Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
True Colors
Publicado em 03/09/2015 12:00 - Guilherme Cavalcante
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Mais dois filmes sobre pessoas transgênero estão em vias de sair do forno, direto para as telinhas. Um deles traz a excelente Elle Fanning interpretando um adolescente trans em "About Ray" . Já o outro chegou causando frisson, pois conta a história verídica de Lili Elbe, a primeira mulher transgênero que se submeteu a uma cirurgia de redesignação sexual (conhecida rudimentarmente como troca de sexo). Na película, é o recém vencedor do Oscar, Eddie Redmayne, que interpretará a personagem. E um fato: as duas histórias podem agregar muito ao mais que necessário debate sobre o direito às identidades, sobretudo no campo do gênero (veja trailers abaixo).
Mas (sempre tem um mas)… Não é um tanto quanto curioso, ou no mínimo inusitado, que personagens transgênero de filmes tidos como empoderadores não sejam interpretados por artistas que compartilhem da mesma condição?
Primeiro uma contextualização. Hollywood é um dos principais polos de produção audiovisual do mundo, certamente o principal do ocidente. Lá, dezenas de estúdios disputam anualmente as indicações para o prêmio máximo do cinema, o Oscar. E para isso fazem superproduções, os blockbusters, campeões de bilheteria. E como toda superprodução hollywoodiana, uma transformação no elenco é sempre bem vinda. Logo, quanto mais "bizarra" a caracterização for, melhor.
É assim que a qualidade da interpretação se torna apenas um detalhe. Deixar atriz bonita feia, fazer ator parecer mulher, alcançar um bom resultado nisso daí já é quase sinônimo de indicação ao Oscar. Hollywood gosta do freakshow e quando a transformação acontece direitinho, a bilheteria é certa, afinal, é esse o resultado que importa. E cá entre nós, quem não teria curiosidade de conferir Leonardo DiCaprio caracterizado como mulher? Difícil resistir.
Daí acabamos percebendo que a poeira não cabe mais sob o tapete. A poeira, no caso, atrizes e atores transgênero. Em termos gerais, quem está fora da norma não atua (a não ser atores gays que se mantêm no armário para não "arruinar a carreira"), não tem espaço nas grandes produções, são estranhos demais. A invisibilidade só é rompida com o movimento organizado, que ganha voz através da Internet, forma o buzz e deixa seu recado: representatividade importa.
Ainda para contextualizar, não é só no cinema que essa invisibilidade acontece. Nas telenovelas brasileiras são pouquíssimos e raros os exemplos de transgêneros em atuação. Aliás, falando em minoria, é meio inacreditável que há algumas décadas personagens negros eram interpretados por brancos por meio do "recurso" blackface – pele e rosto pintados de preto. Isso porque TV e cinema era lugar de gente branca. Aliás, não tem muito tempo, mas a Justiça precisou ter um papo tête-à-tête com a direção da TV Globo para que mais atores negros fossem inseridos nas tramas. Quer dizer…
.jpg)
No mercado internacional, são poucos exemplos de transgêneros em atuação, só me recordo de duas – Laverne Cox em "Orange is The New Black" e Jamie Clayton em "Sense8", mulheres trans interpretando mulheres trans. E no segundo exemplo, dá para citar que um dos criadores da série (ambas do sistema Netflix, a propósito) é Lana Wachowski, também mulher trans. Mas cisgêneros que interpretaram trans há aos montes: Hilary Swank em "Meninos não Choram", Felicity Huffman em "Transamerica", Glen Close em "Albert Nobbs" e, claro, o controverso Oscar vencido por Jared Leto em "Clube de Compra Dallas", dentre outros.
Veja, esse debate aqui não é o caso de deslegitimar o talento dos artistas citados, mas de falar que sua utilização em filmes que pretendem acender uma certa discussão faz com que o propósito "transformador" seja… desonesto. Não dá para sustentar o discurso (possivelmente dito quando o ator ou o diretor forem receber suas estatuetas) de que o filme transformará realidades se nenhum ator ou atriz transgênero estão no elenco.
Quer dizer, em outras palavras, isso significa dizer que toda e qualquer produção audiovisual com pessoas trans e que utilize cisgêneros em megatransformações para viver alguém da comunidade T não passará de fetichização de uma realidade que está aí, cada vez mais invisibilizada.
Assim, promover a representação de personagens trans por um elenco trans é revelar uma realidade que não se pode mais ocultar, é fortalecer a representação e, consequentemente, empregar pessoas igualmente talentosas em encenações memoráveis. O talento importa, mas não é exclusivo de cisgêneros. Oportunizar essa vivência também é impactar e romper com a transfobia, colocar corpos subalternos em evidência e promover oportunidades. É um ato de cidadania, de respeito e de dignidade à pessoa humana.
É o que nós, espectadores, queremos ver.
Leia outros artigos da coluna: True Colors
Deixe um comentário