comuns os macacos, gatos e cachorros. Pelo menos 108 animais eram de espécies ameaçadas, como orangotangos, gorilas e chimpanzés.
Segundo a coalizão, apenas 36% da amostra havia sido removida pelas plataformas. O Facebook e o Instagram, ambos da Meta, hospedavam quase nove a cada dez conteúdos denunciados.
Em 2023, na esteira da denúncia da BBC sobre a tortura de macacos na internet, o Reino Unido determinou que as plataformas removam este tipo de conteúdo, sob risco de multas de até 18 milhões de libras esterlinas (R$130 milhões) ou 10% da sua receita anual global.
Crime passível de prisão no Brasil
O Conselho Federal de Medicina Veterinária define “maus-tratos” contra animais como qualquer ato que provoque dor ou sofrimento desnecessários, incluindo por negligência ou imprudência. Já “crueldade” ou “abuso” preveem intenção do agressor.
Maltratar animais é crime no Brasil, podendo ser punido com penas que variam de três meses a um ano de detenção. No caso de cães e gatos, a pena é maior desde 2020, com reclusão de dois a cinco anos.
Mas ativistas se queixam de que as punições por maus-tratos contra animais silvestres são frequentemente revertidas em medidas alternativas. Uma campanha do ano passado, que contou com a ativista Luisa Mell e o cantor Ney Matogrosso, pediu que estes crimes sejam equiparados aos contra cães e gatos.
Um levantamento de dados do Conselho Nacional de Justiça (CNS) realizado pelo jornal O Globo mostrou que desde 2021, na esteira da introdução da punição para violência contra cães e gatos, houve salto de 1.400% nos processos por maus-tratos de animais no Brasil.
A terça-feira (27/01) foi o dia de infortúnio de outro cachorro comunitário, o Abacate. Morador de Toledo, no Paraná, ele foi baleado intencionalmente e teve o intestino perfurado. O animal morreu na mesa de cirurgia veterinária, e a polícia investiga o caso.
Saiba como educar crianças e adolescentes para respeitar os animais
O instituto Ampara Animal, que atua há 15 anos promovendo ações de cuidado, discussões públicas e apoio a abrigos e centros de adoção em todo o país, começará, nos próximos dias, a campanha “Quebre o Elo”, que chama a atenção para a gravidade da violência.
A organização parte do pressuposto de que a violência com animais pode ser reflexo de outras às quais o praticante está exposto, sejam direcionadas a si ou a pessoas de seu convívio. Além disso, é um importante indicador da possibilidade de outras violências, principalmente contra grupos mais vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos.
“Temos que tentar ensinar saindo de uma visão e uma educação antropocêntricas. A Ampara sempre entendeu que a educação é o caminho para transformar em melhor a vida dos animais, principalmente quando voltada a crianças e adolescentes”, disse Rosângela Gebara, diretora de relações institucionais da Ampara.
Ela explicou que esse modelo é chamado de ‘educação humanitária em bem-estar animal’ e considerada uma solução para criar uma sociedade mais empática, com menos violência e com maior respeito.
Para Rosângela, essa aproximação tem que ser feita de forma gradual, sempre ensinando a criança a ser gentil com os animais, a respeitar o tempo e o comportamento de cada espécie, de preferência levando-a para ver os animais na natureza ou em locais que têm relação maior com o ambiente e modos de vida naturais. O desenvolvimento da empatia, defende, requer a interação com animais e ajuda a criança a entender os sentimentos e as necessidades do outro, o respeito e a reduzir comportamentos de violência e intolerância.
Quebrar a perspectiva do animal como um objeto ou um produto é outro passo importante. Viviane Pancheri é voluntária há 15 anos na ONG Toca Segura, que cuida de cerca de 400 animais em um abrigo no Guará II, no Distrito Federal (DF), e em uma unidade maior na cidade do Novo Gama, em Goiás. O Toca desenvolveu por anos uma iniciativa direta em escolas do DF.
“É importante que as crianças tenham a percepção de que os animais sentem medo, abandono, felicidade, enfim, que são sencientes [ indivíduos capazes de sentir, perceber o mundo e vivenciar emoções]”, explica.
No abrigo, recebem famílias, que ajudam como voluntárias, pontualmente ou com maior periodicidade. Lá realizam o que chama de educação empática, mostrando ao outro como o cuidado e a atenção são importantes. A partir daí, trabalham valores e a forma como as crianças percebem o cuidado, já no convívio com os cães da Toca.
