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Eles em Nós

Lobby para convocação de Neymar é um circo demencial

Brasil tem uma longa história de fracassos em Copas por não perceber que o tempo havia passado

Publicado em 19/03/2026 5:54 - Idelber Avelar

Divulgação Reprodução

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No domingo (15), Neymar enfrentou o Corinthians em casa, com apoio de sua torcida. Depois de 99 minutos, havia finalizado duas vezes, ambas para fora. Em campo adversário, deu 20 passes e errou 7, taxa de acerto de 65%, baixa até para um atacante. Tentou 3 dribles e fracassou em todos. Deu 45 toques na bola e perdeu-a 21 vezes, média de quase uma perda para cada dois toques. Participou de 11 duelos no chão e perdeu 8.

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Neymar teve uma assistência, mas basta ver a jogada para saber que os méritos foram do zagueiro corinthiano Gabriel Paulista, que escorregou e entregou a bola, e de Gabriel Barbosa, que arrancou 35 metros e finalizou. A “assistência” consistiu em a bola bater em Neymar entre a entregada de Paulista e a arrancada de Barbosa.

Na segunda (16), Carlo Ancelotti anunciou a Seleção que jogará contra Croácia e França. Havia novidades: Igor Thiago, atual vice-artilheiro da Premier League, Rayan, que em apenas sete partidas na liga mais difícil do mundo já conquistou a torcida do Bournemouth com gols, arrancadas e dribles, e Gabriel Sara, que liderou o Galatasaray em uma vitória contra o Liverpool.

Mas em todos os canais, o destaque foi a ausência de Neymar. Na coletiva, Ancelotti teve que explicar de novo a obviedade de que Neymar não foi chamado porque não está em condições. Um youtuber chegava a reclamar que Ancelotti não havia “se comunicado” com Neymar antes de ir ver o Santos atuar em Mirassol. Como esse estrangeiro ousa não saber que Neymar jamais joga em época do aniversário da irmã!

É um circo demencial. O lobby e o fã-clube não se preocupam em apresentar números ou análises de algum fato dos últimos três anos e meio. Não demonstram qualquer conhecimento da intensidade e velocidade com que se joga o futebol em alto nível hoje.

Repetem-se a mesma meia dúzia de clichês: “você não pode deixar um jogador do talento de Neymar,” afinal de contas ele “pode resolver um jogo em um minuto.” O que raios o Brasil faria para manter o jogo competitivo durante os outros 89 minutos se há apenas dois meio-campistas no time e, portanto, obrigação de que os quatro atacantes pressionem a saída de bola adversária é, obviamente, um problema complexo demais para a imaginação do lobby.

O importante é mostrar golaços de Neymar de dez anos atrás e concluir com a pergunta retórica: como pode Neymar ficar fora de uma seleção que tem jogadores de clubes “pequenos” como o Newcastle e de ligas “de várzea” como a saudita?

O Brasil tem uma longa história de fracassos em Copas por não perceber que o tempo havia passado. Na preparação para 1966, era comum que prefeituras exigissem a presença dos bicampeões nos amistosos. Preso entre a geração que chegava e os veteranos que se recusava a abandonar, o Brasil enviou à Inglaterra a seleção de média de idade mais alta do torneio, e viu seu mito Garrincha, já fora de forma, ser repetidamente desarmado pelos húngaros.

Em 2006, o mesmo Parreira que em 1994 havia armado um time eficiente e contemporâneo à sua época, já era um técnico defasado. Em 2014, o mesmo Felipão que em 2002 havia conquistado o penta com méritos, já era um técnico defasado.

Imaginar um futuro hipotético baseado em imagens de um futebol que já não existe nunca foi uma fórmula de sucesso. Neymar foi, sem dúvida, um gênio da bola. Foi.

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IDELBER AVELAR

Professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane (EUA) e autor de “Eles em Nós: Retórica e Antagonismo Político no Brasil do século XXI” (Record, 2021). Coapresenta o podcast “Meio de campo: o futebol e sua história” no canal Meio

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