21/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Encontro com o Passado

Publicado em 07/07/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Como diriam os filósofos contemporâneos da banda The Fevers, "tudo na vida passa, tudo que sobe desce". Depois de trinta anos de hegemonia, a TV Globo segue firme em seu trajeto rumo ao ocaso.

É como assistir a uma colisão em câmera lenta. Todo mundo percebe o que está para acontecer. Já tem gente dizendo que a culpa é da internet, da Netflix, de 20 anos de praga rogada pelo Sílvio Santos. Tudo isso contribuiu, é claro. Mas a verdade é que se trata de um tiro no pé.

O fim da Vênus Platinada teve data de lançamento: 25 de junho de 2012. Você se lembra do que estava fazendo nesta data, amigo leitor? A Fátima Bernardes lembra. Ela realizava seu sonho: aparecer de corpo inteiro na TV, comandando um programa de entrevistas e fazendo merchandising de bijuteria diante de um auditório de figurantes.

Palmas para ela. Estamos felizes que, depois de cinco anos, seu projeto vingou. Para a empresa, é o começo do fim.

Quando a Globo resolveu dar à Fátima a sua chance de ser Hebe Camargo, foi uma decisão embasada em "muito estudo". Muitos diretores abriram suas páginas de Excel e enfrentaram os dados: a programação infantil não dá retorno financeiro. Os investimentos em comerciais na faixa dos desenhos animados ficam abaixo de 5%. Isso em função das proibições em anúncios voltados às crianças e ao fato de que os canais à cabo para "baixinhos" roubavam muita audiência. Segue a lógica? "Estamos perdendo dinheiro, gente. Coloca lá a Fátima vendendo presunto que a JBS é boa pagadora."

Resumo da ópera: as crianças são o futuro. Mas a Globo resolveu se agarrar com o presente e esquecer o passado.

Sem opções atrativas, as crianças aceleram sua debandada para o cabo e o streaming. Por hora, a Globo comemora. Audiência e arrecadação aumentaram. Mas é uma audiência envelhecida, descompromissada, fugidia. Um telespectador que sintoniza (olha eu entregando a idade) na atração, não no programa. Quando gosta do entrevistado fica. Quando não, vai embora. Não há vínculos.

Veja, televisão – em especial a chamada TV aberta – é uma criatura de hábitos. Quem nunca ouviu a expressão: "não tem nada de bom para ver na TV"? Muita gente diz isso, antes de continuar sentada, na frente do aparelho. O programa não tem que ser bom. Tem que ser familiar. Porque é alimentando o hábito do telespectador que as emissoras retêm o público por tempo suficiente para anunciar produtos, que é o verdadeiro conteúdo.

Minha infância na frente da TV Globinho, Balão Mágico e Xou da Xuxa fez da Globo um hábito que perdurou para bem além da minha adolescência. Mais que isso, a transição entre o Fofão e o TV Mulher (com Marília Gabriela) serviu de ambientação para os diferentes formatos da rede. Em determinados dias, quando meus pais se davam conta, eu já estava no Vale a Pena Ver de Novo. E o fato de eu lembrar essa programação trinta anos mais tarde é prova da força do hábito televisivo.

Obviamente, minha experiência não cabe no spreadsheet da Globo. Ela só vai até o fim do trimestre. E, se não baterem a meta, o numerozinho fica vermelho. Ou o gestor da área toma decisões agressivas para garantir seu bônus de fim de ano, ou ele dança. E não vai ser no palco da Fátima com a Anitta.

Resumo da ópera: as crianças são o futuro. Mas a Globo resolveu se agarrar com o presente e esquecer o passado.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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