Essa interação é sempre pensada com bastante cuidado, tanto para acolher a criança quanto para não expor os animais a estresse ou alguma violência.
“Lidamos com animais que já passaram por situações de abandono e de violência. Alguns passaram privações, outros têm um pouco mais de dificuldade, são mais arredios”, afirma Viviane.
Para promover esses momentos de troca, uma das estratégias que adotaram foi promover pequenos eventos. Entre eles estão os domingos de passeio. Voluntários pegam um animal e o levam para um passeio. Rápido, breve, mas importante, pois acostuma os animais com a presença humana, os torna mais dóceis e isso ajuda na busca por famílias para adoção. Crianças que atuam nesses eventos também desenvolvem a interação com os animais.
“Um caso que sempre gosto de contar é o de uma menina que começou a nos ajudar aos 15 anos. Ela tinha medo de cachorro e nos procurou para perder esse medo. Não demorou muito e já conseguia fazer uma série de tarefas de cuidado. Hoje é veterinária”, conta, emocionada.
Os voluntários também apoiam as feirinhas de adoção, mantendo os animais limpos e hidratados. No Toca, essa função é realizada principalmente por adolescentes. Esse tipo de ação leva a acostumar com o trato comum e a importância que a rotina tem para os animais.
“É parecido com o cuidado com os animais comunitários. O exemplo é importante. Se tem um vizinho ou parente que tem um animal, é recomendado levar a criança para conhecê-lo. Ela aprende muito com o exemplo”.
Segundo Viviane, para as crianças maiores e adolescentes, existe a questão da responsabilidade.
“É trazer esses animais para perto, mostrar a importância de ter esse cuidado, de forma supervisionada. Não deixar a criança solta, dizendo olha, isso é errado, isso se faz desse jeito. A supervisão na construção da responsabilidade é muito importante, também para os cães comunitários. Alimentar, por exemplo, os animais na rua é uma ótima maneira. Vê-la oferecer, fazer boas ações e elogiar isso, o que leva à formação de um ser humano melhor”, diz.
Programas públicos
Com abrigos públicos, a prefeitura de São Paulo tem hoje um centro de adoções com centenas de animais, principalmente cães e gatos. O foco do programa municipal de adoções é a promoção da guarda responsável e da educação ambiental. O espaço recebe grupos escolares, de até 30 crianças, com mediação do contato com os animais e o objetivo de criar consciência nos pequenos, que agem como multiplicadores em seus lares.
“A criança é um agente multiplicador, leva para sua família e sua comunidade informações e o entendimento de como é importante respeitar os animais”, explica Telma Tavares, da Secretaria Municipal de Saúde, gestora do espaço.
O foco da estratégia é usar a sensibilização, durante as visitas, como porta de entrada para as orientações. O projeto, chamado Superguardiões, começou em 2019 e funciona por agendamento. Em 2025 foram mais de 1.900 visitantes. A esse programa de portas abertas, se soma outro de visitação dedicado aos pequenos que estão em alfabetização. O programa Leituras leva os pequenos a lerem para os cães e gatos do Centro Municipal de Adoção.
Segundo Telma, parte das escolas aproveitou e incluiu a iniciativa no processo de letramento: as crianças não apenas liam histórias para os animais, mas passaram a conhecer sua trajetória e a escrever sobre os bichinhos.
“São ações que facilitam a adoção posterior. Os animais vão se tornando mais dóceis, se acostumando com as visitas. Claro que tomamos o cuidado de selecionar aqueles que não são agressivos, mas esse contato ajuda, inclusive, a conscientizar e educar para práticas sustentáveis”, afirma Telma.
O processo de adoção, que resulta muitas vezes da convivência e do cuidado com animais, tem algumas regras de ouro. Essas são algumas, sugeridas por Telma e Viviane:
– considerar se todos os membros da família estão de acordo e conscientes das responsabilidades que terão com o animal;
– pensar de forma realista se a família tem condições de cuidar. Não apenas em relação à questão material, mas também a ter tempo e condições de adaptar a rotina;
– refletir se o planejamento de vida da família se adequa à adoção;
– planejar, para evitar abandono e manter cuidados de forma adequada.
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SONIA PEÇANHA
É veterinária no Rio de Janeiro.
Maus-tratos a animais: o que a psiquiatria revela sobre a mente de quem agride
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