24/04/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Meu lado caviar

Publicado em 17/10/2014 12:00 - Rodrigo Amém

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Como eu estava dizendo, bom seria se analisássemos ideias e projetos pelo seu valor e eficácia, não por sua origem partidária ou filosófica. Semana passada eu comentei alguns projetos de origem liberal que teriam um impacto profundamente positivo em nossa sociedade. Hoje, repetimos a experiência com as ideias da “esquerda-caviar”.

Preservação ambiental

A direita acredita que o mercado determina o que é bom ou ruim, caro ou barato, importante ou irrelevante. Discordo. Determinadas questões precisam de fiscalização e intervenção do governo. Defesa do meio ambiente, por exemplo.

Fosse pelo mercado, o planeta seria habitado por homens, frangos, vacas, porcos e peixes. Os quatro primeiros viveriam em condomínios de luxo e os quatro últimos confinados em criadouros. Mas, e se o governo brasileiro concedesse isenção de IPVA para carros elétricos? E se as empresas que reduzissem suas emissões de carbono recebessem incentivos fiscais? Nada muda uma cultura mais rápido do que meter – ou deixar de meter – a mão no bolso do cidadão.

Educação

A direita acha que o Estado não tem que se meter em quase nada. Isso significa deixar que o mercado decida o valor e importância das coisas. Mas, quando o assunto é ensino fundamental e técnico, a coisa muda. Não existe, na história da humanidade, civilização que tenha prosperado sem revolucionar a importância da educação de base.

A grande defasagem do mercado de trabalho brasileiro é de técnicos. Muito disso se dá pelo histórico preconceito social contra aqueles que colocam a mão na massa. Deus me livre meu filho ser mecânico. Pergunte a um executivo de uma siderúrgica ou de uma montadora de automóveis o suplício que é achar mão de obra especializada no Brasil. No entanto, bacharéis de Direito das mais questionáveis instituições continuam brotando do asfalto. Todos se preparando para o próximo concurso público, onde possam ganhar mais e produzir menos. Com estabilidade, por favor.

E por falar em concurso público, é fundamental que a profissão de educador receba o prestígio reservado a procuradores, juízes e magistrados em geral. Professor tem que ter salário e carreira de burocrata da Petrobrás. De onde virá o dinheiro? Ora, do fim da Petrobrás.

 Prisões

A direita vê o sistema carcerário como um misto de exílio e vingança. Cometeu crime, apodrece lá. Se morrer lá dentro, melhor pra todo mundo. Bandido bom é… bem, você sabe.

Eu acredito que a cadeia tem que ser pública e sustentável. Um sistema onde a punição seja, também, aprendizado. A população carcerária deve produzir tudo que o presídio consumir. As penas devem ser diminuídas através de uma combinação de estudo, trabalho e bom comportamento. Isso significa que os “estupradores e assassinos” vão ter uma vida tranquila na cadeia? Claro que não. As penas têm que ser maiores – muito maiores – para os crimes mais graves. Deixa o cara trabalhar seus demônios na enxada, debaixo do sol, anos a fio. Mas também não significa que “direitos humanos só para humanos direitos”.

Inclusão Social

Os números não mentem, nem têm preconceito. Projetos de inclusão social dão resultado, não só no Brasil como em várias partes do mundo. Políticas como bolsa-família impactam de forma positiva o problema da disparidade social e devem ser ampliados, aperfeiçoados, apoiados. Um posicionamento que faz de mim uma pessoa sórdida. Já que eu sou favorável a políticas de inclusão social, devo ser “esquerda-caviar”, ou seja, hipócrita. Porque, para algumas pessoas, só faz sentido defender melhorias que as beneficiem diretamente. Chegamos a um ponto em que lutar pelo bem-estar alheio é moralmente condenável, por alguma razão. Mas isso é papo pra outro dia.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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