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Metanálise internacional contesta suposta vantagem física de mulheres trans no esporte

Revisão de 52 estudos indica que força e capacidade aeróbica de mulheres trans são semelhantes às de mulheres cis

Publicado em 17/03/2026 1:30 - Luiza Camargo

Divulgação CBV

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As diferenças fisiológicas entre homens e mulheres historicamente justificaram a divisão das competições esportivas por sexo. Nos últimos anos, porém, a participação de atletas trans tem colocado em xeque essa lógica binária e alimentado um debate que atravessa ciência, política e esporte.

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No Brasil, um dos casos mais conhecidos é o da jogadora de vôlei Tifanny Abreu, primeira mulher trans a atuar na elite do voleibol nacional. No último dia 27, sua presença na Copa Brasil foi contestada após a aprovação de uma lei municipal em Londrina (PR) que proibia a participação de atletas cujo gênero divergisse do sexo biológico. A norma acabou suspensa por decisão judicial e pela ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que considerou a medida inconstitucional.

Com a liminar, Tifanny entrou em quadra — e saiu campeã com o Osasco, sendo eleita a melhor jogadora da final.

Disputa política no Legislativo

O episódio se insere em um movimento mais amplo. Levantamento da rede Diadorim mostra que, entre 2019 e 2024, 127 projetos de lei que afetam negativamente pessoas trans foram apresentados em assembleias estaduais e no Congresso Nacional. Desse total, 35 propostas (27%) tratam especificamente da exclusão de atletas trans de competições esportivas.

O debate público, segundo pesquisadores, tem sido frequentemente impulsionado por discursos de pânico moral e pela ideia de uma suposta “vantagem biológica” generalizada. No entanto, a presença de atletas trans no esporte de alto rendimento é extremamente rara. Nos Jogos Olímpicos de Paris, por exemplo, apenas 2 entre 10.500 atletas eram pessoas trans — cerca de 0,02% do total.

Mesmo assim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) discute a possibilidade de restringir completamente a participação de mulheres trans em categorias femininas até os Jogos de 2028.

O que diz a ciência

Uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) questiona a premissa de que mulheres trans teriam vantagem física sistemática sobre atletas cisgênero.

Publicado no periódico British Journal of Sports Medicine (BJSM) — uma das revistas de maior impacto na medicina esportiva — o trabalho consiste em uma metanálise, método que reúne e analisa resultados de diversos estudos já publicados. No caso, foram examinadas 52 pesquisas, envolvendo 6.485 participantes.

Os trabalhos analisados compararam pessoas trans e cisgênero em quatro dimensões principais: composição corporal, força física e capacidade aeróbica.

A conclusão central: não foram identificadas diferenças significativas de desempenho físico entre mulheres trans e mulheres cis, apesar de uma tendência de maior massa magra nas atletas trans.

Como os estudos avaliam desempenho físico

Para medir essas variáveis, as pesquisas utilizam métodos padronizados da fisiologia do exercício.

A composição corporal costuma ser analisada por ressonância magnética ou por exames de absorciometria de raios X, capazes de distinguir gordura, massa magra e tecido muscular.

A força dos membros superiores é geralmente aferida por meio do teste de prensão manual (handgrip), enquanto a força dos membros inferiores é estimada pela altura atingida em saltos verticais.

Já a capacidade aeróbica — indicador da eficiência do organismo em captar e utilizar oxigênio durante o esforço — é medida em testes cardiopulmonares realizados em esteiras ou bicicletas ergométricas, com analisadores de gases acoplados a máscaras respiratórias.

Resultados da metanálise

Segundo a revisão, não houve diferenças estatisticamente relevantes entre mulheres trans e cis em quatro indicadores:

– massa gorda;

– força dos membros superiores;

– força dos membros inferiores;

– capacidade aeróbica.

A única variável consistentemente maior entre mulheres trans foi a massa magra. Ainda assim, os pesquisadores alertam para interpretações simplistas.

“Massa magra não é sinônimo de músculo”, explica o professor da USP Bruno Gualano, um dos autores do estudo. O termo inclui também ossos e água corporal, e muitos trabalhos não conseguem distinguir com precisão esses componentes.

Além disso, o maior volume de massa magra não se refletiu em ganhos mensuráveis de força ou capacidade aeróbica. Em termos práticos, isso significa que a diferença não se traduz necessariamente em desempenho esportivo superior — como maior potência de ataque ou alcance de bloqueio no vôlei, por exemplo.

Outro ponto apontado pela pesquisa é que a terapia hormonal afirmativa de gênero tende a reduzir gradualmente essa diferença. Ao longo de um a três anos, observa-se diminuição da massa muscular e aumento da massa de gordura, aproximando as características corporais das mulheres trans às das mulheres cis.

Desempenho esportivo vai além da fisiologia

Os autores também destacam que indicadores fisiológicos não determinam, por si só, o sucesso esportivo. Fatores sociais, psicológicos e culturais também influenciam o rendimento de atletas.

Nesse aspecto, pessoas trans frequentemente enfrentam desvantagens estruturais. Estudos apontam maior incidência de transtornos mentais nesse grupo, associados à discriminação e à exclusão social — inclusive no ambiente esportivo.

Limitações das pesquisas

A própria metanálise reconhece limitações nos estudos analisados. Há grande variação metodológica entre as pesquisas e poucos trabalhos seguem o chamado “padrão-ouro” da medicina, baseado em ensaios randomizados com grupos de controle.

Segundo Gualano, essa lacuna se deve em parte a dilemas éticos. “Seria problemático impedir que pessoas trans tivessem acesso ao tratamento hormonal apenas para compor um grupo de controle”, afirma.

Outro obstáculo é a escassez de estudos com atletas de elite e o tempo relativamente curto de acompanhamento — a maioria das pesquisas observa participantes por até três anos.

Mesmo assim, o pesquisador defende que as evidências disponíveis já oferecem subsídios relevantes ao debate público.

“Evidências imperfeitas ainda são melhores do que nenhuma evidência”, afirma. “Banir grupos vulneráveis sem base empírica sólida é uma medida desproporcional.”

Repercussão internacional

Curiosamente, o estudo teve maior repercussão fora do Brasil do que no próprio país — possivelmente por ter sido publicado em inglês. Nas redes sociais, a reação foi marcada por forte polarização.

Segundo Gualano, pesquisadores envolvidos no trabalho receberam uma avalanche de comentários hostis no X (antigo Twitter), incluindo ataques xenofóbicos dirigidos aos cientistas brasileiros.

“Nunca havia trabalhado em um tema que provocasse reações tão intensas e, muitas vezes, irracionais”, diz o professor.

Para ele, justamente por se tratar de um grupo social historicamente marginalizado, a produção científica sobre o tema é essencial.

“A ciência precisa olhar para essas pessoas com mais humanidade e menos automatismo”, conclui.

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LUIZA CAMARGO

É jornalista e professora. Atua em São Paulo.

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Luiza Camargo


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