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Idelber Avelar analisa as competições sul-americanas deste ano
Publicado em 26/11/2024 12:49 - Idelber Avelar
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Aí vão meus dois centavos sobre as competições sul-americanas deste ano, naquele jeito brasuca-argento meu, tentando fazer pontes que talvez não estejam visíveis para quem só acompanha o futebol de um desses dois países.
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O resumo da ópera é que a seleção argentina vai bem, mas o campeonato argentino vai mal. A seleção brasileira vai mal, mas o campeonato brasileiro vai bem. Poderia estar melhor ainda, se se organizasse a partir de uma liga autônoma, mas está, de todas formas, bastante bem em comparação com os vizinhos.
As razões disso são múltiplas, complexas, e não tenho a menor pretensão de explicá-las em um post.
Mas queria confessar que o gênero “TV argentina chorando a dominação de clubes brasileiros na Libertadores” está mexendo demais com meu sadismo. Fiquei viciado. Já me peguei torcendo para rivais brasileiros na Libertadores, só pelo gosto de ver a ESPN argentina ou o TyC Sports chorando depois.
Meus amigos argentinos não devem se ofender com isso. Já sequei a seleção brasileira também, só pelo gosto de ver a choradeira na TV. O fato é que o deleite com a desgraça alheia é uma emoção comum, demasiado humana.
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Neste sábado, a Copa Libertadores terá um campeão brasileiro – será Galo ou Botafogo – pela sexta vez consecutiva. Isso nunca tinha acontecido na competição. Dessas seis finais, quatro foram totalmente brasileiras e em duas um argentino perdeu para um brasileiro.
As discussões na TV argentina sobre a dominação brasileira – que são infinitamente superiores às conversas de futebol que acontecem na TV brasileira, há que se dizer isso – têm tomado, em geral, a forma de um dilema Tostines: o campeonato brasileiro de clubes é melhor que o argentino porque tem mais dinheiro ou ele tem mais dinheiro porque é melhor?
Claro que a economia brasileira tem uma pujança, com moeda estável, que a argentina não tem. Em certo sentido, dá para responder assim. O que o futebol brasileiro tem que o argentino não tem? O Plano Real.
[por outro lado: o que o futebol argentino tem que o brasileiro não tem? Várias grandes escolas de técnicos, mas isso é outra discussão].
Independente, no entanto, da economia maior e mais estável, o campeonato brasileiro está estruturado (minimamente, ainda falta muito) para que o produto gere interesse.
Desde 2003 valem as mesmas regras: todo mundo joga contra todo mundo, os 4 últimos caem para a Série B, os 4 primeiros da B sobem, não há virada de mesa. Como o Brasil tem 5 vagas na Libertadores, 2 na Pré-Libertadores e mais 5 na Sul-Americana, e como invariavelmente abrem-se mais vagas para o país pelos títulos internacionais do ano anterior, e como 4 clubes sempre caem, o campeonato brasileiro é emocionante. Todo mundo joga por algo até o final.
Na Argentina, não é assim. Foram acumulando viradas de mesa até inchar o campeonato para 30 clubes, o rebaixamento é decidido por um “promedio” de pontos dos últimos anos, a menos que caia algum clube grande ou apadrinhado, em cujo caso o rebaixamento será suspenso, ninguém sabe como se jogará o campeonato seguinte, as regras mudam toda hora, o torcedor precisa acompanhar até cinco tabelas diferentes e, como o campeonato tem 30 times, a maioria dos jogos não vale nada, pois nada real está em disputa. Quem vai investir numa porcaria dessas?
Isso independe da discussão sobre clube associativo x SAF. Esta última não pode ser ideologizada, como se todo mundo precisasse tomar uma decisão “contra” ou “a favor” de uma coisa ou de outra, em abstrato, sem observar a situação do clube em questão.
Digo isso porque a partir da vitória do Racing sobre o Cruzeiro na final da Sul-Americana, o Página 12 já publicou a tradicional patacoada: “vitória prova que clube associativo pode vencer SAFs,” como se isso alguma vez estivesse estado em questão.
O que as discussões ideologizadas sobre SAF costumam esquecer na Argentina é que os dois clubes brasileiros mais vitoriosos dos últimos anos (o Flamengo e o Palmeiras) não são sociedades anônimas e nem pensam sê-lo. Continuam sendo clubes associativos.
Em outras palavras, o fato de que o Campeonato Brasileiro gera muito mais dinheiro que o argentino tem a ver com a economia brasileira e com a organização das regras do campeonato, não com o fato de que alguns clubes (Vasco, Botafogo, Cruzeiro, Galo, Coritiba, Bahia) passaram a ter o seu futebol gerido por sociedades anônimas.
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Para os brasileiros há que se observar isso porque, na medida em que a seleção brasileira acumula decepções, é importante não dar ouvidos aos demagogos que aproveitam as derrotas para tentar mexer nas poucas coisas que o Brasil já consertou, como as regras do campeonato, por exemplo, ou a abertura para mais jogadores estrangeiros.
Não falta maluco para sugerir que a má fase da seleção brasileira tem a ver com os fatos de que “enchemos nossos clubes de estrangeiros” ou de que “agora temos futebol sem a emoção do mata-mata e da final.” É preciso saber não “consertar” o que não está errado.
De resto, bom jogo para todo mundo do mar alvinegro de sábado em Buenos Aires. E respeitemos a cidade, por favor.
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IDELBER AVELAR
Professor titular na Universidade Tulane (EUA), é autor de “Alegorias da Derrota” (UFMG), “Figuras da Violência (UFMG) e “Eles em Nós; Retórica e Antagonismo Político no Brasil do Século 21 (Record). Prepara um livro sobre a memória e o futebol
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