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Especialistas alertam que violência contra animais nem sempre está ligada a transtornos mentais
Publicado em 27/01/2026 8:11 - Sonia Peçanha
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Compreender por que seres humanos praticam maus-tratos contra animais é um desafio que atravessa a psiquiatria, a psicologia e as ciências sociais. Longe de explicações simplistas, especialistas destacam que esse tipo de violência resulta, na maioria dos casos, da combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais — e não necessariamente de um transtorno mental específico.
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O psiquiatra Bruno Andraus afirma que a psiquiatria trabalha a partir do chamado modelo biopsicossocial, que entende o comportamento humano como resultado da interação entre predisposições genéticas, funcionamento psíquico e influências do meio social. “Na psiquiatria, praticamente tudo é multifatorial. Não existe um único elemento capaz de explicar, isoladamente, um comportamento”, afirmou.
Essa perspectiva afasta tanto a ideia de que todo agressor de animais seja portador de um transtorno psiquiátrico quanto a noção de que a violência contra animais seja sempre fruto de impulsos incontroláveis. “Há situações em que o ato é cometido de forma consciente, planejada e deliberada. Em outras, pode haver comprometimento psíquico. Cada caso precisa ser analisado individualmente”, explicou o psiquiatra.
Embora não exista um diagnóstico psiquiátrico específico associado aos maus-tratos contra animais, alguns transtornos podem contribuir para comportamentos violentos ou negligentes. Entre eles estão quadros psicóticos, como a esquizofrenia, nos quais a perda do contato com a realidade pode levar a agressões; transtornos do humor, como depressão e transtorno bipolar, que podem comprometer a capacidade de autocuidado e de cuidado com terceiros; e transtornos do controle do impulso, marcados por explosões de raiva e agressividade.
Também aparecem com frequência, segundo especialistas, o transtorno de acumulação — caracterizado pela retenção compulsiva de objetos ou animais, sem condições mínimas de cuidado —, além do transtorno de conduta e do transtorno de personalidade antissocial, nos quais a ausência de empatia pode resultar em violência extrema. No campo dos transtornos parafílicos, a zoofilia é citada como uma condição que exige análise clínica cuidadosa e multifatorial.
Se a psiquiatria se dedica a entender o agressor, a medicina veterinária e a etologia concentram esforços nas consequências da violência para as vítimas. De acordo com o médico veterinário Frederico Lobão, diretor técnico da Associação Brasileira contra a Zoofilia e Maus-Tratos aos Animais (ABCZoo), os danos vão muito além das lesões físicas.
“Animais vítimas de maus-tratos costumam apresentar sinais claros de sofrimento emocional. Muitos desenvolvem medo intenso de pessoas, hipervigilância e dificuldade de socialização”, explica. Estudos indicam que até mesmo alterações no tom de voz — especialmente quando agressivo — podem gerar estresse e impacto duradouro no comportamento dos animais. “O abandono, na maioria das vezes, é apenas a ponta do iceberg de uma sequência de violências que começa com a negligência”, acrescenta.
Nesse contexto, a ressocialização dos animais resgatados é considerada uma etapa fundamental no enfrentamento da crueldade. O processo envolve, inicialmente, a recuperação clínica, com tratamento de ferimentos e doenças, seguida de um trabalho gradual de recondicionamento para o convívio com humanos.
Segundo Lobão, com acompanhamento adequado, a maioria dos animais consegue se adaptar novamente. “Esses animais não se tornam agressivos por natureza. Eles podem apresentar medo, mas, com tempo, cuidado e um ambiente seguro, recuperam a confiança. O ciclo se completa quando encontram um novo lar”, afirma.
A violência contra animais não pode ser tratada apenas como um problema individual, mas como um fenômeno complexo, que exige respostas articuladas entre saúde mental, políticas públicas, educação e proteção animal. Entender as causas é um passo essencial para prevenir novos casos e romper o ciclo da crueldade.
Quais transtornos podem estar relacionados?
Esquizofrenia: A esquizofrenia é um transtorno do pensamento em que a pessoa pode entrar em um quadro delirante e psicótico e acabar não respondendo por si. Diante dessa perda de consciência, o indivíduo pode acabar cometendo maus-tratos contra os animais;
Transtornos de humor: Como a depressão e o transtorno bipolar, os transtornos de humor podem deprimir os indivíduos, o que traz dificuldades para que ele consiga cuidar de si, e do animal que é responsável;
Transtorno do controle de impulso: Responsável por levar a pessoa a lapsos comportamentais, o transtorno do controle de impulso pode acarretar surtos de raiva, o que resultaria em violência;
Transtorno de acumulação: Considerado um dos mais clássicos quando se trata de indivíduos praticantes de maus-tratos contra animais, o transtorno de acumulação é entendido como a condição de acumular itens, inclusive bichos, de forma descontrolada;
Transtorno de conduta e transtorno antissocial: O transtorno de conduta e transtorno antissocial é compreendido como a condição em que o comportamento do indivíduo se baseia na falta de empatia, o que pode levar aos maus-tratos e até a morte de animais;
Transtornos parafílicos: Transtornos parafílicos são transtornos sobre o interesse sexual e dentro desses transtornos temos se encontra a zoofilia, que é quando o ser humano pratica atos sexuais com animais. A explicação psíquica para o surgimento do interesse do indivíduo por praticas sexuais com animais também deve ser analisada caso a caso de forma multifatorial.
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SONIA PEÇANHA
É veterinária no Rio de Janeiro.
Brasil tem cerca de 30 milhões de animais domésticos abandonados
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