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Povos da Terra

Garimpo recua na terra Yanomami, mas malária prevalece

Avanços logísticos coexistem com fragilidades sanitárias e institucionais profundas

Publicado em 15/07/2025 2:01 - Ava Rory

Divulgação Fernando Frazão - Abr

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Em meio à densa floresta amazônica, na região norte do Brasil, onde os rios são trilhas e o céu é a única estrada segura, um paradoxo escancara a complexidade do Estado brasileiro: de um lado, o sucesso operacional de expulsar garimpeiros da Terra Indígena Yanomami; de outro, a incapacidade de controlar a malária e garantir assistência sanitária básica. Mais de dois anos após a explosão da crise humanitária que horrorizou o país — com imagens de crianças esqueléticas e comunidades abandonadas à própria sorte —, o que emerge é o retrato de uma intervenção robusta, mas ainda frágil em sua dimensão humana.

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Os dados são eloquentes. Segundo o Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), entre 2022 e 2024, a área de garimpo na Terra Yanomami caiu de 1.001,55 hectares para 37,04 hectares — uma redução de 95,76%. A desintrusão, considerada tecnicamente bem-sucedida, foi conduzida sob a coordenação da Casa de Governo em Roraima, estrutura inédita criada pela Casa Civil da Presidência da República para articular 31 órgãos federais e conduzir a complexa operação.

À frente da missão, o servidor Nilton Tubino, experiente em ações de retirada de invasores, afirmou que postos de saúde destruídos pelos próprios garimpeiros foram reabertos, e voos com lideranças indígenas mostraram a desarticulação de estruturas milionárias que, até pouco tempo, operavam impunemente. “Hoje, um litro de óleo diesel, dentro do garimpo, está R$ 70,00. Um voo que em 2023 custava R$ 4 ou 5 mil, hoje está saindo em torno de R$ 20 mil”, relatou ao UOL. O prejuízo estimado ao garimpo ilegal em 2024 foi de R$ 267 milhões, segundo o Ministério dos Povos Indígenas.

O ouro que sai, e a doença que fica

Se os garimpeiros recuaram, a malária permaneceu e, em alguns trechos, avançou. O número de mortes pela doença caiu 35% de 2023 para 2024, segundo dados do Ministério da Saúde. No entanto, os casos detectados aumentaram — o que, para o governo, é resultado de uma maior busca ativa. Mas a explicação oficial não convence parte das lideranças indígenas e organizações como a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que acionaram o Supremo Tribunal Federal para exigir maior transparência dos dados.

A última atualização oficial foi divulgada em março de 2025, referindo-se apenas ao primeiro semestre de 2024. Já um pedido de Lei de Acesso à Informação feito pela Folha de S.Paulo revelou 33 mil registros de malária na TI Yanomami em 2024. Embora o Ministério da Saúde argumente que os números podem incluir repetições (o mesmo paciente testado várias vezes), a dimensão do problema está dada.

Segundo o geógrafo Estevão Senra, do Instituto Socioambiental (ISA), há um gargalo estrutural no modelo atual de atenção à saúde indígena. Apesar do aumento expressivo de profissionais — 1.757 atuando na região até janeiro de 2025 —, esses tendem a ficar concentrados nos polos fixos. “Você diminui a sua capacidade de intervir logo no estágio inicial da doença e interromper a transmissão. Essa tem sido uma das principais queixas das lideranças e das comunidades”, afirma.

O Estado que chega tardiamente é também o que hesita em permanecer

A complexidade do caso Yanomami não é nova. A homologação da Terra Indígena ocorreu em 1992, após anos de pressão internacional e denúncias de genocídio cultural. Ainda assim, nos 30 anos que se seguiram, o território foi alvo de sistemáticas invasões — incentivadas, muitas vezes, por discursos permissivos ou por omissões deliberadas do próprio poder público. Durante o governo Bolsonaro, o garimpo ilegal cresceu exponencialmente, impulsionado por declarações que deslegitimavam o direito indígena à terra. O Estado, portanto, não apenas se omitiu: ele patrocinou, institucionalmente, a devastação.

Essa lógica é descrita com precisão pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, ao afirmar que “a história do Brasil é, em larga medida, a história do extermínio de seus povos originários — seja pela violência direta, seja pelo descaso.”

A atual política de reconstrução na TI Yanomami representa uma tentativa de reverter esse ciclo histórico. Mas enfrenta o desafio do tempo: a Casa de Governo tem previsão de funcionamento até 2026. Ainda não está claro como será sua sucessão, institucionalização ou possível transformação em política de Estado. Sem essa garantia, o risco de retrocesso é real.

Tecnologia, território e autonomia indígena

Um dos aspectos mais inovadores da estratégia atual foi o uso da tecnologia de informação por lideranças indígenas. O sistema de alerta para garimpo, desenvolvido em parceria entre ISA, UNICEF e Hutukara, permite que as comunidades alertem o governo em tempo real. Cerca de 70% das denúncias recebidas na primeira fase da Operação Catrimani II foram validadas e geraram resposta institucional.

A proposta agora, segundo Tubino, é ampliar o acesso dos Yanomami a drones, internet e ferramentas de georreferenciamento, fortalecendo o protagonismo indígena na proteção de seu território. Trata-se de um passo civilizatório importante: não apenas proteger os Yanomami, mas permitir que sejam os defensores centrais de sua própria existência.

Entre a emergência e a permanência: o que está em jogo

Os investimentos feitos — mais de R$ 1,7 bilhão em créditos extraordinários — revelam a magnitude da operação. No entanto, a transformação efetiva da realidade exige mais do que orçamento: demanda vontade política, continuidade administrativa e respeito à autonomia indígena.

Para o filósofo Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, o Estado brasileiro sempre oscilou entre o improviso e o patrimonialismo, com baixa capacidade de institucionalizar políticas públicas universais. No caso Yanomami, a improvisação cedeu espaço a uma estratégia robusta — mas essa estrutura ainda depende da boa vontade do governo de turno.

E como lembra Davi Kopenawa, xamã e líder Yanomami, no livro A Queda do Céu: “Os brancos não sabem escutar a terra. Eles só escutam o barulho do ouro.” A lição permanece atual.

Entre o colapso evitado e o futuro incerto

O combate ao garimpo mostrou que o Brasil pode mobilizar inteligência, logística e articulação quando há decisão política. No entanto, a permanência de doenças evitáveis, como a malária, e a dificuldade de atuação precoce nas malocas revelam um Estado ainda refém de sua própria inércia histórica.

O futuro da Terra Yanomami é um teste não apenas de capacidade técnica, mas de compromisso civilizacional. A pergunta que resta é: o Estado brasileiro está disposto a permanecer ali, não como interventor, mas como aliado da floresta e de seus povos?

AVA RORY

É sociólogo e indígena da etnia Guarani e Kaiowá.

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Ava Rory


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